Delegado (Marcelo Lordello e Leonardo Lacca, 2026) - Sessão Especial | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Na sessão, foram exibidos o três primeiros episódios da série que acompanha um jovem delegado em meio aos dilemas e às fragilidades da instituição policial

Os diretores se aproveitam de recursos bem hollywoodianos mais clássicos. Essa foi minha primeira impressão. A fotografia, principalmente, me lembrou a das obras de Kleber Mendonça Filho, talvez pela direção de Marcelo Lordello, que colaborou com Kleber em Retratos Fantasmas (2023), como fotógrafo adicional, assim como em outras produções do diretor pernambucano. E, muitas vezes, como o próprio Kleber menciona na apresentação, parafraseando-o, “nossos assuntos e trabalhos se parecem com os dos nossos amigos”. Bonito, não? Embora eu ainda perceba uma maior plasticidade e “maneirismos oitentistas” na obra de Kleber do que em Delegado (2026), de Leonardo Lacca e Marcelo Lordello, isso não faz da série pior ou melhor, mas distinta. E me interessou.
Uma série com tom e linguagem que remetem a um certo buddy cop dos anos 1980 e aos antigos seriados ficcionais da década. Na TV Globo, tivemos Plantão de Polícia (1979–1981). Criado por autores como Aguinaldo Silva, Doc Comparato, entre outros, e estrelado por Hugo Carvana. O seriado acompanha Waldomiro Pena (Hugo Carvana), jornalista responsável pelas coberturas de investigações policiais mais grotescas e violentas da redação. A rotina culmina em uma personalidade cínica, acostumada à desgraça e que, por vezes, parece até mesmo tomar gosto dessa violência. Como bem menciona Kleber Mendonça Filho na apresentação de Delegado, série que produziu ao lado de Emilie Lesclaux, Plantão de Polícia parece ser, de fato, uma referência importante para os diretores. Delegado , no entanto, parece partir de um roteiro seriado já fechado, com objetivos definidos para cada personagem, enquanto "Plantão" ainda seguia uma lógica mais novelesca, de roteiros abertos.
Aliás, Waldomiro Pena seria um bom jornalista para Felipe contracenar num universo utópico do audiovisual brasileiro. Embora Bebel e Pena não sejam policiais, eles correspondem à dinâmica buddy cop dos anos 1980, a mesma que Felipe e sua namorada parecem querer engatar nos próximos episódios. O alívio cômico fica a cargo de Marmota, que, assim como o fotógrafo Wilson Gatto, é um sujeito meio malandro e pouco ortodoxo quanto à ética de trabalho. Já Serra, editor do jornal, corresponde a uma espécie de censura ou instituição maior que parece amarrar o trabalho de Waldomiro — algo que também se manifesta em Delegado, nas intrincadas relações entre instituição, dever e corrupção que atravessam a trajetória de Felipe neste começo de carreira como delegado de polícia.
Marmota (Rubens Santos), aliás, é um ótimo personagem. Ele é o tropo clássico do alívio cômico na cinematografia brasileira, cuja tradição remonta às chanchadas de Grande Otelo e Oscarito. Mas que aqui ganha uma dimensão mais aprofundada, com um personagem que parece transitar entre o ilícito e a lei. E a série, de modo geral, tem um ótimo timing para o humor. Nada parece forçado, pois é a aposta da série no cinismo desiludido do espectador que constitui a piada. Enquanto acompanhamos o protagonista, que começa a descobrir o grande circo que é o sistema de justiça brasileiro quando corrompido, percebemos que o humor se estende para além de Marmota, alcançando outros níveis de sadismo do espectador sobre a sua própria realidade.
Há também bons momentos de tensão, sustentados por personagens que oscilam entre a condição de “bons sujeitos”, de “colegas” e a de tipos milicianos. Mesmo Felipe e sua família carregam contradições em relação à lei. A cena em que sua mãe compra uma arma de “presente-surpresa” — o que inclusive constitui crime — para o filho recém convocado pelo concurso de delegado e ainda chama um padre para benzê-la. Esse momento sintetiza bem o universo de contradições, no qual a violência se mistura aos gestos de afeto do cotidiano e tornam mais complexa a construção do humor.
Gosto muito de Johnny Massaro. Ele é um dos grandes acertos da série. Com um olhar de Al Pacino, triste, desesperado e desamparado, mas também profundo, o ator sustenta muitíssimo bem a posição de seu personagem, ainda tão medroso. Há uma qualidade em sua atuação que merece destaque: o chamado “atuar com os olhos”. Embora seja uma característica um tanto piegas de ressaltar, Massaro entrega, em cena, tudo o que seu personagem sente. De longe, um ator que consegue entregar um personagem tão transparente e ainda inocente sobre os vícios da corrupção foi a melhor escolha para a série.
Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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