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O Pequeno Corpo (2023)

Utilizando-se de uma linguagem que remete ao documental, O Pequeno Corpo encontra o fantástico na força de seus símbolos



Em 1900, a tradição Católica dizia que crianças que morriam sem se batizar estavam condenadas eternamente ao Limbo, um lugar que ficava à margem da presença de Deus. Nesse contexto, O Pequeno Corpo nos apresenta Ágata, uma mãe que descobre logo após o parto que sua filha estava morta. Buscando aconselhamento no clero, ela percebe que não há mais esperança para sua criança, pois não recebera o batismo a tempo. Uma luz se acende, entretanto, quando ela tem conhecimento de uma lenda a respeito de uma igreja distante que ressuscita bebês por um breve instante, tempo o suficiente para garantir o batismo e, dessa forma, salvar a alma de sua filha.


Partindo dessa premissa, é interessante perceber a ambivalência que O Pequeno Corpo nos apresenta. Ao mesmo tempo em que temos um retrato histórico da Itália naquele período marcado pelos dogmas religiosos, temos também um desenho claro de uma possível jornada fantástica recheada de percalços e, talvez, milagres. Tendo isso muito claro desde a primeira cena, Laura Samani (diretora do longa) abraça fragmentos desses dois mundos e tem como resultado um filme bastante singular.



Desde a primeira cena, percebemos uma direção que emula certas vertentes do cinema documental. Quase como um registro jornalístico, a câmera na mão oscila com a falta de estabilidade e busca centralizar a protagonista no quadro, acompanhando toda a ação de perto. Os planos são longos e os cortes estão longe de qualquer estilização mais explícita. Mesmo o uso da luz é o mais naturalista possível, buscando muito mais uma beleza que já está lá - como diria o crítico e diretor francês Éric Rohmer - do que construí-la de forma mais artificial.


Com isso, o filme nos aproxima de toda a jornada de Ágata de forma muito realista, onde até mesmo a trilha musical é discreta e o foco sonoro está nos ruídos naturais e diálogos. É brilhante que, ao escolher essa abordagem, Laura consegue reforçar as dores da protagonista de uma forma muito sensível e que a posiciona em um momento no tempo específico, ao mesmo tempo em que traz uma carga que reflete diretamente no hoje. A própria combinação de câmera na mão somada à fotografia que ressalta a beleza do espaço natural consegue transmitir a ideia de uma incerteza - a fé cambaleante como a câmera - em um mundo maculado pela humanidade, mas belo em seu aspecto mais puro, natural. 


Como consequência, as escolhas formais do filme que o aproximam do documental não sacrificam o peso dramático da obra. Esse peso advém de uma representação que, ainda que realista, não abandona o aspecto fantástico que os símbolos trazem em si. Como resultado, o sangue nunca é apenas sangue, assim como leite não é apenas leite. Aos poucos, conforme Ágata se torna matéria-prima daquele mundo - ela cede partes de si a cada novo desafio -, o filme encarna um aspecto ritualístico e também sacrificial. O registro, ainda pautado no naturalismo, apresenta potência pela sua democratização das imagens - não há planos mais importantes que outros. Em certo sentido, é como se começássemos a enxergar a possibilidade de um milagre a partir do fluxo de eventos da mesma forma em que a protagonista busca uma justificação divina para tanto sofrimento.



É uma verdadeira viagem imersiva, um trabalho que naturaliza o fantástico na mesma medida em que dá forma aos sofrimentos inimagináveis de um período no tempo, mas que são reverberados até a contemporaneidade. A confrontação final do filme - a presença/ausência do divino em um mundo de injustiça e sofrimento - nos remete ao primoroso trabalho de Carl T. Dreyer em A Palavra, de forma a potencializar tudo que vinha sendo trabalhado até então, ou seja, o contraste - ou complementação - entre a representação naturalista e a captura do divino.


O Pequeno Corpo se revela um retrato sensível e pessoal de um tema universal, que encontra sua força na articulação inteligente entre o registro naturalista e a dramatização contida em sua força simbólica, belamente reforçados pela interpretação dada a Ágata pela excelente Celeste Cescutti, trazendo no próprio corpo a resignação, medo e fé que são, ao mesmo tempo, tão pessoais e universais.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria e Pandora Filmes.


O Pequeno Corpo chegará aos cinemas dia 16 de novembro.


 

Nota do crítico:


 

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