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Mariposa (Alexandre Américo e Pedro Vitor, 2026) - Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

há 1 dia
4 min de leitura

Um vôo poético sem rumo



Me entristece saber que preciso ler a sinopse para ter algumas pistas sobre o que está em jogo em Mariposa (2026), de Alexandre Américo e Pedro Vitor. Desejo? Memória? Rito? Trabalho? Quem são aqueles personagens? Claro que algumas coisas o espectador é capaz de pescar durante a sessão, como o debate sobre memória. Mas a sinopse apresenta Dona Zefa e Oliveira, enquanto o filme não os nomeia dessa forma, tampouco explicita que suas existências são movidas pelo desejo, como anuncia o texto oficial. Há, portanto, uma distância entre aquilo que a sinopse oferece como chave de leitura e aquilo que o filme deixa aberto diante do espectador. Aliás, aberturas essas, que, muito embora, eu acredite ser benéfico para arte e cinema de modo geral, as imagens e os símbolos desse filme poderiam se articular de maneira mais “legível”.


É um filme elegante, de modo geral, ainda assim, e, embora exista uma confusão discursiva, ela não compromete a força de suas imagens, que são, por vezes, excelentes. A fotografia em preto e branco reforça a dimensão da memória na obra, evocando tanto um passado que persiste na natureza, entre os corpos e a paisagem, quanto uma dimensão mágica de entidades que pairam nos elementos naturais da paisagem. O contraste extremo entre luzes e sombras encontra nas dunas, de areia tão fina e clara, uma forte expressividade estética, acentuada pela brancura quase absoluta do cenário. As dunas tornam-se, assim, um cenário mágico, situado entre a vida no òrun e no aiyê; entre o espaço sagrado e o mundo terreno. O céu e a areia são imensos lençois brancos que fazem dos personagens parecerem formigas diante da grandeza natural. São, repito, como entidades mágicas, cósmicas ou religiosas; a natureza das dunas parece assumir um local de personagem. O mesmo acontece com os elementos da terra, da água e do fogo, que atravessam o filme como forças ritualísticas.


Ainda, a relação entre os “trabalhos” religiosos e xamânicos, e o trabalho do homem permanece pouco clara à medida que o filme cruza seus ritmos, sem que essa aproximação encontre uma elaboração discursiva consistente. O filme não desenvolve essa relação com clareza suficiente para que sua dimensão simbólica se consolide, deixando suas imagens suspensas entre a potência evocativa e a indefinição de seu discurso. E assim, o curta perde força com o avançar dos minutos, principalmente da metade em diante, e não parece concluir os pontos que abre na primeira parte. Afinal, trabalho do homem é um discurso sobre o trabalho ou ele luta contra alguma força maior que não pode deter? Ele é uma entidade ou um homem comum? É um filme que debate a ancestralidade africana e negra, o trabalho ou a religião? O filme aborda todos esses discursos? Foram perguntas que me surgiram durante o filme. Embora esse seja um processo comum na experiência de fruição da arte, fica a questão: como concluir todos esses pontos levantados, então? Ou seria justamente o caso de deixá-los em suspenso ao final do filme, mas com o objetivo claro de construir uma coesão discursiva a partir da própria dúvida? Não parece ser o caso, fazendo o bom uso da forma em favor da linguagem, que se observa na primeira metade do filme, perde-se com alguns recursos meio piegas.


Na primeira metade do filme, o close é utilizado como elemento narrativo, aproximando a câmera da textura da pele, dos pelos, dos olhos e das mãos do burro e do homem. É essa proximidade quase tátil que produz o sufoco e coloca o espectador mais perto do trabalhador e do animal, ambos submetidos ao esforço do trabalho. Em determinado momento, o personagem trabalha com a ferramenta que utilizará ao longo do filme, e um close de seus olhos é seguido pelo close dos olhos do burro. Pela montagem, os dois olhares se conectam e parecem se tornar um só, aproximando os corpos pela experiência compartilhada do trabalho. Mas esse ainda não parece ser o objeto central do filme e chega a soar como um discurso não necessariamente proposital.


Mariposa também parece nada significar para o curta, a não ser um esticamento da simbologia do inseto em religiões ancestrais, como as africanas, onde é símbolo de transformação. Mas poderia ser borboleta ou serpente. Não que o filme tenha pecado ao escolher a mariposa por haver outros animais que também traduzam a simbologia da metamorfose, mas porque não trabalha essa simbologia e seus discursos bem o suficiente para justificar a escolha. Não fica claro ao espectador, ou ao menos não entrega um palpite de como pensar aquele símbolo. O cinema moderno introduziu a narrativa experimental, embora obras de narrativa experimental, por muitas vezes, acreditem que sua ruptura com o cinema narrativo clássico as liberte da necessidade de entregar uma mensagem clara ao espectador, um erro comum.


No mais, os atores são bem dirigidos e o filme, inegavelmente, tem imagens elegantes e desenha discursos interessantes no campo do mágico e ancestral. Mas peca em não entregar o palpável, tampouco desperta qualquer sentimento. No fim, sem as boas imagens suspensas, não há nada.





Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro




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