top of page

Ana, en Passant (Fernanda Salgado, 2026)Mostra Competitiva Nacional de Longas-Metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

há 16 horas
3 min de leitura

Um filme epistolar onde a memória não basta para construir a história


Em Ana, en Passant (2026), de Fernanda Salgado, há algo na animação que não consegue ser acessado pelo live action. Na cena da dança da personagem ou ao levar a concha para ouvir o mar, quando toda a silhueta da personagem é preenchida por água, temos mais de uma forma de acessar a memória de egun; da alma. Há algo sempre pesquisado pelos diversos meios da arte em compreender a água como esse elemento simbólico da ancestralidade e da memória: uma cartografia do corpo no prólogo do filme, apesar de ter uma narração mal dirigida. E ainda, “Il n’y a pas de mer à Belo Horizonte, mamie”, como Ana, pergunta a avó e ainda complementa: o que há lá? Algo parece começar a se desenrolar. Há uma busca pela compreensão de si, pelo processo do luto, pela ancestralidade através da água, mas não há mar em Belo Horizonte. Mais tarde, Ana descobre que há rios, lagos e que a cidade soterrou essas águas. Mas para onde vamos depois desses levantamentos? Há uma discussão sobre racismo, ecologia ou ancestralidade ligado a isso? Não. Essas cartografias da ancestralidade iniciam uma linda discussão, que poderia ter sido condensada em um média ou curta.


O filme começa bem, com uma mistura técnica de recursos da animação, já no começo, que dão uma dimensão complexa à protagonista — Ana — e ao tom do filme. Há memória de diferentes culturas e hábitos culturais expressados por essa miscelânea de técnicas e texturas, que só vai se ampliando ao longo do filme... Quando, no ensaio de abarcar todo o mundo em um só filme, perde sua força. Já no prólogo, é perceptível uma certa falta de controle do filme por parte da direção, pois a narração inicial não encontra, de imediato, o tom mais adequado à condução da personagem. No primeiro terço da história de Ana, a respiração da personagem é enfadonha, exagerada. Um problema de dublagem e direção, pois não deixa claro se a personagem está sempre cansada. Quando o que vemos, na verdade, é uma personagem que está tentando se encontrar e processar o luto.


Filme-carta que busca muitos debates e não chega a lugar algum, fica cansativo e deixa a impressão de todas as escolhas serem muito piegas, desde as escolhas estéticas, à narração e aos diálogos. Há momentos do roteiro, por exemplo, em que as falas são apenas palavras jogadas que, muito embora eu entenda o propósito, parecem não ter recebido um cuidado maior com a construção do texto. Frases “de efeito”, como “quero ser bifurcação”, tornam-se até mesmo melosas e enfadonhas. Parecem dizer muito e não dizer nada ao espectador e à narrativa no fim das contas. Como em “o fim é o começo e o começo é o fim”, é preciso um maior cuidado para que essas frases não se encerrem em si mesmas e um maior cuidado com o roteiro de modo geral, não apenas dos diálogos.


Ainda quanto ao roteiro, a colagem de memórias e a colagem de figuras e texturas na animação — como paredes de cartas, selos e cartões-postais —, que esclarecem que Ana está passeando pelas memórias de sua avó, fazem da colagem um recurso interessante e contundente no filme. Embora falte um melhor zelo narrativo. Um diário, muitas vezes, pode ser escrito sem grandes formulações, frouxo em polimento, e funciona como um fluxo de pensamento. Um filme, apesar de poder ter uma linguagem de diário e ser mais experimental quanto a isso, não tem, nesse exemplo de Ana, en passant, as características e a execução técnica necessárias.






Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro




Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



Comentários


  • Ícone do Instagram Branco

© cine-stylo - 2025

bottom of page