"Clamor do Sexo" e a impressão que é empurrada para dentro da tela
- Pedro Daher

- há 1 dia
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Retratando os anos 1920, com a cara do fim dos anos 1950, e lançado no início dos anos 1960, “Clamor do Sexo”, de Elia Kazan, transforma impressões em ações, com um quê de abstração

No cinema, há alguns casos em que o elenco eleva a potência da direção a patamares que, sozinha, ela não alcançaria. Dá para configurar essa frase como uma tendência para boa parte dos filmes de Elia Kazan, e Clamor do Sexo, de 1961, talvez seja o grande símbolo do que uma única atuação pode trazer a um filme em que todo o resto é contido, ou está em um tom bem abaixo.
A história se passa no Kansas, em 1928, e caminha entre a exposição da libido reprimida de uma época e a pressão moral que sufocava o primeiro sinal de desejo, transformando excitação em conformismo e tédio.
O protagonismo gira em torno de Bud Stamper (Warren Beatty) e Deanie Loomis (Natalie Wood). Ele é o popular capitão do time de futebol, que lida melhor com os sentimentos quando o saldo lhe é favorável. Ela é a aluna que todos, meninos e meninas, querem ser: sensível, dedicada aos estudos e com boas amizades, mas, acima de tudo, terrivelmente apaixonada. É a paixão que pulsa pelo fluxo do amor, e não só por um ideal ou pela figura de Bud.

Partindo dessa premissa, o filme proporciona ao público um verdadeiro passeio por emoções que, até então, chegavam reprimidas ou censuradas a nós, antes de alcançarem a forma de catarse. Há, aqui, o suprassumo da identidade dos anos 50 (mesmo que a história marcadamente se passe durante a Grande Depressão). A pose dos mocinhos é sempre de muito impulso e atitude, rebeldes sem causa, como James Dean. A exceção é justamente Bud, o herói de poucas expressões, com mais cara de assustado do que vítima de qualquer outro sintoma. Ele nos acompanha na história junto com Deanie, até tudo aquilo deixar de ser sobre ele, e passar a ser somente sobre ela.
É tão dolorosa a transformação de Wood nessa jovem idealista e apaixonada, que a força física e mental que a atriz faz para desempenhar sua profissão empurra a personagem, com mais firmeza, para dentro do filme, do que quase qualquer pessoa ousou empurrar ao longo do tempo. Logo, a subjetividade de um amor pouco comentado, mas muito sentido, entre ela e o bonitão sem reação vivido por Beatty começa a ganhar rascunhos de poesia que transborda na forma de cinema.
Pouco a pouco, as ações vão ficando cada vez mais impulsivas, e o elo de entendimento vai caindo para um nível abstrato. Mesmo naquela época, não parecia loucura. Parecia apenas… se perder em alguém e não conseguir mais se encontrar, com a mais absoluta certeza de que era o caminho desejado a ser seguido. Exige coragem para se entregar dessa forma, ainda mais quando a entrega é parcialmente correspondida, até a vida inverter todas as expectativas de novo.

O filme ainda conta com a atuação deslocada, clamando por atenção, mas ancorada na exclusão, e não na saturação dos sentidos, de Barbara Loden, como Ginny Stamper, irmã de Bud. Ela coloca muita vulnerabilidade em sua entrega, e é sufocante observar uma personagem real, querendo ser ouvida, como se a vida fosse um sopro, sumindo gradativamente até desaparecer de vez, se dissolvendo nos fios de interesse do enredo. É uma percepção curiosa, um reflexo do próprio reconhecimento que Loden buscou na indústria e só foi conseguir depois de não estar mais viva.
Por onde você olhe, seja na arte, na psicologia, ou na iconografia de uma época, Clamor do Sexo respira, até passar a gritar, em letras garrafais, uma procura pela liberdade, sexual e comportamental, que os anos 60 tanto prometiam, mas talvez ainda faltasse muito tempo para aprender a lidar com os efeitos da contracultura. De certa forma, os anos 20 retratados são um espelho dessa busca, ainda prematura, e, por isso, barrada no baile pela censura.
Nota da crítica:

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