"Os Ruminantes" e a especulação da linguagem
Concentrado nos relatos e no alcance imagético de quatro pessoas, documentário sobre um filme que nunca existiu se firma enquanto propulsor de uma linguagem oral que se fortalece pelo registro de arquivo

Filmes que nunca foram feitos de fato são raramente discutidos, e tampouco virados e revirados do avesso para se pensar em novas imagens formadas a partir de ideias que sempre foram precisamente definidas desde o primeiro esboço de criação, mas que as arbitrariedades de tempo e espaço afastaram do lugar artístico ao qual toda obra almeja se firmar, tornando-se, em muitos casos, mera especulação de bastidor.
Os Ruminantes (Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, 2026) parte de uma premissa curiosa: sua matéria-prima é um filme que nunca existiu. Ainda assim, os diretores instigam os entrevistados a escavar, nos confins da memória, cada detalhe desse projeto perdido. O foco são as múltiplas tentativas do cineasta Luiz Sérgio Person e do roteirista Jean-Claude Bernardet em adaptar A Hora dos Ruminantes. Escrito por José J. Veiga, o livro é um clássico distópico calcado no realismo mágico. Através da oralidade e do uso de imagens de arquivo pertinentes e bem inseridas, o documentário resgata a urgência alegórica da obra original, cujas mensagens cifradas denunciavam o avanço sombrio da Ditadura Militar.

É através dos depoimentos que a obra ganha um corpo definido. As falas da filha de Person, a também cineasta Marina, de Jean-Claude Bernardet, do amigo e cineasta Sebastião de Souza e, de forma comovente, do próprio Person (resgatado em uma entrevista concedida pouco antes de sua morte precoce) criam uma linguagem própria. Juntos, eles tentam codificar o inexplicável: como um projeto que esteve na palma da mão escorreu pelos dedos e virou, hoje, uma coleção de memórias. Na mente desses dois sonhadores, o filme sempre existiu por completo. Houve tanto esforço investido em algo que nunca alcançou as telas, que a sensação de perda pairava sobre todos. É desse luto criativo que nasce a força do documentário: a urgência por uma voz mediadora que friccione documentos, imagens de arquivo e lembranças, transformando o material bruto e inacabado na obra que finalmente podemos ver.
A grande questão é que Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello não se renderam ao óbvio. Eles construíram uma cronologia criativa a partir de uma obra que por muito pouco não foi adaptada e existiu firmemente como um projeto de cinema, o que impede o filme de ser apenas um registro frio sobre um projeto que não se consolidou.
Cada imagem de arquivo obedece a uma lógica própria de construção lúdica. Cenas de outros filmes, comandados por diretores da época como José Mojica Marins e Rogério Sganzerla, atravessam o documentário como espíritos presentes do nosso cinema.

São fragmentos ao mesmo tempo malditos e abençoados, que evocam um tempo em que a arte precisava ser uma afronta. Se não fosse assim, a mensagem corria o risco de ser totalmente velada pela censura.
O contexto da obra nasce dessa reedição do passado e de um profundo apuro com o tempo. O filme observa de frente a dificuldade crônica de se ter uma carreira artística constante no Brasil.
Investigar esse estigma em forma de documentário é uma maneira brilhante de pensar o nosso próprio corpo conceitual. Garante que, mesmo que o projeto original não tenha chegado aos cinemas, ele finalmente vê a luz do dia como uma peça fundamental para a formação cultural de um novo público.
Fique ligado na Cine-Stylo para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos sobre cinema. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:






Comentários