"Já Não Temos Nem Vontade de Brigar": quando festas coletivas dão lugar a celebrações cada vez mais reclusas
Filme de Brunno Bimbati transforma reunião familiar em um retrato do desgaste dos vínculos e do esvaziamento das festividades

Para aqueles que vivenciaram as festas de fim de ano nos anos 1990 a 2000, a lembrança dessa época pode vir carregada de uma certa nostalgia: risadas, a chegada de familiares distantes, a preparação para a ceia, onde cada um fazia e levava uma comida, crianças vestidas com suas melhores roupas, a bagunça pelos cômodos da casa que durava até o dia seguinte e podia, inclusive, resultar em colchões espalhados pela sala ou nos roncos de um tio que acabava dormindo no sofá.
Mesmo que a percepção da idade possa, de certa forma, ter contribuído para o saudosismo dessas memórias, é possível perceber como essas festividades parecem ter se tornado cada vez menos coletivas. Será que a maneira que celebramos as datas comemorativas se modificou ao longo dos anos? Teríamos nos tornado mais individualistas? Ou talvez as constantes desavenças familiares tenham desgastado esses momentos, fazendo com que essas celebrações se definhassem pouco a pouco.

É nesse contexto que surge o filme Já Não Temos Nem Vontade de Brigar, de Brunno Bimbati. Com um título chamativo, o filme nos apresenta “um Natal complicado para uma família complicada”. Contrastando um ideal festivo esperado de uma noite de Natal e uma sensação de desgaste emocional familiar, o filme traz uma abordagem observacional da dinâmica familiar entre o próprio diretor (Brunno), seu irmão (Felippe Bimbati), sua mãe (Ana Paula Bimbati) e seu pai (Tarcísio Gonçalves).
Entre imagens do cachorro da família (Régis) defecando, o caos característico da preparação de uma ceia de Natal e cenas do filme O Poderoso Chefão passando na televisão da cozinha, ainda assim é perceptível ao espectador uma melancolia silenciosa no ambiente. Inclusive, não teria filme mais representativo que O Poderoso Chefão para complementar o aspecto de desgaste entre os personagens: um clássico sobre conflitos e ruína familiar.
Com uma câmera frequentemente estática e posicionada na altura dos personagens, o diretor contribui para a proximidade com os personagens, convidando o espectador a participar da mesa. Com planos longos e cortes menos frequentes, Bimbati permite que os momentos de espera, os silêncios e os pequenos desconfortos familiares se desenvolvam diante da câmera, revelando pouco a pouco as particularidades de cada um dos membros da família.
O principal destaque é a figura do pai de Bimbati (Tarcísio Gonçalves), que adiciona um tom cômico à toda a situação, seja por suas feições expressivas, tragos dramáticos em seu cigarro Rothmans ao som da trilha sonora de Nino Rota, ou seus comentários brutalmente sinceros. É justamente nessa combinação entre humor e desconforto que o filme encontra sua particularidade, fazendo com que situações aparentemente banais revelem o desgaste daquela convivência.

Mais do que retratar os conflitos de sua própria família, Já Não Temos Nem Vontade de Brigar captura uma sensação geracional de esgotamento que vem atravessando as celebrações familiares nos últimos anos. Se antes as festas de fim de ano costumavam ser associadas a encontros numerosos e longas confraternizações, o filme sugere um cenário distinto, marcado por silêncios e afastamentos.
A ceia permanece, a família se reúne, alguns rituais são repetidos, mas algo parece ter se deslocado. O que resta é uma convivência sustentada mais pelo hábito do que pelo entusiasmo.
Nota da crítica:

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