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"Máquina de Guerra" é mais um sintoma do que o cinema pode vir a ser — e é preocupante

Despido de qualquer característica redentora, o filme estrelado por Alan Ritchson é incapaz de expressar qualquer coisa que seja


Crítica de Máquina de Guerra de Patrick Hughes com Alan Ritchson

Cinema e propaganda nunca estiveram separados. Desde os primórdios da sétima arte, os filmes traziam elementos que exaltavam ou rejeitavam certas formas de viver e existir em sociedade. Em períodos de guerra, idem. Havia sempre a definição de um inimigo, assim como a exaltação de valores nacionais. Isso ocorre até hoje, claro, em toda forma de linguagem artística, mas a natureza industrial e global do cinema fez com que seu aspecto propagandístico alcançasse distâncias antes inimagináveis.


Digo tudo isso não para atacar a ideia de propaganda. Não é como se fosse um elemento intrinsecamente negativo, ele simplesmente existe e é o que é em decorrência de toda a jornada histórica da humanidade. A grande questão é que é possível fazer peças de propaganda artisticamente relevantes. Nós vimos isso ao longo de toda história, como os filmes soviéticos que basicamente reinventaram a montagem — A Greve, de Sergei Eisenstein, sendo um ótimo exemplo —, os filmes de guerra americanos e até mesmo as obras moralmente terríveis da Alemanha nazista — aqui me refiro aos trabalhos da diretora Leni Riefenstahl — , que tem um conteúdo repugnante, mas apresentam apuro estético que traz inovação à linguagem.


Crítica de Máquina de Guerra de Patrick Hughes com Alan Ritchson

Todo esse preâmbulo vem para deixar em evidência o seguinte: o fator propaganda não é o verdadeiro problema de Máquina de Guerra (Patrick Hughes, 2026). É claro que pode haver irritação ao nos vermos diante de mais um filme dos Estados Unidos que trata a máquina de guerra real — a do Estado americano — como uma espécie de “polícia do mundo”, numa constante exaltação do trabalho dos militares e justificação de toda violência. Ainda assim, acredito que mesmo um filme que eu considere imoral pode ser, no fim do dia, um bom filme. O pecado real da obra estrelada pelo gigantesco Alan Ritchson reside na falta de qualquer fator humano no tratamento de suas imagens. Nesse sentido, acredito que o nome máquina é até adequado.


No filme, um engenheiro militar traumatizado após a morte do irmão decide se unir a um grupo de elite — os rangers. O que ele não esperava é que a prova final incluísse um convidado de outro mundo. A descrição, mais espirituosa que o filme inteiro, consegue encapsular a jornada emocional da obra — ou pelo menos sua intenção). O que temos, na prática, é um trabalho industrial de praticidade e soluções rápidas. Nisso, eu me refiro a como todos os elementos constitutivos de um filme aqui se convertem a mero exercício de engenharia. O resultado? Um filme que alcança uma eficiência sem qualquer coração artístico.


O exemplo mais escancarado está na sua estrutura. O filme se apressa bastante a revelar os vínculos dos personagens — aqui, não há qualquer espaço para dúvida ou ambiguidade —, com declarações explícitas do que são e do que fazem. Antes que qualquer imagem possa se gravar na mente, temos então a grande tragédia e, antes do luto ser sentido, já avançamos para a segunda parte da obra. A história parece mais um checklist do que uma narrativa propriamente. Precisamos de um vínculo emocional? Temos. Precisamos de um soldado traumatizado? Temos. Precisamos de uma turma levemente desajustada? Temos.


Crítica de Máquina de Guerra de Patrick Hughes com Alan Ritchson

O filme rejeita qualquer aprofundamento das relações dos personagens e de seus desafios. Mesmo assim, ainda duvida da inteligência do espectador, recorrendo a flashbacks expositivos ao extremo e mal filmados. Acaba que todo desleixo do texto — ou sua completa falta de interesse próprio — se reflete em toda a obra. A iluminação, por exemplo, não tem qualquer nuance, apelando para a maneira mais esdrúxula de iluminar “tudo que pode”, recusando qualquer expressividade do ambiente que circunda os personagens. Madrugada, entardecer e noite pouco se diferenciam, pois todos são feitos com a mesma ideia em mente: eficiência e velocidade. O filme que “cumpre sua função”, mas esquece de ser filme.


E isso se repete em qualquer outro elemento que se pense, como a montagem, absolutamente errática, além do uso completamente bobo de planos longos que não comunicam nada, mas só garantem aquele “momento épico” que todo filme da Netflix parece pedir. Novamente, é mais máquina que um trabalho humano. O resultado disso tudo é pior que a previsibilidade, mas a desesperança: é isso que estão fazendo com todo recurso do mundo. Afinal, os filmes precisam ser feitos com agilidade, precisam estrear em primeiro lugar, precisam disputar a atenção com o celular e precisam estabelecer uma franquia.


Eu queria que eles pudessem ser filmes.



Nota da crítica:


Crítica de Máquina de Guerra de Patrick Hughes com Alan Ritchson


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