Crítica - Safo (2025)
- Giulia Dela Pace

- 15 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de set. de 2025
Mostra Competitiva de Curta-metragens | 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Há uma delicadeza inegável na abordagem do feminino, sustentada pela trilha sonora; animação e por uma atmosfera quase mágica.

Safo (2025), de Rosana Urbes, estreou no segundo dia da 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na Mostra Competitiva Nacional de Curtas. Sendo o segundo filme dirigido pela animadora, que trabalhou em grandes animações dos estúdios Disney, como Mulan (1998).
Em Guida (2014), filme brilhante que inaugurou a carreira da realizadora como diretora, observamos uma obra repleta da mesma atmosfera airosa e de feminilidade delicada que também encontramos em Safo. Essa leveza não está apenas na animação, mas também na maneira como a diretora se expressa: há certa sensibilidade e suavidade na fala de Rosana. Sensibilidade que se traduz na construção de uma personagem complexa, como também no cuidado da execução. O resultado é um filme em que o espectador pode mergulhar na catarse fílmica, sentir a personagem e ser levado em sua jornada.
E é por reconhecer a força desse trabalho e o talento na direção de Rosana, que me dói soar dura ao analisar à obra de outra mulher. No entanto, aquilo que a diretora conseguiu alcançar em Guida, aqui, passou longe de acontecer.
Safo sofre com uma introdução acessória e excessivamente educativa, destoando da proposta estética e poética da própria animação, apesar de conseguir despertar interesse pela figura e obra de Safo, poetisa grega que viveu em 600 a.C na Ilha de Lesbos. O estilo narrativo e temático escolhido pela realizadora se transforma ao longo do curta-metragem, apesar do breve tempo de duração. O filme inicia com um tom quase didático, beirando o academicismo superficial até ceder lugar aos poemas de Safo, mas sem uma ponte mais suave que realize esse transporte do espectador de um ponto ao outro.
Sem embargo, a intenção poética do filme é clara. Embora a narração arrastada e a quebra brusca da percepção do filme sobre o objeto tornem a experiência pouco fluída. Ainda, há o problema da narração, sequela da falta de esmero da direção: dicção atrapalhada e voz pouco adequada à condução exigida na primeira parte do filme. Uma direção mais apurada da narração poderia ter evitado o ritmo “petracostista” que exaure o espectador em pouco tempo.
De todo modo, o hibridismo de técnicas de animação e uso das folhas secas foi rico. Em certos momentos, o traço do desenho e a forma da animação remetem diretamente às obras de Lotte Reiniger – animadora referência fundamental da história do cinema, diretora de filmes, como: As Aventuras do Príncipe Achmed (1926) e Papageno (1935). Ademais, o tom infantojuvenil, constante na obra de Urbes e que permeia o filme, não deve ser encarado como defeito. Pelo contrário, pois o curta poderia encontrar espaço potente em contextos educativos, como em aulas de literatura, artes ou história antiga em escolas de ensino básico. Seria uma forma encantadora de apresentar às novas gerações uma poetisa clássica feminina, abrindo espaço para referências não heteronormativas com uma boa seleção de um dos poucos trechos restantes da obra de Safo. No entanto, em uma mostra competitiva nacional, a seleção parece menos acertada.
Apesar das inconsistências de direção e da fragilidade da obra, o filme não desagrada por completo. Algo que agrada esta redatora em um nível pessoal, pois a experiência deste curta ressoa de maneira quase nostálgica, evocando os mesmos sentimentos de filmes, como A História Sem Fim (1984); O Jardim Secreto (1993) e As Crônicas de Spiderwick (2008).
E, por fim, como um romance sáfico: ainda que por poucos minutos, foi intenso e tocante.

Essa crítica faz parte da cobertura do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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