Crítica - Morte e Vida Madalena (2025)
- Giulia Dela Pace

- 15 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de set. de 2025
Mostra Competitiva de Longa-metragens | 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
O penoso sepultamento das boas ideias natimortas.

O longa-metragem que abriu a Mostra Competitiva Nacional nessa 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi o novo filme de Guto Parente, Morte e Vida Madalena (2025). O cineasta cearense, integrante do coletivo Alumbramento, construiu filmografia robusta marcada pela experimentação estética, do vigor de Estrada para Ythaca (2010), da fantasia de Doce Amianto (2013) ao acalento onírico de Inferninho (2019). E o que há de mais interessante na filmografia do diretor talvez seja a vitalidade do diálogo com os filmes B e o resgate do marginalizado com um olhar inventivo. Ainda, as “famílias circunstanciais” – aquelas que são formadas pelo momento, no trabalho, no bar ou na estrada, mas não por relação sanguínea – são marca recorrente em sua obra e reaparecem em Morte e Vida Madalena, embora aqui elas sejam mais uma como uma tentativa frustrada do que como gesto potente da obra. Logo nos primeiros momentos do filme, tive medo do silêncio ensurdecedor iminente na enorme sala do Cine Brasília. Dito e feito. Afinal, comédia não é algo simples e não há nada mais desconcertante e incômodo do que perceber a intenção de chiste do roteiro, a tentativa de incitar comédia pela câmera e atores e não ouvir um riso abafado sequer.
E no que concerne ao humor, o Morte e Vida Madalena ficou amarrado à gracinhas frágeis que remetem a uma comicidade millennial de redes sociais. O filme parece acreditar que essas referências datadas e nichadas funcionem como sinônimo de inteligência cômica. Mas o humor, ainda que até certo nível possa ser datado, não pode existir como algo risível apenas para seus contemporâneos. Tomemos como exemplo comediantes de diversas épocas e estilos distintos de humor, como: Sellers, Chaplin, Keaton, Tati, Mel Brooks e, até mesmo, Adam Sandler. Esses autores\atores foram capazes de criar situações atemporais de riso, ainda que mesclassem em variados níveis de intensidade algumas piadas datadas ou de humor mais ingênuo. Enquanto no longa de Parente, o riso é ausente e o humor amarrado ao nicho e a uma temporalidade que se desfaz na mesma velocidade em que anuncia surgir.
Ainda quanto ao humor do filme, os gracejos, quando não se arrastam até o enfado do espectador, são bruscamente ceifados pela montagem. O tempo aqui poderia ter sido tratado com cautela, pois o ritmo é vital para a comédia. E essa deficiência revela tanto um precário estudo do roteiro de comédia quanto a falta de esmero no estudo da atuação para esse gênero. Mas o roteiro aparenta ser o principal culpado pelas sequelas do longa. Tomemos como exemplo Natasha – personagem de Nataly Rocha –, personagem travada com falas cheias de pausas, vírgulas entaladas e o uso do vocativo “amiga” repetido à exaustão. É uma caricatura sem alma, apesar do bom trabalho de Nataly e ser uma atriz consistente em dramas como Cabeça de Nêgo (2020).

Enquanto Oswaldo (Tavinho Teixeira), é um alívio. O personagem, além de ter sido concebido na loucura pertinente à proposta da comédia do filme e sua função na narrativa, Tavinho compreende a comédia, domina seu corpo e faz seu personagem estar presente em cena. Oswaldo salva momentos que, sem sua presença, seriam quase insuportáveis. Basta lembrar da sequência da gravação interrompida pela música do bairro, onde ele encarna um Klaus Kinski tropical, olhos maníacos, humor gestual e o restante do elenco parece acompanhar e responder a essa energia. Boa cena. Ou ainda de suas passagens mais taradas, dos poucos instantes em que a comédia pulsa verdadeiramente dentro do chulo que o roteiro buscava. Ainda, o ator iniciante – Lui Fontele –, que interpreta Djaci, jovem policial que participa ao acaso do da produção, também funciona muito bem, mantendo a tradicional caricatura do policial folgado na comédia nacional popular, executando seu papel muito bem dentro dos limites de seu personagem.
Enquanto isso, Mada\Madelena (Noá Bonoba), soa como um equívoco na escalação de elenco. Seu rosto duro, sem muita maleabilidade, caberia muito melhor para uma personagem apática de outros filmes mais inventivos de Parente, ou num terror B, já que os melhores momentos de Noá em tela são nas cenas de tensão dentro do apartamento ou na rua escura. Sua interpretação de modo geral deixou a desejar, mas a gravidez de Mada foi especialmente mal estudada. Quase como se não houvesse compreensão do corpo em cena e do peso de uma barriga de 8 meses e meio, – ainda que o chiste com o filme de Fellini tenha sido bem colocado. especialmente na cena final, pois a redução de um trabalho de parto a caretas, como se dor e parto fossem mero truque facial, faz questionar se seria o caso de uma artificialidade do filme ou de ausência na entrega da atriz durante a cena.
Quanto a câmera e a proposta de fotografia do filme, uma das melhores características, ainda que acabem por serem genéricas quando aproximadas de outras obras de Parente. E mais, a direção de fotografia apenas intensifica a dissonância de gêneros em no longa, pois essa atmosfera tensa, que suspende o espectador por alguns momentos – comum em filmes B ou e bons giallos –, como se estivéssemos diante de um assassinato pendente, não consegue entregar gag. A soma dessa equação é um “frankenstein” de quatro ou cinco filmes dentro de um só, cada um puxando para um lado e um gênero distinto.
Um último ponto: o simulacro de película. Por mais que seja reconhecível como marca do autor, tendo em vista o constante uso de mist, trabalho de iluminação e câmera para trazer mais ruído na imagem e realizar esse gesto estético que dialoga com produções de baixo orçamento, em Morte e Vida Madalena it did not land. Acontece que neste longa, a escolha parece gratuita. O que esse “filtro” acrescenta à imagem ou à narrativa? Esteticamente parece pouco e simbolicamente, menos ainda. Funciona como assinatura, mas não como elemento vivo do filme.
O resultado é um longa frágil em sua base, com um humor que não é entregue ao espectador, uma direção sem pulso e um roteiro que caminha tropeçando a cada cena. Restam, assim, apenas alguns lampejos de talento num número reduzido de atuações coadjuvantes e escassos instantes de comédia do próprio roteiro, que acabam sendo migalhas de uma obra desconexa. Lamentável ver o potencial de ótimas ideias – Guto as têm de sobra – desperdiçado numa obra de execução tão desacertada.
Por fim, a ironia atroz é que o filme dentro do metafilme tinha mais viço e consistência do que o próprio filme.

Essa crítica faz parte da cobertura do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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