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Vinte Vinte Quatro (Davi Pieri, 2026) - Mostra Brasília de Curta-metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

há 5 horas
2 min de leitura

No documentário, a comunhão entre confinamento e criação partilha das mesmas frestas de uma ternura resquicial de vidas antes do isolamento



Coesão e eloquência política alinhadas ao fazer artístico nem sempre se relacionam harmonicamente. A fluência intelectual em uma não necessariamente se expressa adequadamente na outra — afinal, são linguagens diferentes. Felizmente, não é o caso de Vinte Vinte Quatro. No documentário, que se encadeia tão cuidadosa e estreitamente aos elementos da ficção, a comunhão entre confinamento e criação partilha das mesmas frestas de uma ternura resquicial de vidas antes do isolamento.


Por isso, é bonito de ver, logo nas cenas iniciais, como a mini-biografia — praticamente reduzida a poucas informações, como nome, idade e infração — de um dos adolescentes não o define no decorrer da obra. Ao contrário, a câmera, sem jamais mostrar seus rostos, deixa que a comunicação entre ele e seus outros colegas ocorra dentro de um espaço da linguagem carregada de abreviações e gírias; daí também a capacidade de criação  — verbal — que engloba uma espécie de códigos ou espaços comuns pertencentes às identidades daqueles jovens. Algo também marcado pelo plano em que um jovem, com o braço esticado para fora da grade de concreto, soletra umas palavras com os dedos: o pacto com o espectador é formado nesse momento. 


Nos espaços confinados, por vezes mal iluminados devido à arquitetura propositalmente isoladora, o que nos resta são contornos (fotografados respeitosamente) e vozes. Estas, sim, são a força motriz do filme de Pieri — tanto para nos aproximar dos adolescentes quanto da equipe por trás da câmera, cujas intervenções sonoras funcionam como o limiar entre o documentário e a ficção. Portanto, a colaboração artística entre os cineastas e os adolescentes vai perdendo os contornos previamente estabelecidos no começo do filme. Esse esmaecimento das fronteiras é sublinhado pela entrega da câmera na mão de um dos adolescentes — essa inversão, a um só passo estética (pelo filtro negativo, como de uma película de filme) e simbólica, denota a qualidade artística daqueles meninos. Vemos, pelos olhos deles, esse mundo invertido, ao qual não temos verdadeiro acesso. 


A veia criativa deles ganha, pela câmera, mais substância. O que prevalece ainda são as vozes. Quando eles cantam, com as costas viradas para nós, o que o filme parece solicitar do espectador está ligado mais ao gesto da verdadeira escuta do que algo de outra ordem possivelmente apreendido pelas imagens. E nesse sentido, imaginamos com eles, no confinamento daquela realidade, lampejos de intenções e desejos a serem concretizados para além das amarras do sistema que os colocaram ali.



Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro




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