Gastronomia do Olho (Nicolau, 2026) - Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Atualizado: há 5 dias
Uma refeição marginal esquecida pelo centro de São Paulo

O Teatro Oficina, fundado em 1958, ocupa um local de importância na história do teatro brasileiro, assim como na cena cultural de São Paulo, constituindo-se como um espaço de formação artística, resistência e experimentação. Marcante pela investigação de novas possibilidades da linguagem cênica e pelo enfrentamento das convenções sociais e artísticas, o Oficina aproxima o teatro das tensões políticas e culturais de seu tempo.
Nesse contexto, o diálogo com a dramaturgia de Nelson Rodrigues permite explorar as contradições da moral burguesa, os conflitos do desejo e as relações entre corpo e repressão, questões que encontram no Oficina um terreno fértil para a transgressão e a reinvenção da cena. A homenagem, entretanto, parece se encerrar na retomada dessa tradição, sem que o trecho em questão estabeleça uma relação crítica mais evidente, ou que se proponha a constituir um discurso fílmico.
A “Gastronomia do Olho” é servida ao olhar espectatorial antes de tudo. Começo, portanto, pela fotografia em película, em 16mm, que constitui uma experimentação de Nicolau, diretor do curta, com o próprio meio, tanto em sua dimensão formal quanto em seu conteúdo. A escolha não se restringe a um suporte técnico, evidentemente, mas integra a construção estética da obra e a maneira como ela se oferece ao olhar.
Ainda no que tange à imagem, a obra remete às imagens e experimentação que víamos no cinema marginal, especialmente aos filmes que tomam São Paulo como cenário, que não aparece como mero pano de fundo, mas no qual a cidade se mescla àquilo que a câmera acompanha à medida que incorpora as encenações e intervenções do cotidiano paulistano diante da câmera. Sua sujeira, poluição visual e movimento de seus habitantes compõem uma paisagem urbana que parece resistir à própria encenação. Há algo de Bang Bang (1971), Andrea Tonacci, de outras obras marginais não necessariamente filmadas em São Paulo, nesse gesto de tomar de assalto os cidadãos comuns, surpreendidos pela interpretação dos atores ou pelo caminhar errante em uma cidade onde a pressa é regra. O curta se apresenta, dessa forma, como uma breve homenagem ao cinema marginal, ao Teatro Oficina, ao Centro de São Paulo e, ainda, às adaptações da obra de Nelson Rodrigues, reunindo referências que atravessam diferentes formas de transgressão estética e de cartografias urbanas.
Por fim, os personagens permanecem imersos na atuação e no jogo de cenas de Os Sete Gatinhos, sem, no entanto, perder a conexão com o cenário real e com suas identidades para além da ficção que encenam. Há uma brincadeira com o próprio ofício do ator que o filme também incorpora para si. Tudo parece fazer parte dessas brincadeiras, inclusive a relação entre a encenação e o mundo que insiste em atravessar as cenas. É um filme completo naquilo que se propõe a ser: uma homenagem e um estudo. Não entrega, contudo, muito além disso, o que tampouco parece ser sua intenção. Afinal, não se trata de um filme sério no sentido de abraçar o mundo inteiro e buscar solucioná-lo em nove minutos. Mas um filme que leva a brincadeira a sério e que ergue, nessa liberdade, um respiro no cinema contemporâneo.
Revisão de texto: Paula Hong

Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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