Jornada nas Estrelas (Angelo Pignaton, 2025) - Premiere DF | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Uma busca por imagens do passado familiar que transforma a memória em matéria de fabulação crítica

Há uma certa dificuldade particular em escrever sobre um filme realizado por um amigo. Isso me ocorreu duas vezes na Première DF deste ano e nunca havia me acontecido antes. Ainda nesse aspecto, certas imagens parecem deter sentidos que ultrapassam aquilo que está efetivamente na tela, ao menos para mim nesse momento. E reconhecer essa proximidade, porém, não significa abandonar o olhar crítico, mas compreender de que lugar também assisto à obra. Como ela me impacta diferente de um filme onde não tenho qualquer contato com os autores?
Em Jornada nas Estrelas (2026), de Angelo Pignaton, essa dimensão íntima faz parte do projeto fílmico, que transforma a família do diretor em personagens do documentário, assim como ele mesmo — algo que tem marcado sua filmografia até então, como em Aves Coloridas (2023), por exemplo. Sendo assim, a busca pela fotografia da avó, Dona Arlete, que jogou vôlei pela seleção de Volta Redonda, formada por funcionários da siderúrgica, nos anos 1950, torna-se o eixo central de uma investigação sobre as gerações anteriores da família, conduzida pelas dúvidas de Angelo, das histórias contadas pela mãe do diretor, Jaqueline Muscida Mendes, também responsável pela direção de arte do filme, e dos vestígios da avó preservados por ela e pelo avô, Seu Carlos Mendes Danelon.
Encaro como algo especialmente bonito esse gesto de transformar a memória familiar em matéria cinematográfica, especialmente pelo carinho dedicado à maneira como aquilo que se expõe ao espectador é tratado. O documentário de Pignaton se faz, portanto, um espaço de encontro entre a história de uma família e a possibilidade de fabular o preenchimento de lacunas em sua história, em um gesto que remete à cinécriture de Agnès Varda, onde a universalização de experiências tão particulares amplificam a potência da história contada. Aliás, a linguagem documental de Varda parece ser uma referência importante neste trabalho, seja no modo de tratar o arquivo e a narrativa, nas intervenções mais criativas da forma ou em planos abertos onde Angelo e Carlos caminham pela cidade. Algo muito presente nos documentários da diretora, seja em Elsa, la rose (1965) ou em Visages Villages (2017), a título de exemplo. Este modo particular de tratar um assunto íntimo e fazê-lo ressoar no espectador — numa dimensão mais pessoal ou política — me parece muito similar entre esses dois autores.
Ainda, paralelamente a busca pela fotografia, o filme apresenta, como plano de fundo, Volta Redonda tomada por fogo, fumaça e indústria, enquanto Seu Carlos embala marchinhas animadas de outros tempos, quando aquela cidade talvez não fosse marcada por essa violência paisagística. Enquanto em primeiro plano, os dois caminham entre postos de atendimento públicos onde pensavam talvez encontrar, dentre os arquivos da cidade, algum registro da ex-jogadora. Mas parecem ser confrontados pelas grades da burocracia e certa falta de humanidade no tratamento de aspectos da memória familiar. Quanto vale a memória da família diante da institucional? A experiência se agrava com a desorganização e a aparente falta de conhecimento preciso das funcionárias sobre os arquivos dessas instituições, circunstância que provoca no espectador um incômodo difícil de ignorar.
Assim, o curta nos leva a discussões que vão para além da própria família do diretor, universalizando questões como burocratização da memória, lacunas biográficas e ausência de algo que atormenta as recordações familiares, atravessadas pela história institucional e pública de um lugar. Há em "Jornadas" algo com que cada espectador obcecado pelos mais diversos temas possa se reconhecer, ainda que eu tenha me visto presa à mesma compulsão da qual sofre Odetta, em Teorema (1968) — que tem como hobby investigar e catalogar os registros fotográficos e epistolares das relações de sua família.
Por fim, um momento particularmente marcante do curta é a sequência de fotografias da lata revisitada por Seu Carlos, quando ele é questionado pelo neto sobre a possibilidade de encontrar a fotografia da esposa jogando vôlei à época. E a cena é construída a partir de uma sequência de fotos de aniversários, comemorações e do casamento entre eles. O olhar da câmera, porém, percorre Arlete em todas as imagens. Arlete e as mãos sempre dadas entre ela e Carlos. Um momento imersivo naqueles arquivos tão pessoais e íntimos, mas também tão universais em registros do amor. Chorei bastante nessa cena e, até agora, é a minha favorita.
PS: Avisem a Seu Jeremias que eu reparei em sua narração daquele jogo de vôlei hipotético em que Dona Arlete teria jogado. A fabulação se estende até os créditos, hein!

Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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