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Os Incompreendidos - A ambiguidade do olhar de François Truffaut

Atualizado: 25 de jul. de 2022

Em um momento de efervescência cultural e política da juventude francesa, a câmera-caneta de Truffaut brilha pela dialética da relação íntima que o diretor mantém com o tema junto à neutralidade moral com a qual o aborda;



“Os Incompreendidos", de 1959, é um filme que se inicia em homenagem a André Bazin, fundador da revista Cahiers du Cinéma (onde François Truffaut, diretor do filme, trabalhou como crítico) e mentor dos jovens diretores da Nouvelle Vague, movimento moderno de renovação do cinema francês. Mais do que isso, Bazin foi uma verdadeira figura paterna para Truffaut, cuidando dele e de seus estudos por boa parte da vida. Conhecendo a relação pai e filho que os dois mantinham, é lindo ver um filme como este, que reverencia Bazin atendo-se às suas propostas estéticas enquanto teórico do cinema. Em um sentido, Os Incompreendidos remete ao verismo do Neorrealismo Italiano, movimento admirado por Bazin que buscava o hiper realismo cinematográfico. Porém, o que realmente cria uma poesia única na mise-en-scène de Truffaut não é puramente seu realismo, mas o embate interessantíssimo entre o que é filmado e mostrado de forma muito direta (tal qual os neorrealistas faziam) e os vestígios de uma forte expressão emocional do diretor (já que este é um filme com inspirações autobiográficas).


De fato, o que mais remete ao movimento moderno italiano é a forma como Truffaut lida com as situações dramáticas filmadas. Para explicar isso melhor, cito Bazin: “O neorrealismo, por definição, rejeita a análise, seja ela política, moral, psicológica, lógica ou social, dos personagens e de suas ações. Ele olha para a realidade como um todo, não incompreensível, certamente, mas indissociavelmente uno.” É essa a relação que Truffaut mantém com seu drama: o julgamento, a análise, estão fora de questão. Ainda que esteja expressando sentimentos sofridos de sua infância, o diretor jamais coloca Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), seu protagonista, como absoluta vítima de malfeitores (que poderiam ser, no caso, seus professores, diretor da escola ou seus pais). Cada personagem é contraditório e, por vezes, incompreensível (como é na vida real): é só pensarmos nas constantes mudanças de comportamento dos pais de Antoine ao longo do filme. Igualmente, a câmera e o corte são impassíveis diante dos acontecimentos, se atém justamente a mostrar. Na organização interna dos planos é que Truffaut irá construir o impacto de seu filme, bem aos moldes cinematográficos que André Bazin defendia.



Mas, apesar disso, Os Incompreendidos assemelha-se mais uma vez ao Neorrealismo em um ponto que pode soar contraditório: a denúncia social. Pois a verdade é que, apesar de a consideração de Bazin ser plenamente aceitável, ainda há — até mesmo pelo contexto da época — rastros de uma insatisfação social do Neorrealismo Italiano. Um pessimismo que surge de um país devastado e descrente, visto que o movimento se desenvolveu num momento de crise na Itália pós-Segunda Guerra. Trazendo essa insatisfação a um nível pessoal, a tocante beleza com que Truffaut conta a história de Antoine demonstra a incapacidade de uma sociedade tão ordenada e conservadora, como a França daquele período, compreender as crianças, os jovens, aqueles que vivem por e necessitam de liberdade. A repressão extrema, na realidade, afeta a todos, e a infelicidade no filme surge não por haverem pessoas “más”, mas sim porque todos estão acorrentados a uma estrutura social aprisionadora. Parece quase impossível que os adultos do filme tomassem outra decisão que não a repressiva, já que toda a conjuntura na qual estão inseridos age através da repressão.


Nesse sentido, alguns dos momentos mais tocantes são aqueles em que Truffaut contrapõe essa ordenação extrema com um vislumbre de liberdade — é em um momento em que Antoine mata a aula com o amigo René e vai ao cinema e ao parque de diversões, ou mesmo quando os dois decidem roubar a máquina de escrever do pai de Antoine, uma sequência que transmite tensão fortíssima e estimulante, tanto para nós como para os garotos. Isso é reforçado pela forma como Truffaut filma, dando-se a liberdade de deixar a montagem guiar parte da cena, como não havia feito até então. Ainda sem levarmos em conta a sequência final, que merece uma análise própria. Falarei sobre ela em breve.



O que acontece, então, é que Truffaut adota esse estilo que, por sua representação tão natural da vida em cena, permite amplamente a expressão interior do diretor numa espécie de recorte autobiográfico fílmico. É um dos exemplos mais potentes da capacidade ontológica da câmera¹ em que André Bazin tanto acreditava, onde o impacto maior surge ao mostrar a ação e não ao analisá-la. Essa abordagem brilhante acaba agregando vestígios românticos para o viés neorrealista. E em sua “neutralidade moral” quanto ao que filma, Truffaut consegue caminhar da denúncia social à reflexão íntima sobre liberdade (novamente orientando-se por uma linha entre a “percepção da realidade como um todo”, como disse Bazin, e a intimidade). Isso porque o filme não moraliza a busca por liberdade de Antoine. Ao mesmo tempo que parte desse desejo de se tornar livre em uma sociedade tão estritamente ordenada, a obra está consciente da necessidade de responsabilidade por parte do ser livre. É aí que podemos falar sobre a emocionante sequência final de Os Incompreendidos.


Os momentos finais deste primeiro longa de François Truffaut são um respiro (ou mais um grito) de liberdade. Após ser mandado para o reformatório, Antoine Doinel consegue escapar e pode enfim correr, solto, pelas matas e pela praia. Sentir o mar que tanto sonhava conhecer. Mas arrebatador mesmo é o zoom final da câmera no olhar perdido de Antoine após alcançar a tão sonhada liberdade: o garoto olha, sabe-se lá para onde, em um campo aberto mas, ao mesmo tempo, no qual há infinitas possibilidades. Para onde ir? O que pode Antoine fazer agora que está livre? O peso da liberdade é a responsabilidade: quando se é livre para tomar suas decisões, surge um perfeito equilíbrio entre o medo (de ter que agir e responder por si mesmo) e a alegria (por ter a possibilidade de agir). Portanto, o zoom que encerra o filme e congela a imagem de Antoine é a cereja do bolo, é o que mantém presente a ambiguidade que vinha guiando a narrativa de Truffaut até então. Ao fim, a neutralidade se mantém tão forte e expressiva como é ao longo de toda a 1h30min de Os Incompreendidos.

1 A capacidade ontológica da câmera, proposta por André Bazin em seus textos “Ontologia da Imagem Fotográfica” e “Mito do Cinema Total”, refere-se ao desígnio primordial do cinema, segundo Bazin, que seria a representação da realidade. Assim, a câmera fotográfica (especialmente a fílmica) surge como o meio definitivo para reprodução da realidade pelo ser humano. O cinema, então, por sua essência, é a única forma de arte munida de ferramentas para registrar os acontecimentos do mundo tal qual eles se desenrolam em seu espaço e tempo (ainda que de forma menos objetiva no caso desse segundo) concretos. Para Bazin, isso significava que o ápice da experiência cinematográfica estaria justamente em explorar tal capacidade, utilizando do realismo intrínseco ao cinema para criar poesia.


Lista de favoritos do redator

1. Amores Expressos | Wong Kar-wai, 1994

2. Gritos e Sussuros | Ingmar Bergman, 1972

3. Os Incompreendidos | Francois Truffaut, 1959

4. O Dragão de Maldade Contra o Santo Guerreiro | Glauber Rocha, 1969

5. Deus e o Diabo na Terra do Sol | Glauber Rocha, 1964

6. O Dinheiro | Robert Bresson, 1983

7. Carruagem Fantasma | Victor Sjostrom, 1921

8. Ladrões de Bicicleta | Vittorio De Sica, 1948

9. Cabra Marcado Para Morrer | Eduardo Coutinho, 1984

10. Touro Indomável | Martin Scorsese, 1980

11. Retrato de Uma Jovem em Chamas | Céline Sciamma, 2019

12. Ran | Akira Kurosawa, 1985

13. Limite | Mário Peixoto, 1931

14. A Vila | M. Night Shyamalan, 2004

15. As Duas Faces da Felicidade, 1965

16. Cidadão Kane | Orson Welles, 1941

17. Um Bonde Chamado Desejo | Elia Kazan, 1951

18. Um Homem Com Uma Câmera | Dziga Vertov, 1929

19. Anjos Caídos | Wong Kar-wai, 1995

20. Paixão dos Fortes | John Ford, 1946


Esse texto pertence ao nosso especial Favoritos da Cine-Stylo: Uma lista com os filmes prediletos de nossos redatores e 11 textos para discorrer um pouco dessa paixão. Acesse!



Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



1 comentário


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há 7 dias

Mình hay ngồi xem mấy con số cho vui, kiểu nhâm nhi ly trà rồi thử đoán xem có gì lặp lại không. Hồi đầu mình chỉ chăm chăm nhìn tần suất, nhưng theo lâu mới thấy không ghi lại thì dễ bị cảm giác “đang hên” làm mờ mắt. Có thời gian mình thử lọc theo Đầu đuôi XSMB để xem vài cặp có hay quay lại thật không, và thấy cũng mở ra thêm một góc nhìn, nhưng vẫn chỉ nên coi là tham khảo. Thường mình ghép thêm mấy dấu như cầu lô rơi, nhịp gan, rồi đối chiếu chu kỳ xuất hiện để tự kiểm tra lại cho chắc. Nói chung cứ xem như thống kê…

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