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Brasília – Planejamento Urbano (Fernando Coni Campos, 1964-1965) - Abertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

há 1 hora
4 min de leitura

Entre a utopia modernista, a monumentalidade de uma capital e as contradições burguesas de seu projeto.




Brasília é um tema que particularmente me interessa, sobretudo enquanto projeto urbanístico e experiência de cidade. Talvez por isso, uma fala na abertura do Festival de Brasília tenha imediatamente me chamado a atenção: “Trabalhou como desenhista no escritório de arquitetura de Lúcio Costa quando mais novo”, disse o colega do filho de Fernando Coni Campos ao apresentar a figura do cineasta e o curta-metragem documentário institucional do extinto INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo), que seria exibido naquela sessão. E embora eu escreva para uma revista de cinema, o documentário me lembrou de todas as minhas percepções sobre a cidade onde vivo e em como esta propaganda institucional preservada de 14 minutos revela ao espectador o que é Brasília. Já adianto: um projeto lindo, mas de cerne burguês.


O curta-metragem se inicia com o desenho original da cidade em formato de avião ou libélula e então parte para explicar o porquê deste desenho, mencionando as tesourinhas, inclusive. E que levam a breves momentos de cortes rápidos, com placas de trânsito, sons de buzinas e agressividade visual e sonora que, de modo geral, evidenciam uma certa “calma” do trânsito em Brasília por seu desenho urbanístico inicial, em contraste com outras cidades, por não haver cruzamentos, mas tesourinhas. Apenas um relance do cinema moderno, mostrando-se presente no léxico cinematográfico de Coni Campos, que apesar de estar executando um filme institucional, seus traços de autor deixam transparecer em alguns momentos. O que não é necessariamente ruim, especialmente sob a ótica do historiador de cinema brasileiro, pois são momentos divertidos onde é possível presenciar os deslizes propositais que tornam alguns momentos dessa propaganda estatal opacos, enquanto se espera ver apenas as transparências institucionais na tela. Uma boa surpresa sempre.


Um outro momento onde essas escolhas se tornam evidentes é no olhar sobre as quadras residenciais do Plano Piloto, inicialmente pensadas como áreas em que lazer, educação e moradia fossem assegurados aos moradores dos prédios — de desenho e inspiração soviética — como numa lógica de pequeno condomínio não murado e de livre circulação de pedestres. Embora grande parte desses momentos se pareçam visual e narrativamente com comerciais de imobiliárias — possivelmente o objetivo Estatal — Coni ou Bartucci deixam escapar breves momentos de algo melhor. Com um carro se aproximando do prédio sendo filmado frontalmente ao estacionar ou um jogo de luz e sombras passando pelos cobogós das janelonas dos prédios “soviéticos”. Há algo além do institucional, especialmente dentro dos apartamentos, pois em uma das cenas, vemos uma mulher jogada no sofá, desfocada, falando sem som, apenas com trilha acompanhando a câmera pelo apartamento. Um jeito bonito de filmar o life style burguês brasiliense. Algo que os cinema-novistas faziam sobre o zeitgeist da burguesia carioca na mesma década, por exemplo.


Ainda, uma imagem do filme que particularmente me chama a atenção, e neste texto tenho me permitido alguns momentos em primeira pessoa e de forma muito individual, é o plano estático da Rodoviária do Plano Piloto. Na plataforma superior, no centro do corredor, um plano aberto para o eixo e centro de Brasília. O marco zero da capital e desenho de Lúcio Costa, visto de dentro dele. Ao ver aquela imagem, imediatamente me remeteu a uma fotografia minha daquele mesmo local. O mesmo enquadramento e o mesmo objeto. Mas não o mesmo interesse pela imagem. No documentário de Campos, a rodoviária era deserta, uma limpeza visual só vista em Brasília nos anos imediatos à sua inauguração. Sem carros passando, sem movimento de pessoas, sem arborização desenvolvida. Apenas concreto usinado branco, linhas retas e curvas, quase como nos projetos de Lúcio Costa e Niemeyer. E alguns ônibus, claro, mas todos brancos e sem grandes letreiros luminosos como os de hoje em dia.


Enquanto no registro da minha imagem — e, provavelmente, seja uma mesma fotografia tirada por muitos outros entusiastas da imagem e do modernismo —, o que interessa é a poluição visual, o excesso de cores e movimento que escondem o desenho inicial, mas evidenciam como foi fabulado para funcionar já na sua concepção. Há algo na Brasília monumental que atrai o olhar independentemente das intervenções da vida urbana.


Por fim, o filme se destaca quando expõe que Brasília possui os “atributos de uma capital do país”, como evidencia a narração. De fato, é a capital ideal no projeto. Mas quando aplicada à realidade, sob um sistema político e econômico capitalista, uma fala do narrador como, por exemplo, "devolver o chão ao pedestre" quando apresenta os pilotis ao espectador, há uma quebra de expectativa com a realidade como se apresenta nos dias de hoje. Com as passagens de pilotis entre os blocos residenciais, hoje, em grande parte, fechadas por grades e cercas vivas, o espectador que vive a Brasília contemporânea é inicialmente levado a crer em um possível detrimento do objetivo e da inspiração soviética inicial do projeto em favor do conforto da classe burguesa da capital.


Muito embora essa percepção seja, em partes, correta, o cerne do problema parece estar muito mais centrado em uma outra fala do narrador do documentário, que, parafraseando, seria: nesse local de passeio entre os blocos e de livre circulação na extensão doméstica que se faz pelos pilotis, as mulheres e crianças poderão aproveitar o tempo livre. Desvelando, desde o princípio, o ato falho dos objetivos burgueses desses espaços, onde serviriam especialmente como uma extensão doméstica e, portanto, como o local destinado a mulher na sociedade... A discussão sobre a capital é longa, o filme é ótimo e o festival continua.



Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro




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