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Cinco (2003) | A magia do cinema ainda é o imprevisto

Kiarostami se põe como observador passivo enquanto seu cinema acontece dentro do quadro



Assim como xadrez, o gamão é um jogo de muita estratégia e probabilidade. Em ambos os jogos, cada jogada deve ser premeditada e cada movimento planejado. Apesar das semelhanças, o gamão tem pouquíssimas regras se comparado ao xadrez e pode ser considerado por muitos como um jogo mais fácil que o xadrez. No entanto, há uma característica que diferencia o gamão e o torna mais divertido: a presença da sorte. Embora um jogo de dados envolva probabilidade e matemática, há maiores chances de um jogador iniciante derrotar um jogador de gamão “profissional”, assim a sorte toma um lugar importante nesse tipo de tabuleiro.


Abbas Kiarostami produziu uma pequena entrevista\vídeo sobre o documentário poético Cinco (2003), onde ele diferencia o fazer cinematográfico em duas versões ou possibilidades diferentes.


Sendo a primeira versão do fazer cinematográfico, segundo ele, muito similar ao xadrez. Nesse tipo de produção, os responsáveis por um filme, ou “deuses da cena”, controlam cada movimento, cor, ação, vozes e corpos em tela. Essa é a opção clássica. Mas talvez seja a mais fácil, pois é a opção que dá luz à formação de uma nova realidade, ou simula uma realidade existente com ampliações, para o espectador a partir do registro do olhar da câmera. Assim, seguindo o modo “xadrez” de cinema, tudo o que aparece no quadro é planejado para simular uma realidade a partir da imagética ou do som. Embora, talvez, falte com detalhes sinceros na captação de documentos da natureza, pois é a parte mais independente, incontrolável e basilar da realidade.



Já a segunda possibilidade do cineasta é a mais complicada e a mais mágica, e Kiarostami aposta nela. Nessa segunda opção, o cineasta confia seu filme aos registros da natureza pela câmera e enquadra no filme aquilo que o incontrolável, a natureza, propõe.


Assim, Kiarostami registra as ondas sem alterar seus movimentos, os cães deitados em suas posições, os patos e as pessoas passando livremente em planos estáticos onde a câmera observa imóvel a realidade. A segunda possibilidade é um jogo de gamão, segundo o cineasta. Mesmo porque, apesar de haver planejamento dos longos planos, da proposta do filme ter uma base em estudo de Ozu sobre o cinema e das probabilidades exploradas pelo cineasta ao delinear um microcosmos da realidade, ele dependia da sorte para fazê-lo.


Por mais que ele enquadre e selecione o seu conteúdo, colocar a lente da câmera sobre um trecho de realidade, a fim de torná-lo visível ao espectador, o cineasta deixa fluir a cena, quase como um jogador de gamão ao lançar seus dados.


Cinco (2003) é um estudo prolongado da cena do vaso de Primavera Tardia (1949), não se questiona ou teoriza grandes reinvenções do cinema, mas traz a mesma magia da cena de Yasuhiro Ozu. Magia essa que encontramos nos movimentos naturais dos galhos que fazem sombra sobre o vaso no filme japonês e que também vemos ao longo de Cinco (2003), com o caminhar de pessoas e patos ou com o movimento do mar, pois há verdade nessas cenas.


Já que os movimentos não parecem ter sido feitos por um braço movimentando um galho ou um ventilador balançando-o, parece mesmo o vento se encontrando com esse galho de bambu num longo take. Por isso é um plano tão mágico ao olhar cinematográfico, por simplesmente não ter sido completamente manipulado. Kiarostami entende essa cultura “Ozu de olhar” ao respeitar o cinema também, pois em ambas as obras conseguimos perceber uma escolha de ações do olhar cinematográfico sobre a natureza assim como haicaístas escolhem as mais precisas palavras para representá-la.



Afinal, a captura da natureza e da realidade como se apresenta dentro de um quadro ainda é, talvez, a coisa mais mágica que poderia acontecer ao se fazer cinema. Num lance de dados, o diretor aposta na sorte e na boa vontade da realidade em se expressar diante da câmera, pois apesar de controlar o frame, planejar os cortes e as montagens e selecionar as trilhas sonoras, não se controla o movimento de uma onda. Muito menos o ritmo de uma patacoada. Fazendo de seu trabalho apenas escolher as melhores versões da natureza em sequência como palavras em um haicai.


Enfim, Cinco (2003) é um filme revigorante! Um estudo sobre o cinema e documentário, um estudo sobre Ozu e uma resposta singela e muito concisa às tantas teorias e críticas sobre a famosa “cena do vaso” de Primavera Tardia. É um filme sobre fazer filmes, sobre fazer documentários e uma afirmação consistente sobre a inegável beleza do comum no trabalho de Yasuhiro Ozu. Um documentário poético leve e gostoso de dormir assistindo.


Abbas Kiarostami foi desses cineastas que não perdeu o respeito pelo cinema ao longo da carreira e que também respeitou outros tipos de arte, como vida em si. E ele sabia, que embora o tempo passasse e as tecnologias alterassem as formas de se filmar e produzir filmes, a captura de improvisos da natureza, de animais em cena ou mesmo os vultos de pessoas vivendo sem intervenções dos “deuses da cena” ainda é uma das magias mais poderosas do cinema. Se tem uma coisa que não muda é isso.


 

Nota da crítica:


 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:


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