Pequenas Tragédias (Daniel Nolasco, 2026) - Mostra Competitiva Nacional de Longas-Metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Atualizado: há 4 dias
O humor tragicômico de Daniel Nolasco revisita as vivências gays no interior goiano, atravessadas pela homofobia e crise da AIDS

Entre as décadas de 1980 e 1990, a homofobia se manifestava em um contexto de intensa violência e discriminação, agravado pela crise da AIDS. No Brasil, especialmente em Goiás, a organização do movimento LGBT começou a ganhar maior estrutura apenas a partir da segunda metade dos anos 1990, em meio à mobilização em torno da epidemia.
É nesse contexto que Pequenas Tragédias (2026), de Daniel Nolasco, revisita a vida do diretor em Catalão, no interior goiano. O filme ainda se aproxima do humor de esquetes, em uma estrutura que remete a programas televisivos dos anos 1970, como Monty Python’s Flying Circus, por exemplo. Bem divertido. E muito embora a primeira metade do filme seja mais leve, até certo ponto, Nolasco faz do humor uma válvula de escape para situações absurdas, conduzindo o espectador à reflexão sobre as vivências gays naquele lugar e naquele tempo. Experiências cujos ecos, apesar das transformações sociais, ainda se fazem presentes.
Para além do longa de Nolasco, o cinema queer sempre teve um histórico de experimentação com diferentes formas de linguagem cinematográfica, onde há busca pela elaboração duma expressão própria para aquilo que, muitas vezes, foge à possibilidade de explicação apenas pelas palavras ou pela linguagem fílmica normativa, em que a subversão das convenções narrativas e estéticas se torna parte fundamental da construção de outros imaginários, especialmente sobre experiências LGBTQIAP+.
E é possível observar o mesmo gesto neste longa e em filmes como Pink Flamingos (John Waters, 1972), que mobiliza o grotesco e o camp para confrontar convenções morais e estéticas sobre drag queens. Ou The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975), que articula musical, paródia e performances de gênero para tensionar a normatividade sexual e de gênero, ou mesmo Querelle (Rainer Werner Fassbinder, 1982), cuja estilização onírica elabora uma radicalização do desejo entre homens. Foram alguns poucos exemplos que me vieram à mente para exemplificar ao leitor, mas essas obras permitem pensar como a experimentação sobre a forma não constitui apenas uma decisão estética, mas um modo de deslocar os regimes convencionais e criar expressões habilitadas a representar subjetividades historicamente marginalizadas.
Ainda, o filme teve uma das melhores direções de arte desta Mostra Competitiva e um incrível uso das cores, sobretudo nas pausas de estúdio que precedem os intertítulos dos capítulos, onde a expressividade se constrói principalmente com o auxílio de uma paleta supersaturada. Nesses momentos, o desejo e a carne estão sempre mais aflorados e levados ao exagero, e o próprio corpo do ator protagonista dessas cenas parece ocupar essa lógica, sendo objeto de desejo dos outros personagens, pois é muito peludo, muito musculoso e muito próximo daquilo que se espera de um homem másculo padrão — ou de um bear...
Mas talvez seja na discussão final sobre a AIDS, na parte final do longa, quando um dos amigos do diretor acaba contraindo o vírus e desenvolvendo também uma série de problemas de autoestima e autoimagem, em que o uso das cores se torne mais sensível. O rosa, pouco a pouco, parece se contaminar no figurino do amigo, aumentando a concentração de pigmento vermelho, até culminar na morte dele em sua própria cama. Uma morte presumida, que não explora recursos baratos e gráficos, mas na qual não vemos nada além de uma cortina intensamente vermelha, balançando ao vento. É uma cena forte, assim como a encenação do reencontro com esse mesmo amigo, como se a morte nunca tivesse chegado para ele. É justamente o que a autoficção permite: reimaginar os encontros e suspender a irreversibilidade dos eventos da vida, permitindo à narrativa aquilo que a realidade já não pode oferecer. Nolasco faz bom uso do cinema. Espero ver mais trabalhos do diretor.
Revisão de texto: Paula Hong

Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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