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“Obsessão” e a inércia cruel do cara legal

Crítica de Obsessão de Curry Baker com Inde Navarrette

O ano de 2026 está sendo o ano dos youtubers no terror: Backrooms: Um Não-Lugar, de Kane Parsons; Iron Lung de Markiplier e Obsessão, de Curry Barker, demonstram a força dessa tendência. No caso de Barker, seu primeiro filme com distribuição nas salas de cinema já arrecadou, nas três primeiras semanas, cerca de 150 milhões de dólares, um sucesso estrondoso, considerando o orçamento de 750 mil.


Esse sucesso reverbera nas redes sociais, onde são geradas teorias e finais explicados, é debatida a temida “estética A24”, o “pós-horror” e os filmes que na verdade são sobre trauma. De certa forma, todo horror é sobre trauma, é um gênero que reflete as ansiedades de seu tempo pelo medo. Porém, é interessante que a metáfora não sequestre ou submeta puramente à experiência de sentir medo. Em Obsessão, há claramente uma crítica social, mas ela não se subjuga à tensão, ao desconforto e ao susto.


Crítica de Obsessão de Curry Baker com Inde Navarrette

Baron (ou “Bear”) está secretamente apaixonado por sua amiga de infância, Nikki. Ele é, desde o início, inseguro e evasivo. Ele ensaia uma declaração de amor, pede conselhos e faz planos - um tanto hesitantes - de confessar seus sentimentos. Ao entrar numa loja de produtos esotéricos, ele encontra um brinquedo, um gravetinho chamado “One Wish Willow”, que supostamente realiza qualquer desejo ao ser quebrado, limitado, porém, a apenas um desejo. Depois de ser incapaz de dizer a Nikki como se sente, mesmo quando ela pergunta diretamente se ele gosta dela, Bear quebra o graveto e deseja que ela a ame mais que qualquer outra coisa no mundo.


A partir do momento em que ele quebra o graveto, ela começa a agir diferente. Barker e seu elenco conseguem estabelecer bem a dinâmica do grupo. Não há um grande aprofundamento, mas a caracterização é suficiente para que se tenha um contraste. O estranhamento gradual dos personagens em relação às bizarrices que se seguem ajuda na construção da tensão. O filme deixa clara a ligação sobrenatural entre o desejo e o comportamento crescentemente maluco da Nikki, por mais que demore para Bear chegar a essa conclusão. Além das mudanças na atuação de Inde Navarrete, que abraça o cartunesco de uma forma muito desconfortável, a partir do momento em que é feito o desejo, ela aparece envolta em sombras, com olhos vidrados e brilhantes. A baixa visibilidade passa uma impressão quase predatória e contribui muito para a sensação de estranheza que envolve até os momentos mais cômicos. Eles então começam um relacionamento e Nikki se torna cada vez mais dependente e obcecada, apesar de pontuais rompantes histéricos, aludindo à possibilidade da verdadeira Nikki estar em algum lugar ali. 


Vi algumas comparações a filmes de “mulheres malucas que destroem a vida do homem comum” dos anos 80 e 90, vide Glenn Close em Atração Fatal (1987) e Sharon Stone em Instinto Selvagem (1992), mas enquanto esses filmes têm a mulher como a maníaca e vilanesca agente do caos (refletindo talvez uma ansiedade masculina do período em relação à independência feminina), em Obsessão, a Nikki é a vítima da covardia de um cara legal. As menções en passant ao passado, à personalidade e à família dela, assim como o pouco que ela aparece pré-possessão já demonstram o suficiente da personagem para gerar um contraste evidente, e cada nova decisão de seguir com o namoro intensifica essa vitimização.


Crítica de Obsessão de Curry Baker com Inde Navarrette

A maior força do filme, portanto, não está na dúvida se a obsessão é mágica ou se vem de um transtorno psicológico, mas no perene desconforto, do espectador e do protagonista, gerado pela certeza de que algo está muito errado, enquanto o personagem insiste em manter a fantasia da relação que ele tanto ansiava. A narrativa se apoia no ponto de vista de um cara que mesmo atormentado por sua consciência, opta pela ilusão de que, de alguma forma, a mulher que ele ama está feliz ao seu lado. E ele também não está feliz de fato, afinal, ao fazer o desejo, ele mudou fundamentalmente quem ela é. A namorada dos sonhos perde tudo aquilo que a faz interessante, restando a ele resignar-se ao autoengano. A câmera se demora nos rostos e não se desvia das situações desconfortáveis, marinando nesse sentimento subjacente de negação e na covardia. Embora falte certa polidez, o diretor constrói a tensão, tanto das situações assustadoras quanto das cômicas, muito por meio da frontalidade. A relação entre terror e comédia é bem amarrada, são criadas situações simultaneamente desconcertantes e engraçadas, com um senso de humor baseado numa certa dialética entre o corriqueiro e o absurdo. 


É uma história centrada nas consequências da covardia, a despeito de suas causas. No fim, o protagonista até ensaia uma redenção, mas ela demanda responsabilização e sacrifício, coisas que nosso herói comprova ao longo da jornada que não é capaz de canalizar. O desejo platônico não se sustenta na realidade porque ela impõe: cedo ou tarde, o confronto com a humanidade do outro e com a sua própria. O sufocamento, portanto, dessa humanidade, deixa pra trás só destruição. 



Nota da crítica:


Crítica de Obsessão de Curry Baker com Inde Navarrette


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