Vejo Você de Repente (Aída da Costa, 2026) - Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens | 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
E o cinema serve para que?

A aflição e o constrangimento de deparar-me com algo estritamente pessoal, portando rascunhos e relevos inacabados, equivalem à experiência que tive com Vejo Você de Repente (2026) de Aída da Costa, filme integrante da Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens. E, muito embora eu tenha gostado visualmente do filme — em particular, das ilustrações — e da temática de arquivo familiar e revisitação da memória, este filme deixou um gosto amargo durante a sessão. Há um limite tênue entre o voyeurismo proposital, construído na malha semântica de um filme, e aquele em que a experiência do espectador se aproxima demais da observação inadequada da intimidade alheia.
Veja, o cinema, como qualquer outra arte, exige certo conhecimento da técnica. E quando digo técnica, não falo de conhecimentos em hardwares ou softwares ligados à produção cinematográfica, mas da compreensão do léxico fílmico e de como ele se traduz para o espectador. Um posicionamento marcante, relacionado à arte do cinema, para mim, até hoje, é o de Hayao Miyazaki — animador e fundador do Studio Ghibli — que, ao longo dos anos, reafirmou que a arte é uma extensão profunda da vida e do sofrimento da experiência humana. E o cinema não é apenas um produto de entretenimento, muito menos deve deixar de refletir a complexidade do mundo e das relações humanas ou com a natureza.
Afinal, quantas vezes vemos filmes em que nos identificamos profundamente com alguém cuja experiência está muito distante da nossa? Choramos e sentimos profundamente a dor daqueles personagens fictícios por um breve momento, na experiência da sala de cinema e saímos de lá transformados para sempre de algum modo. Por exemplo, não sou uma mulher com família paterna de refugiados da Anatólia e tampouco tenho um parceiro gay soropositivo, mas me vejo, enquanto espectadora, nos filmes de Agnès Varda e sou ambos enquanto estou na sala de cinema. Inclusive, a diretora cria o conceito cinécriture, que permeia toda sua obra, onde sua vida e das pessoas ao redor são os objetos de pesquisa de seus filmes. E grande parte da filmografia de Varda se vê aqui como um bom exemplo de comparação com "Vejo Você", pois são documentários e possuem uma linguagem específica, que carrega traços confessionais em muitos momentos, além de poderem ser declaradamente autobiográficos. Mas há uma diferença.
O cinema, enquanto arte, tem por obrigação nos levar a outro mundo; observar outras realidades a partir de uma janela — aqui, a janela não tem relação exata com o conceito de Xavier (2005), embora caminhe junto. Essa é a potência da arte: ela pode nos fazer sentir e observar coisas em nós mesmos através de outras pessoas, de personagens fictícios, de outras situações, outras relações, outros objetos e assimilar o mundo e a condição humana por meio dessas experiências. E eu não apreendi ou senti nada com o curta dessa sessão.
Certos filmes deveriam ser conversas entre amigos ou, especialmente, um momento íntimo e profundo de compartilhamento de lembranças familiares passadas à próxima geração ou revisitadas entre parentes. Não filmes. Um momento de journaling ou diário pessoal resolveria muitas vezes. E mesmo assim, quero ainda lembrar que o cinema autobiográfico ou aquele que fabula sobre fragmentos da memória de outros integrantes da família existem e são possíveis. Veja o caso do próprio Miyazaki com O Menino e a Garça (2023), onde o diretor se expôs como nunca havia feito antes em suas obras, no filme, como um arquiteto prestes a se aposentar e passar suas ferramentas de trabalho e legado adiante, além de parecer ter se colocado de forma menos explícita em outros personagens. Ou mesmo, outro grande exemplo documental, onde a biografia familiar ou pessoal é o centro da obra no cinema, como em Notícias de Casa (Chantal Ackerman, 1975). No filme, a diretora não expõe de forma opinativa sua relação com a família, tampouco explicita os acontecimentos familiares a partir de seu próprio ponto de vista sobre a relação com a mãe. Em vez disso, narra as cartas que recebeu dela. Quão mais pessoal pode ser isso? O filme ainda combina essas cartas a imagens distantes e banais da vida em Nova Iorque. Talvez seja justamente essa mescla entre o pessoal e o impessoal, acompanhada da autocrítica da diretora sobre sua postura fria diante da mãe, que possibilite ao filme se conectar com o espectador — e a beleza está aí!
Para longe dos diretores do cânone, temos como exemplos tocantes e bem-sucedidos: Aftersun (Charlotte Wells, 2022), Minari (Lee Isaac Chung, 2021), Ladybird: Hora de Voar (Greta Gerwig, 2017), que, aliás, compartilham temáticas similares às do filme de Aída. Perceba, fora Greta, os outros dois diretores não são tão populares a ponto de justificar o sucesso das obras pelo interesse do público — ou fãs — sobre a vida pessoal desses autores. Aftersun, inclusive, acredito que seja um exemplar mais próximo de “Vejo Você” entre os três, especialmente pela revisitação de arquivos familiares sobre o pai, que se suicida pouco depois da última viagem que a diretora compartilha com ele ainda na infância — que, inclusive, é a viagem que acompanhamos no filme, um pequeno trecho da história que consegue condensar todos os elementos necessários para a contação da história. Mas há algo ainda mais distinto entre esses dois filmes no modo de tratar essas memórias e a narrativa. A ambiguidade de Aftersun é bela, enquanto no curta, o que fica dúbio é apenas falha de comunicação com o espectador.
Ainda, o fato de Charlotte Wells trabalhar um live-action com atores que interpretam ela e seu pai e não ter optado por uma narração maçante, criou um distanciamento da história pessoal e a possibilidade de fabulação dos próprios atores. Acompanhando os “bonecos” que interpretam essas pessoas, o espectador vê uma porta que separa a vida pessoal da diretora e do filme. Sabemos que é sobre ela, sabemos que é quase fiel à realidade, acreditamos que é a realidade. Mas é bem mais interessante olhar para o filme antes da porta — essa linda fabulação da realidade — do que tentar ver o que há atrás da porta, pois no filme o espectador se vê e sente. Há coisa mais bonita do que sentir aquilo que a autora sentiu? Do que conseguir transferir um turbilhão de sentimentos a pessoas que você sequer conhece? Muitas vezes uma conversa não traduz e muito menos é capaz de fazer uma pessoa querida sentir tudo aquilo que nos aflige. A comunicação verbal interpessoal tem suas limitações. Mas o cinema... O cinema não. Ele é capaz e, no entanto, não foi bem aproveitado neste filme.
Após essa longa digressão, é importante lembrar que há, sim, imagens bonitas — é claro. O ponto forte do filme está justamente nas imagens. Acredito que ter um pai artista visual e crescer acompanhando imagens, composições, cores e materiais tenha sido, certamente, benéfico para o letramento visual da diretora. É também uma característica bonita da relação dela com o pai, mas acaba ficando em segundo plano. Como já falei, as ilustrações e as animações são bem feitas. Há um bom apreço estético visível. Portanto, é agradável olhar. Na cena final, por exemplo, com os peixes passando, coloridos, em um fundo azul bem saturado, percebemos o quão bem composto, visual e cromaticamente, é o plano. Remete a uma estética dos anos 2000, com telas de descanso das antigas versões do Windows. Traz uma nostalgia gostosa e que talvez funcionasse melhor partindo dela, de arquivos pessoais e outros que não sejam. Construir uma cinécriture mais elaborada, capaz de encontrar a arte justamente entre o pessoal e o impessoal, afinal, quanto mais experimental for a encriptação da mensagem, mais se amplia a possibilidade de sonhar com o filme. O cinema é uma arte de contar histórias, e os recursos de sua linguagem estão disponíveis para isso. O uso do cinema para objetivos tão individuais pode se tornar enfadonho quando essa dimensão pessoal não é trabalhada com tanto carinho.

Essa crítica faz parte da cobertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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