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Scarface (1932)

Desencanto e fatalismo na fisiologia de uma realidade tomada pelo crime organizado



Enquanto o romantismo de Goodfellas nos dá um gostinho da vida de mafioso e seus prazeres proibidos, e o barroco de O Poderoso Chefão, um vislumbre dos valores arraigados numa família de tradição mafiosa, Scarface, indo por um viés mais classicista, propõe um olhar desencantado ao submundo do crime.


Em outras palavras, o filme de Howard Hawks não possui artifícios de encanto, mas de desolação. A encenação do longa, portanto, é desafetada: não há estilizações luxuosas dos cenários ou dos vestuários; a câmera não se aproxima de maneiras mais íntimas dos personagens, de modo que estes, para nós, são pouco mais do que corpos exíguos interagindo entre si num contexto de criminalidade; não há trilha sonora para além dos diálogos e dos ruídos ambientes intrínsecos à ação; é um filme noturno, em que por vezes o contraste de luzes e sombras é tão intenso que a nitidez das imagens é prejudicada.



Em suma, não há elaborações técnicas mais estimulantes, mais envolventes, que certamente seriam mais adequadas para efeitos de espetáculo. Na verdade, pelo contrário: Scarface rejeita toda e qualquer espetacularização. Então, ao invés de encantamento, o filme produz um clima melancólico que não nos permite nutrir esperanças, assim como a própria progressão narrativa não nutre, de que a criminalidade oferece algo além daquilo que emana de suas entranhas: violência, destruição e morte.


E é por meio dessa ótica que interagimos com o arco dramático de Tony Camonte, nosso galã torto de ambições corruptas. Scarface, nesse sentido, possui uma trama fatalista por excelência, e, quando se conclui, com Camonte caindo morto no asfalto após testemunhar a destruição de tudo aquilo que lhe continha algum valor, e o plano, sóbrio como um encolher de ombros, nos conduz do corpo sem vida ao letreiro que diz “the world is yours” em letras grandes e brilhantes, tudo o que resta é uma ligeira piedade pelo protagonista. É uma pena que ele tenha se encaminhado para a criminalidade e que tenha acreditado que, assim, teria o mundo aos seus pés. A tragédia, entretanto, sempre esteve anunciada.



De resto, é curioso notar que Scarface, aparentemente, tem a pretensão (do produtor Howard Hughes? De alguma terceira entidade?) de “criticar” a situação do crime na época em que o filme foi lançado, mas o trato cinematográfico de Howard Hawks é menos interessado em induzir um pensamento sobre o seu tema do que provocar uma relação sentimental com este. E essa abordagem, arrisco dizer, acaba sendo muito mais efetiva e memorável do que qualquer “crítica” que o longa pudesse ter feito, justamente por ser tão afetivamente eficaz.


Ou seja, a maneira como nos relacionamos com o cenário da máfia da forma como Scarface o apresenta – e somos afetados por tal cenário, consequentemente – está plasmada na própria fisiologia do filme, fisiologia esta que explora profundamente o arcabouço estético que tem ao seu dispor. E isto, enfim, é apenas um relance da proficuidade estilística de Howard Hawks.


Nota do crítico:


Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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