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"A Voz de Deus" ou a infância transformada em performance

Fé, infância e trabalho se entrelaçam em uma sociedade cada vez mais miserável e adoecida. Em A Voz de Deus, o sagrado coexiste com a sobrevivência básica e a materialidade não é ignorada em momento algum


Crítica de A Voz de Deus

No livro de Mateus, Jesus disse aos seus discípulos: “Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus.” Pouco menos de dois mil anos depois, a situação nas igrejas cristãs parece um tanto invertida. Em A Voz de Deus, filme dirigido por Miguel Antunes Ramos, acompanhamos o pregador mirim João Vitor Ota, um rapaz que começou o ministério com cerca de quatro anos de idade. Paralelamente, vemos a vida presente de Daniel Pentecoste — hoje um homem em seus mais de vinte anos —, que já fora um pregador quando criança. Tendo experimentado o ministério em períodos um tanto diferentes do mundo e do próprio Brasil, suas trajetórias apresentam diferenças palpáveis. Entretanto, há algo que une os dois personagens: uma infância pautada em imitar adultos.


Não trago isso como julgamento ou condenação, mas uma constatação advinda do que a câmera de Miguel Antunes traz. Com um olhar bastante intimista, o filme adentra a vida dos personagens sem negar sua presença. Ainda que a obra não apele para recursos comuns de documentários como o voiceover e o uso de entrevistas, a câmera é percebida pelos personagens, que muitas vezes interagem diretamente com ela. Há, no mero registro, uma tensão; os personagens são pessoas acostumadas às câmeras, especialmente quando performam em suas igrejas. No caso de Daniel Pentecoste, há ainda um componente analógico com a gravação de DVDs, enquanto João Ota já começou a atuar na era das lives e da velocidade presente no mundo digital— um ponto de contraste interessante entre os personagens que irei abordar posteriormente. A tensão surge exatamente da diferença do registro: enquanto cada igreja constroi a sua mise  -en-cène que potencializa a voz e a presença do corpo do pastor, o espaço doméstico não apresenta a mesma ordem.


Nas imagens de arquivo, com várias e várias pregações, vemos essas crianças em posições elevadas, centenas de cabeças olhando em suas direções. A câmera, nesse sentido, é quase imperceptível para os personagens. O corpo se expande para um público amplo e a voz se eleva aos moldes dos antigos pastores do televangelismo. Há, porém, sempre os adultos em segundo plano. Enquanto o pastor mirim prega com grande energia, o arquivo não deixa de revelar os adultos ao fundo que acompanham e se regozijam ao ver uma versão em miniatura deles mesmos. Os registros originais do filme, por outro lado, mudam toda a configuração. A casa não é púlpito e os ritos de uma igreja não se aplicam. Há espaço para uma forma de caos infantil e uma nova forma de expressão surge nos personagens: a de crianças e jovens.


Crítica de A Voz de Deus

O filme revela que os pastores mirins não são diferentes de qualquer outra criança. Na verdade, mesmo os espaços gravados trazem uma carga que aproxima essas vidas de qualquer vida comum no Brasil. Fora das igrejas, esses personagens são mostrados em casas comuns, com pais que lutam por uma vida melhor — o trabalho sendo a força-motriz e promessa de mudança —, frustrações e sonhos. Quando a câmera de Miguel Antunes Ramos escolhe filmar a casa e os espaços de trabalho ao invés das igrejas, ele escolhe ampliar a vida, não reduzi-la. Mesmo quando toca diretamente em questões políticas — como as eleições de 2018 e 2022 — o faz com naturalidade e distante de qualquer julgamento, algo bastante raro e que já posiciona o filme num lugar diferente de outros trabalhos como No céu da pátria nesse instante (Sandra Kogut e Henrique Landulfo) e Apocalipse nos trópicos (Petra Costa).


A partir desse registro cru, na verdade, o filme posiciona esses personagens — e suas famílias — como trabalhadores. A religião ganha desenhos materiais, uma forma de mudar de vida não espiritualmente, mas financeiramente. Mais uma vez, não coloco isso aqui como forma de julgamento ou dúvida da fé dos personagens. Eu genuinamente acredito que eles creem no que pregam. Entretanto, as condições materiais no mundo em que vivemos naturalmente levam as pessoas a procurarem formas de sobreviver. Uma sobrevivência social, material, espiritual. Ao fugir do julgamento óbvio e do escracho político, A Voz de Deus traz esses personagens primeiro como sobreviventes, depois como vozes religiosas.


Nesse sentido, é interessante como o antagonismo no filme surge muito mais na forma do tempo do que qualquer opositor político ou situação específica. Mesmo diante das mudanças políticas do país, o que mais afeta os personagens é o fato de o tempo transformá-los de pastores mirins — ou crianças abençoadas com o dom da palavra — para simplesmente pastores. Aqui, é importante perceber que os trejeitos adultos não mudam, mas a jovialidade se perde e, da mesma forma, eles são descartados pelo mesmo mundo que os criou e os roubou.


Crítica de A Voz de Deus

Chama atenção os olhares dos adultos no filme. Imprimindo nas crianças os seus próprios vícios, prometem um novo mundo enquanto descartam a própria infância (ou a desconfiguram até não restar quase nada). Mesmo assim, a obra registra beleza genuína em momentos longe do púlpito, como quando Daniel Pentecoste, já casado, conversa com um amigo que pensa em se reaproximar de Deus. Ou então quando João Vitor Ota brinca em um touro mecânico, num momento de pura infância distante de qualquer pressão de performance ou emulação adulta, sem celulares por perto.


Com uma postura de respeito e sinceridade, Miguel Antunes Ramos mostra que, apesar de Jesus ter dito que apenas os que forem como crianças herdarão o Reino dos céus, os adultos que comandam a fé parecem querer arrancar a infância delas.


Filme visto a convite da Embaúba Filmes. Estreia nos cinemas dia 16 de abril.



Nota da crítica:


Crítica de A Voz de Deus


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