"Ataques Psicotrônicos" e o terror no olhar
- Júlio Oliveira

- 10 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Demonstrando um arcabouço referencial diverso, Ataques Psicotrônicos encontra a própria identidade na crença inabalável do gênero

O cinema sempre foi esse campo de batalha de ideias e possibilidades quanto ao uso de seus elementos, seja no contexto técnico como moral. Em A Mise en scène no cinema, de Luiz Carlos Oliveira Jr., por exemplo, vê-se que dois aspectos basilares da sétima arte sempre estiveram no centro de uma espécie de embate: de um lado, o plano, que estende a realidade da imagem através do tempo; do outro, a montagem, que encadeia ideias e ressignifica imagens através de sua sequência lógica. O privilégio que certos artistas davam a um aspecto ou outro (De Sica com seus planos alongados, Eisenstein com a montagem intelectual) gerava espécies de cinemas diversos, mas ainda cinema.
Essa introdução nasce para posicionar Ataques Psicotrônicos, curta do diretor baiano Calebe Lopes, em um espaço muito especial: o equilíbrio — ou ponto do meio — entre o privilegiar da montagem e do plano. Ao longo de todo o filme, acompanhamos uma espécie de dança entre os planos mais longos e o uso da montagem — com destaque à aplicação de fusões entre imagens — para gerar mais do que uma cadeia narrativa (ainda que ela exista), mas uma sensação única de perseguição, agonia, ansiedade e medo. Para isso, o diretor opta por aspectos contínuos da experiência, como a proporção da tela que prende os personagens àquela realidade, assim como a ausência de cores que aliena e a alta granulação que dá às imagens um aspecto quase imaterial, como se ela estivesse a ponto de se dissolver.
Esses aspectos da própria textura — ou da captura mais imediata do olhar — se somam à dança que já pontuei. Ainda que a ansiedade seja um lugar-comum do universo do filme, a obra não se rende a uma lógica apressada. Pelo contrário, o filme não economiza em longos planos dos personagens sofrendo com aquilo que não pode ser visto. O corpo é visto e sentido diante do absurdo — e logo no início temos uma cena brilhante de horror corporal que comprova tudo isso —, sendo especialmente destacado por uma iluminação que reforça a ideia de vigilância operada por uma força maior.

É interessante salientar, entretanto, que tal experiência não funciona simplesmente no apoio de imagens-âncoras, mas numa ideia de integração entre todas as cenas. Aqui entra a montagem com suas fusões que dão um senso de continuidade — narrativa, sensorial, emocional —, como se três imagens fossem uma só e a própria história se desenrolasse como algo inevitável, que já estava posto desde o primeiro plano. É a integração que não ignora o poder dos planos mais longos, mas também não desperdiça a potência capaz de ser extraída do encadeamento de imagens, ou mesmo do poder sugestivo das elipses.
É claro que, mesmo com todas essas qualidades, o filme poderia cair no lugar de “exercício de estilo”. Porém, a forma que a trilha sonora é operada — borrando as fronteiras entre o diegético e não-diegético — reafirma o filme como um trabalho de gênero. Nesse sentido, temos aqui uma obra completamente desavergonhada, com efeitos sonoros que nos levam diretamente para a Lua e reviravoltas narrativas que transformam todas as escolhas formais em uma verdadeira unidade de corpo e alma; um trabalho que se diverte e, principalmente, acredita em si mesmo.
Ataques Psicotrônicos é uma reafirmação de tudo aquilo que o cinema pode ser, revelando-se um trabalho que traz uma carga de personalidade autoral muito única, mas jamais ignora ou despreza os elementos mais estimulantes do cinema. Divertido, bizarro, amedrontador e um trabalho de paixão, que faz você ter vontade de ir filmar o mundo — e reconstruí-lo.
Nota da crítica:

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