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"Ainda Orangotangos" e a cidade febril em carne viva

Sem a proteção de cortes, o real se torna uma permanência sufocante na qual resta apenas a exposição contínua dos corpos, do desejo e da violência


Crítica de Ainda Orangotangos de Gustavo Spolidoro

O longa Ainda Orangotangos (2007), de Gustavo Spolidoro, é a primeira produção brasileira inteiramente em plano-sequência. A câmera, que acompanha a vida de dezesseis pessoas cujos destinos se cruzam em um dia quente de verão em Porto Alegre, vai atravessando a cidade em diversos planos, tanto geográfica quanto social e psicologicamente, numa trama que mistura realidade e fantasia.


O formato em plano-sequência é o que pensa a trama, cria uma experiência real de tempo, evidenciando aquilo que geralmente se quer ocultar. Sem cortes, não há alívio nem reorganização do real. Tudo acontece sob a tirania do presente, com todos os seus tédios, imprevistos, erros, sem a proteção de intervalos. Cria-se, então, uma ética da permanência; em uma densidade quase ontológica, onde as figuras se expõem à sua própria precariedade.  Spolidoro lança luz sobre os personagens, retira-os do anonimato por alguns instantes e depois os devolve à mesma cidade que os atravessa e os dissolve.


Essa permanência contínua também faz do calor um elemento essencial. Ele se torna o propulsor das situações que o plano-sequência apresenta, e, assim, cria-se um sufocamento narrativo que encurrala os personagens e desorganiza a estabilidade mínima da vida cotidiana. O calor parece agir como uma força que desajusta e desgasta. Vemos isso, de forma mais clara, no irrompimento da violência a partir dos nervos expostos dos personagens, que parecem encurralados pela própria continuidade do tempo e espaço. O filme ganha a complexidade de um organismo em combustão. 


Crítica de Ainda Orangotangos de Gustavo Spolidoro

Nesse contexto, Porto Alegre se mostra como uma personagem coletiva, um corpo urbano que acolhe e repele, conecta e isola, produzindo intimidades sempre provisórias. A sucessão de personagens e situações constrói um conjunto de fricções, em que classe, intimidade, desejo, agressividade e deslocamento surgem como sintomas de uma vida urbana em desajuste. A cidade devolve aos personagens aquilo que eles tentam esconder de si mesmos. Há, nesse universo, uma imaginação da crueldade, da degradação e da animalidade, marcada por essas formas de estranhamento.


É nesse ponto que o elemento fantasioso que corta o filme ganha seu maior peso. Semelhante ao que faz Curzio Malaparte em seus relatos-ficção, a narrativa se quebra e abre espaço ao imaginativo. Quando ela surge, rompe a cronologia, suspende as normas da realidade e faz com que o real perca seu contorno estável. O filme abre passagem para outra ordem de experiência, em que o tempo obedece a estrutura do desejo, do medo e do delírio. O que emerge é uma verdade subterrânea do cotidiano, algo instintivo que escapa do controle racional e civilizatório. A narrativa se transforma em uma relação entre humano e animal, cidade e selva, num deslocamento efetivo da condição humana em estado de exposição. Sob pressão, os personagens revelam sua carne mais primária; o filme, ao insistir nessa permanência sem respiro, faz dela a matéria de sua forma.




Nota da crítica:


Crítica de Ainda Orangotangos de Gustavo Spolidoro


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