top of page

Futuro Decadance (Leviathan, 2026) - Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

há 1 dia
3 min de leitura

Quando a pesquisa encontra a ficção, mas não a montagem



Futuro Decadance (2026), de Leviathan, tem sinopse que apresenta a premissa narrativa do curta, centrada na personagem da Viajante e em seu retorno às noites maceioenses dos anos 1990, misturando ficção ao documentário. Mas o filme se perde na montagem, deixando em suspenso seus momentos mais interessantes.


Por exemplo, há momentos riquíssimos da ficção, como as cenas da personagem do quarto e as cenas da festa. Mas que seria preciso, porém, uma melhor preparação dos atores, uma direção mais cuidadosa e, sobretudo, uma definição mais precisa do que é este filme. A montagem é talvez o ponto em que essa indefinição mais se evidencia. Ao alternar entre a pesquisa documental, as entrevistas e a ficção, o filme nem sempre estabelece relações suficientemente claras entre esses materiais, fazendo com que pareçam dois filmes diferentes que foram reunidos em um mesmo trabalho. É compreensível a evocação do debate sobre a idealização da vida noturna e dos desejos daqueles que vieram antes transgredir as regras na cena noturna de Maceió, e realizá-lo em uma fusão entre documentário e ficção, mas essa relação poderia ser mais bem construída pela montagem. Em vez de fazer com que a ficção e o documentário se contaminem e ampliem mutuamente seus sentidos, a montagem apenas os coloca lado a lado. Portanto, há ótimas ideias em dois caminhos diferentes. Faltaria encontrar entre eles um ritmo e uma relação discursiva que façam o filme parecer uma obra única.


Montagem essa, aliás, comum aos documentários da TV Cultura e aos filmes institucionais dos anos 2000, em que temos encenações, entrevistas e pequenas ficções no entremeio de arquivos que tratam do objeto central da discussão desses filmes. Mas é institucional. E ainda que documentários institucionais possam, sim, marcar o espectador e até fazê-lo sentir algo, o objetivo primeiro desses filmes é apenas passar uma informação à frente de forma muito pragmática. Diferentemente do que um documentário como Futuro Decadance se propõe a ser.


Ainda assim, o filme apresentou alguns dos figurinos mais artesanais e criativos da Mostra Competitiva Nacional e, quiçá, de todo o festival. Um exemplo pode ser observado em uma das cenas da parte ficcional, em que a performance de palco de uma das drag queens mascaradas articula um claro debate sobre um desejo que nunca chega, que nunca se realiza, mas que pode ser encontrado e performado das mais variadas formas. É o que se vê na cena em que uma siririca com lixadeira é feita sobre uma calcinha de metal, espécie de cinto de castidade. O desejo não se concretiza, mas a performance e a ocupação de lugares de existência proibidos pela cultura hegemônica permitem um simulacro de resistência e uma forma não-normativa de alcançar o desejo. O que contribuiria para um debate interessantíssimo sobre a própria cultura queer de Maceió ou mesmo da sexualidade feminina articulada pela ficção.


Apesar de não constituir um problema, em si, recorrer à linguagem institucional o filme deixa em suspenso dois debates muito interessantes, justamente porque dispõe de uma pesquisa consistente e de entrevistas bem conduzidas; aqui há um filme. Mas a direção peca muito. A montagem quebra os sentidos do espectador a todo momento, e não num bom sentido. O filme tem uma boa pesquisa e uma boa ficção em mãos, mas são dois filmes diferentes. Em um só, as duas propostas enfraquecem uma à outra, já que a pesquisa perde força quando interrompida por uma ficção que não se sustenta, e a ficção, por sua vez, não encontra espaço para ser e construir o que propõe. No fim, nenhum dos dois caminhos consegue alcançar plenamente a potência que se apresenta isoladamente.





Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro




Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



Comentários


  • Ícone do Instagram Branco

© cine-stylo - 2025

bottom of page