"Mirrors No.3" e o vazio como expressão
- Júlio Oliveira

- há 9 horas
- 3 min de leitura
Em Mirrors No.3, Petzold nos entrega uma experiência serena e intimista, em que o drama nasce muito mais do acúmulo de vazios da vida do que de um momento apoteótico

O corpo humano tem um lugar de destaque no cinema. É nele que predomina o movimento, o erotismo, o terror e a emoção em sua forma mais legível. Porém, há todo um espaço entre os corpos que também tem grande força expressiva. Em O Cinema ou o Homem Imaginário, Edgar Morin cunha a ideia de antropo-cosmomorfismo. De forma muito direta, é a ideia de que projetamos nossa própria subjetividade no cosmos. Portanto, mesmo quando um filme não apresenta corpos humanos no plano, ele não deixa de comunicar emoções, sentimentos e ideias.
É nesse espaço que existe entre corpos e olhares que Mirrors No.3 (Christian Petzold) opera. Após sobreviver a um trágico acidente, Laura (Paula Beer) é acolhida por Betty (Barbara Auer). As duas mulheres carregam traumas e demônios próprios, interagindo entre si muito mais através de uma dinâmica de olhares e silêncios do que de palavras. Com poucas falas ao longo do filme, Petzold extrai emoção, sim, dos gestos sutis e olhares de seu elenco, mas sua força motriz reside no espaço vazio, incompleto.
Seja num quarto, numa sala ou mesmo numa varandinha, existe essa forma de desolação do espaço doméstico. Objetos quebrados, um aspecto de abandono ou mesmo uma cadeira vazia. Quando os corpos se apresentam, quase sempre carregam uma ausência, ausência essa que também não é verbalizada. Na verdade, a obra segue a lógica de um diálogo interrompido. Os planos são econômicos no tempo e repetidas vezes se encerram antes do ápice da emoção ser atingida. Elipses se transformam em ferramenta de expressão e mesmo a história — em seu sentido mais tradicional — parece sempre se esquivar de uma grande virada ou revelação.

Até por isso, Petzold foge de uma construção de expectativa. Mesmo pensando na fotografia adotada, há sempre muita clareza na imagem e o plano não esconde nada por si só. Tanto que, ainda que tenha um espírito hitchcockiano (toda essa ideia de projetar a identidade de uma pessoa amada numa terceira), o filme passa longe de explorar os mesmos espectros emocionais. O vazio e mistério — se é que podemos chamar disso — são muito mais um estado ou lugar do que algo a ser resolvido. Ao invés de um quebra-cabeças narrativo, Petzold traz muito mais uma caminhada por espelhos d’água: turvos, vivos e incapazes de enxergar a realidade em sua plenitude.
Como consequência, mesmo os conflitos propostos pelo longa nascem menos de uma manipulação da imagem — o uso das roupas, a adoção do lugar na mesa, o amor pelo piano — e mais de uma tentativa de voltar a enxergar a imagem de outrora. E até por isso, em seus planos que recusam o ápice da emoção, o filme ganha essa forma democrática, em que mesmo o não mostrado importa tanto quanto o revelado, assim como a palavra expressa tanto quanto o silêncio.

É interessante que, se olharmos do ponto de vista puramente narrativo, o filme poderia muito bem ser um suspense ou ainda uma obra de fantasma. Mas a câmera de Petzold tem essa calma que, mesmo diante do trauma, oferece um sentimento bucólico ou até nostálgico. Quando voltamos aos espaços vazios, há traços de vida ali. Quando algo se quebra, o conserto é necessário. No encontro dessas pessoas com esses espaços, a lógica segue a mesma: a atenção e o carinho do olhar acabam sendo verdadeiras forças de transformação.
Desse olhar carinhoso, nascem momentos de puro encanto, como quando a luz que atravessa o vidro do carro reflete no rosto de Betty e forma um pequeno arco-íris. Petzold não transforma esses momentos de beleza em eventos grandiosos ou mesmo chamativos. Eles estão lá ao lado dos pratos, da sujeira, da lágrima, do conflito.
Mirrors No.3 é mais um daqueles pequenos grandes filmes. Apesar de sua metragem abaixo dos noventa minutos, a obra consegue captar a totalidade da vida a partir de um olhar honesto, sensível e calmo. O drama existe no filme de Petzold, mas ele é mais parte inalterável da existência humana do que um evento espetacular. E, até por isso, Mirrors No.3 consegue impactar de forma tão especial.
Mirrors No.3 está disponível nos cinemas de todo Brasil a partir do dia 20 de agosto. Filme assistido antecipadamente a convite da Imovision.
Nota da crítica:

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