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Brasifilia (Francenilton Klava, 2026) - Premiere DF | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

há 1 dia
4 min de leitura

Íntimas memórias, retorno ao lixo e uma homenagem ao cinema que nunca andou na linha



A começar pela imagem de película emulada. E uma película bem deteriorada, aliás, parecida com aquelas que o cinema da Boca costumava usar. Filmes realizados, muitas vezes, com câmeras não profissionais, sem grande controle do ambiente e, por vezes, com películas vencidas ou danificadas — condições que também auxiliavam a reduzir os custos de produção. Filmes que, aliás, chegavam a ser vendidos pelos próprios cineastas, que levavam as latas filmadas debaixo do braço para negociar diretamente com os exibidores. Um pouco similar ao perrengue atual da produção cinematográfica brasileira. Contudo, a emulação em Brasifilia (2026), de Francenilton Klava, não está ali com o objetivo de parecer apenas um filme brasileiro de baixo custo dos anos 1970, mas objetiva prestar uma homenagem ao cinema de (re)invenção, feito também a partir da precariedade e da urgência.


Apesar do roteiro divertidíssimo e que respeita bem o timing das piadas, senti falta de um narrador mais cartunesco, que explorasse a voz de forma mais modular, como Jairo Ferreira ou até mesmo Jô Soares faziam — artistas que replicavam o clássico humor cínico e raivoso dessa patota intelectual da época. Algo mais "plástico" como a dublagem brasileira do Coringa nos desenhos antigos. Menciono essa narração porque sinto que, da maneira como foi incorporada, ela acaba suspendendo parte da força do roteiro narrado. Ainda, sinto que alguns trechos da abertura do longa deixam uma sensação de que algo na montagem ainda não encontrou seu lugar, como se o filme demorasse um pouco a alcançar a balbúrdia esperada. Especialmente porque o Cinema Marginal não precisa necessariamente se organizar em torno de uma narrativa convencional, e Klava demonstra compreender muito bem isso ao longo do filme.


Deixando de lado questões mais técnicas, é no quintal, porém, que estão os melhores momentos do longa e de seus atores. Aquelas cenas são lindamente diabólicas. Há de Mangue Bangue (1971), de Bang Bang (1971) e de outros filmes do pandemônio marginal nelas. Quando Pedro (João Monteiro) se lambuza de Coca-Cola, por exemplo, a imagem remete imediatamente a Paulo Villaça, ao final de Mangue Bangue (1971), esparramando-se na lama da rua, sorvendo a sujeira. A própria referência à Coca-Cola evoca um tema recorrente na arte brasileira de Décio Pignatari a Cildo Meireles. Bem como na Tropicália e nos movimentos do Cinema Marginal. A crítica dirige-se à americanização, à guitarra elétrica e à negação de uma suposta brasilidade, ao mesmo tempo que incorpora essa mesma “americanicidade” antropofagizada. Ou, talvez, a negação do próprio tesão sobre o Brasil; a Brasifilia. Os parangolés — referência a Oiticica — também complementam o debate justamente por serem uma obra antiarte, portanto, criada para o espectador ativo e que só é vista quando vestida e movimentada pelo corpo. É um lembrete para que o espectador não se coloque diante da arte de maneira passiva.


Ainda no quintal, a atuação de Larissa Souza é transcendente, entre Helena Ignez e Maria Gladys, mas sobretudo parece inspirada em Angela Carne e Osso, de A Mulher de Todos (1969). A animalidade da atriz que vai se expandindo e tomando forma a partir da raiva é algo difícil de se extrair tão naturalmente. Aliás, essa animalidade não se encerra nela, mas parece contaminar os demais atores em cena quando Pedro (João Monteiro) começa um caminhar quadrúpede, enquanto João (Wryel Lima) — com óculos e chapéu, que aludem prontamente aos bandidos de Bang Bang (1971), especialmente ao cego — parece uma espécie de passarinho a importunar a equipe e os outros atores. São corpos que deixam de obedecer à postura e ao comportamento esperados, como se a própria encenação fosse tomada por um delírio. O momento mais potente do filme.


Outros dois momentos explicitam ainda a paixão do diretor por esse cinema. Em meio à ficção, os atores representam personagens obcecados por diferentes gêneros da imagem em movimento, quando, na verdade, representam os cinéfilos universais do Cinema Marginal, como em O Vampiro da Cinemateca (1977). Mas há também a quebra da quarta parede — ou melhor, a obsessão por quebrá-la —, como quando a câmera de Pedro aponta diretamente para aquela que o filma. Essas intervenções e referências à linguagem do cinema moderno e cultura cinéfila fazem jus ao tom do filme. Não se trata de uma operação meta simplesmente por ser meta; há uma relação afetiva e crítica com a própria história do cinema brasileiro, que se manifesta na forma.


No fim das contas, Brasifilia é uma grande miscelânea das obsessões do diretor, seja pelo Palmeiras, pelo Cinema Marginal, pelas coisas sujas e pelas pequenas contravenções da norma social ou pela relação compartilhada com a avó sobre um pouco de tudo. Nesse último ponto, confesso que me emocionei muito. O quanto nos tornamos os adultos que foram referência para nós nos primeiros anos da vida? É a questão que fica quando o filme é interrompido por essa delicada (re)visitação íntima às memórias da infância, ao lado de uma avó palmeirense que gostava de entrar nas brincadeiras das crianças mitomaníacas. Esse trecho, no entanto, não destoa do restante do filme, tampouco se separa de suas homenagens. Ele participa da mesma operação do conjunto de interesses que constituem o olhar do diretor sobre aquele cinema. Aqui, a memória pessoal não surge como um desvio em relação à cinefilia, mas como um ponto de partida para tudo isso. E Brasifilia é um grande estudo de tudo aquilo que continua reverberando em quem nutre paixão pelo cinema. Em especial, pelo cinema brasileiro.


Um filme de tarados!



PS: Mais um filme de um querido amigo sobre o qual escrevo, e que compôs a mesma sessão do FBCB que Jornada nas Estrelas (2025). Foi muito especial. Portanto, permito-me aqui, nesse trechinho, ser mais pessoal: Eu love tubaína, man!





Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro




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