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“Sherlock Jr.” Celebrando um cinema recém-nascido

Quando o cinema ainda dava os seus primeiros passos, Buster Keaton já celebrava a arte com um filme que a gente consegue tocar


Crítica de Sherlock Jr de Buster Keaton

É difícil fugir de referências. Mesmo que de forma inconsciente, todo filme que vemos hoje advém de raízes mais profundas da sétima arte. Isso surge não só em caminhos narrativos, mas em decisões formais como o desenho de som, montagem, fotografia, formas de atuação, etc. Mesmo em filmes tidos como ruins, é possível fazer paralelos com experiências passadas, o que nos leva a entender o cinema como a essa sucessão de experimentações em um processo de descoberta não linear e, também, de homenagem. Quantos “filmes de cinema” — aqueles que homenageiam a própria linguagem e sua história — são feitos todos os anos?


Isso nos leva a outra questão: o que era feito quando não se tinha um referencial na mesma linguagem? O que se inventou enquanto cinema nos primórdios, quando tudo aqui era mato? O cinema não nasceu do vácuo e, desde sua origem, outras linguagens artísticas serviram de base, especialmente o teatro e a fotografia. Entretanto, aos poucos descobriu-se as vocações próprias da sétima arte: o poder do close-up, a montagem como manipulação do tempo e da própria consciência, o plano como estabelecimento de uma realidade particular. Com sua estrutura industrial, porém, esse desenvolvimento se deu de forma acelerada e massiva.


E então, em 1924, Buster Keaton nos apresentou Sherlock Jr., uma obra que já tratava o cinema como uma arte madura e cheia de história, apesar de seus menos de 30 anos de vida. No filme, acompanhamos um projecionista de cinema, interpretado pelo próprio Keaton, que sonha em atuar como detetive. Entretanto, não sendo bom nem numa coisa nem na outra, acaba sendo prejudicado por um golpista e se mete em altas confusões. Com um tom leve e divertido, o filme é dividido em duas partes: o mundo real e a imaginação do protagonista que se funde com os próprios filmes que passam no cinema.


Crítica de Sherlock Jr de Buster Keaton

Isso cria uma tensão logo de cara. Seria o cinema mero escapismo — uma fuga completa da realidade, uma negação — ou haveria alguma conexão entre a sétima arte e o mundo em que vivemos? Essa tensão é trabalhada principalmente através da persona de Keaton, com seu jeito simpático e franzino, baixa estatura e olhar que trafega entre a ingenuidade e a esperteza. No mundo real, isso se materializa a partir de uma certa insegurança e incerteza que são amplificadas pela eterna disputa em vida. Logo no começo, o personagem tenta catar dinheiro em meio ao lixo, encontrando várias pessoas que teriam perdido o dinheiro ali. As relações sociais vão espremendo o protagonista que, tentando se encaixar no mundo, parece ficar ainda mais isolado. O humor aqui encontra duas vias principais: a primeira é social, advinda do próprio absurdo de cada uma das situações. A outra é física, na forma que Keaton interage com o espaço e como ele consegue ser tão gracioso quanto atrapalhado.


Ainda que o filme faça uso das famosas cartelas de texto para indicar os poucos diálogos que tem, toda sua construção é muito imediata, seja no uso de planos gerais, seja na aplicação de close-ups. Nenhuma imagem precisa de elementos adicionais para ser expressiva por si só, ao mesmo tempo em que a costura da montagem potencializa efeitos que já estão presentes ali. Isso fica ainda mais evidente quando vamos para a segunda parte do filme, quando o personagem de Keaton adentra o mundo dos filmes. No que parece ser mero escapismo à primeira vista, torna-se um novo conjunto de desafios.


Crítica de Sherlock Jr de Buster Keaton

Logo numa das primeiras cenas nessa nova realidade, o personagem precisa se habituar à própria lógica da montagem dos filmes, em que cortes secos vão transportando o seu corpo entre espaços diferentes e sem muita ligação lógica. O humor, que segue físico, ganha agora camadas metalinguísticas, em que o próprio filme dentro do filme vira elemento de opressão do protagonista. Se antes eram as interações sociais que o oprimiam, aqui a estrutura fílmica vira vilã, puxando e empurrando o personagem para todos os lados, sem que ele consiga sequer manter o equilíbrio.


Após vencer essa prova, o protagonista apresenta uma nova faceta: sua versão cinematográfica, mais segura e poderosa. Não é uma pessoa diferente, mas um novo olhar, uma nova imaginação. Keaton é extremamente habilidoso ao mostrar essa nova postura no próprio corpo e pequenos trejeitos, alterando o conflito até então vivido. Se antes ele parecia dominado pelo mundo, o mecanismo cinematográfico — após ter sido compreendido — passa a ser instrumento de empoderamento. Ele não é mais um trabalhador em busca de trocados, mas um detetive mundialmente famoso que irá resolver um novo caso custe o que custar.


É impossível olhar para um filme sem levar em conta o seu tempo. Com isso em mente, fica ainda mais impressionante perceber que Keaton construiu um “filme de cinema” em 1924, apresentando uma autoconsciência que mesmo hoje é difícil de encontrar — ainda mais com tamanha elegância. Aqui, o cinema não é mero escapismo, como as aparências poderiam apontar, mas instrumento de cocriação da realidade. A cena final, na qual o personagem olha para a tela para saber como agir, mostra que o diálogo funciona nas duas vias. Ao mesmo tempo em que a realidade molda o cinema, a sétima arte tem o poder de expandir olhares e alterar o mundo físico.


Crítica de Sherlock Jr de Buster Keaton

É valioso perceber que tudo isso foi construído em um período sem computadores ou Inteligência Artificial. A matéria-prima de Keaton foi o próprio mundo, usando a câmera como instrumento de criação propriamente, principalmente em como ele escolheu ângulos específicos que fortalecem tanto suas cenas mais intensas. Mesmo as cenas do mundo do cinema são, no fim das contas, cenas do mundo, em que o pró-fílmico — aquilo que existe no mundo real antes mesmo da câmera ser ligada — é prioridade antes de qualquer coisa.


Não que eu seja contra o uso de computadores ou outras tecnologias no cinema. Mas é bom ver um filme que ama tanto a sua linguagem desde os primeiros passos, ou mesmo desde sua gestação. Um cinema que a gente pode tocar.



Nota da crítica:


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