“Michael” é uma evolução frustrante da cinebiografia
- Davi Alencar

- há 3 dias
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Polido ao extremo, o filme de Antoine Fuqua quase consegue reduzir o rei do pop à sua versão mais publicitária

Tomemos a própria indústria musical como exemplo para definir Michael (Antoine Fuqua, 2026). Antes dos streamings e da internet tomarem conta, a produção de um músico, cantor ou banda consistia no lançamento de álbuns. Na composição, essência, ordem das músicas, capa e até roupas utilizadas pelo artista durante um certo período residiam o fazer artístico. A unidade narrativa do meio, para todos os efeitos, era essa organização de canções. Entretanto algumas dessas canções ficam mais famosas que outras e caem no gosto popular, perpetuando uma presença marcante no imaginário coletivo. Um grande artista, eventualmente, acaba conseguindo juntar alguns desses sucessos em seu repertório e parte para uma decisão que o descaracteriza. Num momento de baixa na carreira, pressão empresarial ou até mesmo falta de controle criativo, chega o fatídico disco de melhores sucessos.
Compilado em uma ordem aleatória, sem um conceito ou mesmo vontades soltas regendo a coletânea, ouvimos uma colcha de retalhos nostálgica que não diz mais muita coisa. E é assim que soa o filme de Fuqua, um recorte do que considera ser os melhores – ou mais palatáveis – momentos de uma vida extremamente complexa. Nisso, o diretor não traz para o filme a sua versão de Michael Jackson, mas sim a que foi aprovada por todos os gestores de relações públicas de Los Angeles e transforma esse ícone na única coisa que ele nunca foi: genérico.

Em biografias, o que entra ou não no enredo da obra é uma escolha tão importante quanto qualquer outra. Especialmente na transposição de pessoa real para personagem. Aqui, essa construção só entrega tudo aquilo que não fere a marca e afasta o principal drama do filme – a relação de Michael com seu pai – de existir de qualquer outra forma que não na fala. Gravado sempre a meia distância e com os quadros mais clichês que o cinema moderno pode oferecer, um aspecto tão importante para esse personagem é relegado à citação. Isso só para citar uma das muitas temáticas mencionadas que nunca vêm à tona.
O filme tem a personalidade de um cantor de pop moderno e não exercita sua linguagem de forma alguma. Cada cena – especialmente as recheadas com diálogo – só visa se arrastar o mais rápido possível para o próximo número musical. Em tese, tal escolha não seria um problema se essas performances entregassem algo mais substancial para carregar o filme, mas é claro que não é isso que acontece. Salvo uma ou outra, me recordo de ter visto a contraparte real de quase todas as apresentações trazidas à tela e o filme não evolui em nada o que a vida real já nos ofereceu. A sua vontade se equipara às limitações técnicas da televisão dos anos 80 em gravá-las e, exceto por alguns momentos em que adiciona enquadramentos mais fechados, mantém a dinâmica cênica intacta.

Aliás, é curioso como até o Michael tem mais controle que Fuqua e fica fácil de ver isso na cena da gravação de Thriller. Seguindo um conselho de Fred Astaire, ele pede ao diretor que abra mais o enquadramento para que o público veja seus pés, vendendo melhor a dança. Dito e feito, esse quadro mais afastado não denota só uma vontade, mas uma consciência do fazer artístico que citei acima. Seria desonesto dizer que o filme não empolga, mas só até você perceber que tudo que empolga veio do próprio Michael. As músicas, as ideias, as performances, a energia e a intensidade de um artista tão grande que não consegue não melhorar o que toca.
Como toda cinebiografia grandiosa, o cinema é enxergado como um mero canal para reconstruir a realidade. Essa suposta neutralidade é, na verdade, a mais tendenciosa das vontades: tornar a obra agradável ao mercado. Um desrespeito a ambos, que agora evolui como franquia, fincando mais às garras do capital na sétima arte. Ainda mais triste é pensar que, entre tantos artistas que ganharam filme, justo esse começa uma serialização da narrativa. Algo quase tão ruim quanto ganhar um feat póstumo com o Justin Timberlake.
Nota da crítica:

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