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"Toute la mémoire du monde" entre memórias e mausoléus

Fugindo de um olhar simplista para uma das instituições mais importantes da Europa, Toute la mémoire du monde questiona os limites da memória e até onde podemos tocá-la


Crítica de Toute la mémoire du monde de Alain Resnais

Há um tipo de documentário que se consolidou popularmente como mais “educativo” ou mesmo “objetivo” — apesar desse último adjetivo ser um tanto absurdo. Estou falando, obviamente, dos documentários conhecidos como expositivos (segundo a classificação de Bill Nichols em seu livro Introdução ao documentário). Nesse formato, o tema observado é analisado quase como um cadáver: distante do mundo dos vivos, com explicações advindas de uma voz onipresente que nos conta cada detalhe, informação e dado considerado relevante para compreender o que é abordado. Pode conter ainda entrevistas e imagens de arquivo que reforçam a tese inicial, muitas vezes inofensiva, assim como um documentário sobre pinguins da Patagônia.


Acho importante frisar: eu não tenho nada contra documentários expositivos e acredito que eles tenham seu lugar no mundo. Entretanto, eu também não afirmaria que são os mais interessantes ou provocativos, especialmente pelo fato da experiência de tais filmes ser, muitas vezes, absolutamente contida e encerrada em sua própria existência, sem abertura para contradições que poderiam enriquecer tanto a experiência a ponto de fazer o filme persistir para além de sua duração.


Crítica de Toute la mémoire du monde de Alain Resnais

Faço essa longa abertura para dizer que Toute la mémoire du monde (1956, Alain Resnais) não é esse tipo de filme. Descrevendo com detalhes os processos de catalogação e armazenagem dos materiais presentes na Biblioteca Nacional da França, o filme até poderia ser confundido em alguma medida com o tipo de documentário que falei acima. Há, de fato, muita informação e aprendizagem direta, contando ainda com uma voz off e imagens que detalham os processos narrados. Entretanto, antes de ser documentarista, Alain Resnais é poeta.


A câmera não existe apenas para ilustrar uma informação narrada, mas para confrontá-la. Como alguém que conta uma história e resolve mostrar as provas fotográficas, mas tais provas levantam novas questões que até mesmo nos desviam do tema principal. Um exemplo direto do filme: ainda que a biblioteca lide como pequenos objetos — livros, revistas, jornais e afins —, o acúmulo de tais objetos leva a planos que transformam o espaço interior do prédio em uma espécie de cidade. Conjuntos de livros unidos e altos como prédios, maquinários que se movem de um lado ao outro como veículos, trabalhadores circulando pequeninos diante da imensidão do acúmulo ali presente. É tanta memória que causa ruído. E aí, enquanto o narrador nos diz como a biblioteca tem uma metodologia de organização muito rígida para garantir que nada se perca, a imagem entrega algo diferente: um amontoado quase intransponível de memória. A organização vira também obstáculo da compreensão.


Crítica de Toute la mémoire du monde de Alain Resnais

Por um lado, a memória enquanto matéria existe. Seja ela o texto arquivado, seja a própria imagem do filme. Por outro, o trabalho de Resnais pergunta: até quando conseguimos adentrar tal memória? Será que ela não se torna, a cada instante, mais superfície que informação compreensível? É como se a escala reduzisse a densidade de quais informações conseguem verdadeiramente importar e, em meio ao todo, conseguimos entender apenas um fragmento. Correndo o risco de soar anacrônico, mas qual a diferença real quando pensamos em toda a informação da internet (e que as IAs insistem em confundir)?


Há, evidentemente, um desejo humano que está além da memória pela memória, mas uma tentativa de sobreviver à própria morte. Nesse sentido, Resnais questiona: essa memória é algo que pode nos tocar de fato, ou é como um mausoléu a ser visitado e posteriormente esquecido? Talvez memória, morte e finitude andem de mãos dadas. E trazendo pro hoje, talvez a própria internet seja um mausoléu que ainda não se compreendeu. Coisas a se pensar.


Toute la mémoire du monde pode ser relembrado de graça no YouTube.



Nota da crítica:


Crítica de Toute la mémoire du monde de Alain Resnais


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