Crítica - Replika (Piratá Waurá e Heloisa Passos, 2025)
- Giulia Dela Pace

- 22 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de set. de 2025
Mostra Brasília (Curtas) | 58° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Da materialidade da contação de histórias à destruição da (in)corporeidade ancestral

Replika (2025), de Piratá Waurá e Heloisa Passos, foi um filme que me surpreendeu nesse festival, apesar do cinema indígena normalmente não dar ponto sem nó, pois ele se assume como ato de resistência; cinema comunicador e não se perde em grandes pretensões. Ao contrário, é um filme direto e bem executado.
A idealização do curta metragem parece nascer na entrega da réplica da Gruta Sagrada do Kamukuwaká ao povo Waurá, mas decidiu não se limitar a um evento de inauguração ou a diálogos com não-indígenas das fundações que auxiliaram na produção da réplica 3D da gruta, mas em ouvir os Waurá, suas histórias e presenciar a importância da gruta em cotidiano e memória. Piratá e Heloisa dão materialidade à contação de histórias/estórias, ao renascimento do povo Waurá e ao futuro ancestral do Xingu – não só do povo Waurá, mas a todos os povos do Xingu que têm a gruta Kamukuwaká como livro sagrado e concretude de existência cultural.
E quanto a gruta Kamukuwaká, vale a pena mencionar aqui um pouco de sua história, pois ela não é apenas uma formação geográfica, mas tem (tinha) impresso em pinturas rupestres o mito da origem desse povo; sua história. Nela, a formação geológica é inseparável da ancestralidade, já que funciona como local de ritos e de encontro entre o humano e o sagrado. E em 2018, a gruta foi vandalizada – desenlace da expansão agrícola na região – tendo seus grafismos rupestres e história Waurá apagada. Resultando assim, no trabalho da Fundação Factum e outros colaboradores para a (re)criação de uma réplica da gruta em impressão 3D que hoje se encontra em território Waurá.
Para Piratá, o cinema é comunicação. E tudo bem, afinal, aqui ele se torna comunicação em sua forma mais plena — não como ferramenta didática, mas como espaço de partilha com o espectador. Há consciência tanto dos realizadores no gesto fílmico, quanto do filme em si de que contar histórias é preservar. E cada sílaba da língua Wauja projeta para o futuro a materialidade dum imaginário que se recusa a morrer. Como lembra Ailton Krenak, “Enquanto a gente contar uma história, o mundo vai continuar a existir” — em entrevista à Revista Pernambuco. E o filme parece carregar essa máxima a cada escolha, devolvendo a palavra ao seu povo, pois como bem lembra o contador de histórias Waurá ao final do curta “Quando já não estivermos mais aqui, a gruta vai estar”.

Técnica e conceitualmente, Replika não ostenta pretensões — e nisso reside sua força. A direção sabe se colocar a serviço do relato, deixando que ele tencione o filme e não o contrário. Menos é mais: com ritmo sensível e uma economia poética que robustece os relatos Wauja e a visualidade ancestral do Xingu. O cinema indígena no Brasil nasceu do impulso em filmar para resistir, para afirmar identidades, para preservar cosmologias ameaçadas pelo colonizador. Replika herda essa ânsia com vigor e expande a visibilidade dos povos brasileiros.
Documentário falado em Wauja – idioma Waurá –, de uma beleza ritmada, Replika é facilmente um dos grandes destaques do Festival de Brasília deste ano. Não apenas por ser bem executado – o que vem sendo difícil de ver nas Mostras Competitivas deste festival –, mas porque preserva e reativa o debate sobre importância das cosmovisões e memória indígena no Brasil.
Essa crítica faz parte da cobertura do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

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