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"Euphoria" o fim de uma série que marcou uma geração

Do êxtase da juventude ao fracasso da redenção


Crítica da terceira temporada de Euphoria com Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e Hunter Schafer

Entre maquiagens coloridas, glitter e uma fotografia lúdica, Euphoria se tornou um ícone desde sua criação em 2019, por Sam Levinson e pela não-creditada, Petra Collins. Representando toda uma geração, Euphoria trouxe à tona a necessidade de diferentes formas de escapismos: drogas, vícios, festas, redes sociais e relacionamentos tóxicos, frente a uma sociedade repleta de caos e vazios existenciais. A terceira temporada, por sua vez, abandona parcialmente os neons das temporadas anteriores e passa a utilizar uma fotografia e roteiro mais sóbrio, acompanhando a deterioração emocional dos personagens.


Crítica da terceira temporada de Euphoria com Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e Hunter Schafer
Trecho do Episódio 01, 2a Temporada,  “Tentando Chegar ao Céu Antes que Fechem a Porta” (Levinson, 2022)

Em sete anos de série (2019-2026), o público acompanhou o desenvolvimento dos personagens, principalmente o da personagem-narradora Rue Bennett, uma jovem que lida com a dependência química, interpretada por Zendaya.  Nesta última e terceira temporada, finalizada em 31 de maio, em contrapartida, passamos a acompanhar a jornada de Rue em busca de uma redenção, tanto pelo tema da religião quanto pela tentativa de uma mudança de vida por parte da personagem.


O destaque da temporada se dá pela relação entre Rue e o personagem Ali Muhammad (Colman Domingo). Atravessando diversas perdas, Muhammad projeta em Bennett a possibilidade de reparar fracassos que marcaram seu próprio passado, enxergando na recuperação de Rue uma forma de atribuir sentido às próprias feridas.


Em uma sequência de planos, acompanhamos Ali pela dura realidade de acompanhar pessoas com vícios e suas dificuldades de sair desse ambiente. No último episódio, o impacto da série entrega uma realidade mais dura ao espectador quando Rue - mesmo que sóbria por alguns meses - acaba se tornando mais uma vítima do fentanil após ser enganada por Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje). Desta forma, a série desloca seu foco da representação do êxtase superficial para reflexões cada vez mais sombrias sobre vida, morte e fracasso. 


Crítica da terceira temporada de Euphoria com Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e Hunter Schafer
   Trecho do Episódio 06, 3a Temporada,  “Espera para ver” (Levinson, 2026)

Embora a trajetória de Rue permaneça no centro emocional da narrativa, a temporada utiliza os demais personagens para aprofundar sua reflexão sobre a redenção, explorando diferentes formas de reconstrução pessoal na entrada da vida adulta. Entre novas formas de desejo, intimidade e pertencimento, a série evidencia como seus personagens permanecem presos a ciclos emocionais difíceis de serem rompidos. Assim, mesmo diante da promessa de mudança e amadurecimento, acabam por reproduzir as mesmas armadilhas afetivas que os assombravam anteriormente, ainda que agora manifestadas sob formatos mais complexos. 


Euphoria parece operar entre a vida e a morte e entre a esperança e a autodestruição, encerrando sua trajetória com uma redenção marcada pelos vazios que impulsionam cada um de seus personagens desde o início da série. As trajetórias de Jules, Cassie, Lexi e Maddy reforçam a percepção de que a maturidade prometida pela temporada não corresponde necessariamente a uma superação dos conflitos anteriores. Em vez disso, cada personagem reencontra velhos padrões sob novas configurações sociais, afetivas e profissionais.


Jules Vaughn (Hunter Schafer), por exemplo, se apresenta como uma artista dependente do relacionamento com um homem mais velho, que fornece moradia e estabilidade financeira para desenvolvimento de sua carreira.  Cassie Howard (Sydney Sweeney), agora influencer de conteúdos adultos, em busca da fama, além de se casar com Nate Jacobs (Jacob Elordi) — que sofre uma das mortes mais angustiantes da temporada. Lex Howard, por outro lado,  vê seu trabalho como prioridade e busca seu crescimento profissional, assim como Maddy Perez (Alexa Demie), que acaba se envolvendo com o dono da boate de striptease — Alamo Brown. 


Inclusive, no episódio 06 da terceira temporada —“Espera para ver” — por intermédio do personagem Alamo, somos apresentados não somente à sua história pessoal de reproduções misóginas, mas também a uma das metáforas que acompanha a temporada como um todo:  a história por trás da cobra Píton de Alamo, revelada pelo personagem de Bispo (Darrell Hadari Britt-Gibson). 


“(...) A dona desta cobra era a Sweet, uma dançarina (...). À noite, ela levava a cobra para casa e a deixava se enrolar nela na cama e dormia. Ela amava essa cobra. Só que um dia a cobra parou de comer (...), até que a Sweet a levou ao veterinário. Ela disse: “ela deve estar doente, sei lá”. O veterinário negou com a cabeça e disse: “Senhorita, essa píton está com saúde perfeita (...) essa cobra está se enrolando em você à noite porque está medindo o seu tamanho. E ela não está mais comendo, porque está se preparando para uma refeição muito maior.”


Crítica da terceira temporada de Euphoria com Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e Hunter Schafer
Trecho do Episódio 06, 3a Temporada,  “Espera para ver” (Levinson, 2026)

Assim como a píton que se prepara silenciosamente para devorar sua dona, os personagens de Euphoria permanecem aprisionados a impulsos e desejos que, sob a promessa de prazer, afeto ou pertencimento, os conduzem gradualmente à autodestruição. A imagem funciona como síntese da própria lógica dramática da série: a impossibilidade de escapar de ciclos emocionais que insistem em se repetir, ainda que assumam novas formas ao longo do tempo. 


Nesse sentido, apesar das polêmicas e das críticas que marcaram seu encerramento, revisitar a trajetória da série permite perceber um retrato geracional sobre excessos, dependência e busca por uma identidade transformando-se, em seu capítulo final, em uma reflexão mais amarga sobre os limites da redenção pessoal. Ao acompanhar personagens que tentam atribuir sentido às próprias feridas, Euphoria sugere que a redenção raramente se apresenta como uma ruptura definitiva com o passado, mas sim como um processo incompleto, permeado por fracassos. Dessa forma, a terceira temporada encontra sua força menos nas respostas que oferece do que na maneira como transforma seus personagens em retratos de uma geração incapaz de escapar completamente das próprias feridas. Se as primeiras temporadas celebravam o excesso como forma de escapismo, o capítulo final de Euphoria revela o preço desse impulso, encerrando sua trajetória como uma reflexão melancólica sobre os limites da mudança e da própria redenção.



Nota da crítica:


Crítica da terceira temporada de Euphoria com Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e Hunter Schafer


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Crítica da terceira temporada de Euphoria com Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e Hunter Schafer




1 comentário


Teresa Cristina Martins
há um dia

Achei essa análise sensacional. A meu ver o final, no entanto, vai para um extremo oposto, quando Ali reencontra a família que Rue havia conhecido que vive isolada e reclusa sob mandados religiosos.

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