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“O Drama” reflete sobre a quem concedemos o benefício da dúvida

Dando voz aos ansiosos, o drama de Kristoffer Borgli julga uma quase ação e condena o indivíduo-exemplo pelo mal coletivo


Crítica de O Drama de Kristoffer Borgli com Zendaya e Robert Pattinson

Um dos momentos mais subestimados nas discussões sobre Psicopata Americano (Mary Harron, 2000) é quando Patrick Bateman pede a um de seus amigos que pare de fazer comentários antissemitas. Ele, abertamente misógino, racista e o redpill primordial, curiosamente traça a linha da intolerância quando alguém faz algum comentário — sim, indefensável — dirigido a  um grupo abastado da elite nova iorquina, do qual fazem parte vários de seus clientes. Esse diálogo, muito esquecido dentre toda a releitura bizonha que é feita sobre esse clássico dos anos 90, deixa bem claro a quem o protagonista reserva sua empatia e humanidade.


Uma discussão muito parecida, mas que se torna interessante ao inverter a dinâmica de poder. Foi o que me puxou para O Drama (Kristoffer Borgli, 2026). No primeiro terço do filme, Emma revela que já planejou um tiroteio escolar e, a partir de então, sua vida se torna um inferno: seu noivo dá dois passos para trás em relação ao casamento, duvidando de sua índole, e sua até então madrinha revela o trauma — conveniente — de ter uma prima que ficou paraplégica num ataque desse tipo e a culpa por todas as dores de sua vida.


O curioso é que, como não demora a vir à tona, Emma não só se arrepende, mas também engaja na luta anti-armamentista a partir de uma série de desencontros que a impediram de cometer o atentado. É nesse julgamento de valor que o filme se desenvolve e forma o elo com a obra de Harron. Enquanto um saí da barbárie para defender o único grupo que lhe oferece algum ganho, o outro aponta e individualiza um problema muito mais amplo para rechaçar, justamente, uma mulher preta. Assim, desde essa virada até o final de sua rodagem, alfineta, entre outras questões: a quem a gente reserva o benefício da dúvida? O quanto de alguém existe em suas intenções? Fazer algo ruim é melhor do que quase fazer algo horrível? Bom, o melhor é que a obra não se propõe a responder tais questionamentos com diálogos intrincados. Na verdade, ele só os utiliza para espremer os personagens contra a parede de novas descobertas uns sobre os outros.


Crítica de O Drama de Kristoffer Borgli com Zendaya e Robert Pattinson

A forma como o filme materializa essa ansiedade em tela é o que eleva o uso dessas discussões. Quando uma cena começa nós já a encaixamos dentro da realidade apresentada pela narrativa. Logo, para embaralhar esse senso, o diretor entrega a imagem para a imaginação e memória das personagens o que nos leva para uma nova faceta do casal. Do lado de Emma, não demora para que imagine o quanto seu parceiro deve estar estremecido e planejando deixá-la. Não à toa, o vemos planejando a fuga. Já do lado de Charlie essas ocorrências são ainda mais proeminentes. Ele passa a ressignificar suas lembranças e monta um novo perfil de sua amada conectando todos momentos de raiva, isolamento e afins à uma psicopatia inexistente. Essa estética armada se confunde com a paixão e o erótico e quase definha sua mente britânica com um problema tipicamente estadunidense.


Amarrando tudo, a cena do casamento em si é um ótimo exemplo dessas múltiplas realidades. Em cada rosto, risada e conversa paralela, o filme retorna seu olhar para o casal que confabula o pior. A catarse nem é tão apoteótica assim, mas ver os dois rastejando no desespero do julgamento, sim. Curioso que enquanto o receio de Emma é quase todo infundado, o de Charlie se materializa. Primeiro, de forma repentina, através de sua secretária e depois por ele mesmo, fechando a desgraça do casal.


Robert Pattinson vende esse ser angustiado muito bem, mas Zendaya é o destaque. Ela traz uma presença multifacetada para essa mulher que ao mesmo tempo se propõe a viver em paz com seu passado e não consegue esconder a vergonha que isso lhe causa. Esperava algo parecido com a sua performance em Rivais (Luca Guadagnino, 2024), mas aqui ela tem uma ternura muito particular, uma humanidade de quem já esteve errado. Aliás, que personagem bem escrita é a Emma. Se no passado o acaso lhe entregou uma chance de recomeço que mudou sua vida, agora ela enxerga começar de novo como a válvula de escape para essas realidades alternativas em que as coisas dão errado.


Crítica de O Drama de Kristoffer Borgli com Zendaya e Robert Pattinson

Muito da forma apresentada aqui deriva desse estilo ansioso que tem recebido os holofotes dentro de uma cena autoral do cinema americano, vide Joias Brutas (Ben & Josh Safdie, 2019) e o mais recente Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (Mary Bronstein, 2025). Então, tem os seus momentos ruidosos de câmera na mão, uma distância focal distante que isola as personagens com closes claustrofóbicos aqui e ali. Entretanto, tem uma chiqueza nos momentos mais corriqueiros da narrativa que reserva o uso desses recursos em momentos mais específicos de tensão. Diria que é a mistura perfeita das melhores e mais apaixonadas imagens de Amores Materialistas (Celine Song, 2025) com a acidez de Depois da Caçada (Luca Guadagnino, 2025) e uma pitadinha dessa ansiedade em forma de encenação que cito.


Do tipo de filme moderno que se propõe a oferecer um panorama sobre assuntos da atualidade sem ser panfletário ou implorar aprovação. Ele instaura a discussão, até reflete sobre ela, mas são as reverberações dela que escrevem o discurso do filme. Não à toa, o final deixa um amargo na boca. Uma mulher que já se redimiu tendo de propor um reinício para alguém que não foi capaz de perdoá-la por algo que ela sequer fez.



Nota da crítica:


Crítica de O Drama de Kristoffer Borgli com Zendaya e Robert Pattinson


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