Crítica - O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025) | O mistério da memória
- Paula Hong
- 19 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Filme de Abertura do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Em seu mais novo filme, Kleber Mendonça Filho usa da ficção para costurar passado recente do Brasil

Talvez O Agente Secreto seja, até o momento, um dos filmes mais pirracentos ,isto é um elogio, e de grande saldo temático realizado por Mendonça Filho. Pirracento porque os códigos fílmicos de espionagem e temas comuns a seus filmes são retrabalhados de outros modos em conjunto da abordagem inesperada sobre a trama que se passa durante a ditadura militar no Brasil. Neste sentido, o título acena para estereótipos do gênero de suspense, mas traça outro caminho mais atrelado ao drama de um Brasil que, embora no filme esteja ambientado na década de 70, é trabalhado pela lente dos eventos da última década. E seu saldo temático aglutina memória, amor, corrupção, imaginário, arquivo, violência e dinâmicas injustas de poder. O filme exala um tipo de Recife que nasce das pesquisas de Retratos Fantasmas e cuja realização resgata desejos advindos do documentário.
Diferentemente de seus outros filmes, desta vez estamos em 1977. Marcelo (Wagner Moura) viaja de fusca até a capital pernambucana para reencontrar seu filho Fernando. Ele pára num posto de gasolina e no chão de terra, sob um sol escaldante, está deitado um corpo em estado de decomposição, coberto por um papelão. O cheiro de podridão do seu estado impregna como um prenúncio dos mistérios que permeiam a trama. É o primeiro componente de um saldo de corpos que vai se empilhando no decorrer do filme, cuja contagem é feita pelo jornal da cidade durante o Carnaval. Marcelo, desde a primeira cena um personagem enigmático, carrega curiosidade e preocupação sobre aquele corpo como se estivesse sendo comunicado da possibilidade de ele ser o próximo a se tornar mais um número dessa estatística. Isso é acentuado não somente pelo contexto da ditadura militar, mas também pela abordagem policial que dá preferência a questionar a passagem de Marcelo do que procurar entender o porquê daquele corpo estar ali.
Ele se hospeda no Edifício Ofir, onde os moradores são acomodados pela figura carismática de Dona Sebastiana (Tânia Maria), mátria e grande aliada que sustenta muito naturalmente um humor que ajuda a balancear a pesada cortina de fumaça dessas tensões. Marcelo é mais um daqueles que se camuflam e se protegem sob um nome falso. Isso amplifica o mistério ao passo que agrupa figuras que pouco sabemos a respeito, mas que não é preciso de muito para entender os motivos dessa supressão de aprofundamento sobre eles. O Edifício Ofir representa o Brasil como território hospitaleiro dos refugiados. A paranóia de Marcelo dilata quando é designado a trabalhar no Instituto de Identificação. Lá conhece Delegado Euclides (Robério Diógenes) e seus aliados, figuras de grande responsabilidade pela corrupção que ocorre na surdina da cidade, pela proteção da elite em detrimento dos mais pobres, e pela ignorante glorificação da guerra, do militarismo.
Uma das delícias dos filmes reside no assentamento gradual das informações e das frestas que abre para fabulações alimentadas pelo imaginário local; a Perna Cabeluda encontrada no estômago de um tubarão e que mais tarde aterroriza e ataca pessoas num parque da cidade. Os atos desse suspense tomam seu tempo na entrega da ambientação e na construção de tensões que — mais uma vez — fogem dos estereótipos, de modo que Marcelo se mostra confuso no decorrer da perseguição que sofre. É certo que a marcha lenta pode conferir certa platitude, sobretudo no segundo ato, mas a recompensa chega na catarse do terceiro, o que muito lembra Bacurau (2019). A montagem do quebra-cabeça é feita com muita andança e alianças feitas por Recife, por telefonemas breves à capital do Brasil e se enfiando nas fisgas de respiro da folia do Carnaval. O protagonista é guiado pelo desejo de estar com o filho e de recuperar nos arquivos do Instituto de Identificação um único documento que comprove a existência de sua mãe. Os percalços em seu caminho invadem seus planos pela tangente, têm origem e vêm do vilanismo das grandes metrópoles personificado pelo paulista Dr. Guirotti (Luciano Chirolli). Marcelo é então jurado de morte por Guirotti que contrata assassinos de aluguel para se livrar dele.
Consciente da confusão causada pela disposição das informações, o diretor ajuda tanto Marcelo quanto o espectador ao introduzir Eliza (Maria Fernanda Cândido). É a partir dela e sua entrevista com Marcelo que aprendemos mais sobre ele e seu passado. Paralelamente somos trazidos ao tempo presente: a pesquisadora Flávia (Laura Lufési) escuta essas fitas, investigando através de arquivos de jornal o período e a história retratados no filme. O corte do passado para o presente é um tanto quanto brusco, de modo que há uma demora em se situar. Apesar disso, esse corte funciona como um gesto de aproximar o passado e o presente, mostrando que a reverberação dos acontecimentos de lá iluminam os acontecimentos de cá, e vice-versa. A distância entre um e outro não é tão grande assim. O diretor acena para os pesquisadores que tentam remontar eventos para entendê-los e, a partir das origens baixas, costurar, de retalho em retalho, uma imagem maior e mais ampla de um dos períodos mais assombrosos da história brasileira.
Em seus filmes, Kleber Mendonça Filho retrata a dificuldade do brasileiro com a arquivagem e a preservação de sua memória. O sucateamento das instituições sendo um dos grandes responsáveis pela amnésia coletiva e da propagação de informações que lesionam a democracia brasileira, da desvalorização de seus pesquisadores e da corrupção que dá lugar a uma ferida aberta cada vez mais cara ao Brasil, cujo saldo é colhido pelos últimos acontecimentos políticos desta década. Essa amnésia é financiada pelos interesses da esfera privada nas imposições de relação com a esfera pública. A essa altura da narrativa aprendemos que Marcelo é pesquisador, professor e chefe do departamento de estudos de tecnologia de uma universidade pública. Guirotti é quem acaba com o departamento, dando um “banho de indústria” nele. Em Aquarius (2016), o apartamento; em Bacurau (2019), o museu; em Retratos Fantasmas (2023), os cinemas; em O Agente Secreto, o Instituto de Identificação. Ele mostra a facilidade com que nos é tirado a possibilidade de resguardar nossa memória, como é fácil esquecê-la institucionalmente. Faz pensar em como seria diferente se soubéssemos melhor tratar a nossa história e na possibilidade de um outro Brasil caso não repetíssemos ciclos.
Pode ser que o real mistério desse suspense esteja em (não) saber o que fazer com a nossa história. Já no final, de volta ao tempo presente, Flávia encontra Fernando, filho de Marcelo, também interpretado por Wagner Moura. Ele trabalha num hospital que antes era cinema. Fernando carrega o pai na pele e na aparência. Apesar disso, não tem memória alguma dele. A pesquisadora entrega a Fernando um pen-drive com todos os arquivos relacionados ao seu pai. Mesmo reticente, aceita. Mas o que fazer com isso tudo? Como enfrentar essa memória?
Essa crítica faz parte da cobertura do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
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