"Máquina de Guerra" é mais um sintoma do que o cinema pode vir a ser — e é preocupante
- Júlio Oliveira

- 22 de mar.
- 3 min de leitura
Despido de qualquer característica redentora, o filme estrelado por Alan Ritchson é incapaz de expressar qualquer coisa que seja

Cinema e propaganda nunca estiveram separados. Desde os primórdios da sétima arte, os filmes traziam elementos que exaltavam ou rejeitavam certas formas de viver e existir em sociedade. Em períodos de guerra, idem. Havia sempre a definição de um inimigo, assim como a exaltação de valores nacionais. Isso ocorre até hoje, claro, em toda forma de linguagem artística, mas a natureza industrial e global do cinema fez com que seu aspecto propagandístico alcançasse distâncias antes inimagináveis.
Digo tudo isso não para atacar a ideia de propaganda. Não é como se fosse um elemento intrinsecamente negativo, ele simplesmente existe e é o que é em decorrência de toda a jornada histórica da humanidade. A grande questão é que é possível fazer peças de propaganda artisticamente relevantes. Nós vimos isso ao longo de toda história, como os filmes soviéticos que basicamente reinventaram a montagem — A Greve, de Sergei Eisenstein, sendo um ótimo exemplo —, os filmes de guerra americanos e até mesmo as obras moralmente terríveis da Alemanha nazista — aqui me refiro aos trabalhos da diretora Leni Riefenstahl — , que tem um conteúdo repugnante, mas apresentam apuro estético que traz inovação à linguagem.

Todo esse preâmbulo vem para deixar em evidência o seguinte: o fator propaganda não é o verdadeiro problema de Máquina de Guerra (Patrick Hughes, 2026). É claro que pode haver irritação ao nos vermos diante de mais um filme dos Estados Unidos que trata a máquina de guerra real — a do Estado americano — como uma espécie de “polícia do mundo”, numa constante exaltação do trabalho dos militares e justificação de toda violência. Ainda assim, acredito que mesmo um filme que eu considere imoral pode ser, no fim do dia, um bom filme. O pecado real da obra estrelada pelo gigantesco Alan Ritchson reside na falta de qualquer fator humano no tratamento de suas imagens. Nesse sentido, acredito que o nome máquina é até adequado.
No filme, um engenheiro militar traumatizado após a morte do irmão decide se unir a um grupo de elite — os rangers. O que ele não esperava é que a prova final incluísse um convidado de outro mundo. A descrição, mais espirituosa que o filme inteiro, consegue encapsular a jornada emocional da obra — ou pelo menos sua intenção). O que temos, na prática, é um trabalho industrial de praticidade e soluções rápidas. Nisso, eu me refiro a como todos os elementos constitutivos de um filme aqui se convertem a mero exercício de engenharia. O resultado? Um filme que alcança uma eficiência sem qualquer coração artístico.
O exemplo mais escancarado está na sua estrutura. O filme se apressa bastante a revelar os vínculos dos personagens — aqui, não há qualquer espaço para dúvida ou ambiguidade —, com declarações explícitas do que são e do que fazem. Antes que qualquer imagem possa se gravar na mente, temos então a grande tragédia e, antes do luto ser sentido, já avançamos para a segunda parte da obra. A história parece mais um checklist do que uma narrativa propriamente. Precisamos de um vínculo emocional? Temos. Precisamos de um soldado traumatizado? Temos. Precisamos de uma turma levemente desajustada? Temos.

O filme rejeita qualquer aprofundamento das relações dos personagens e de seus desafios. Mesmo assim, ainda duvida da inteligência do espectador, recorrendo a flashbacks expositivos ao extremo e mal filmados. Acaba que todo desleixo do texto — ou sua completa falta de interesse próprio — se reflete em toda a obra. A iluminação, por exemplo, não tem qualquer nuance, apelando para a maneira mais esdrúxula de iluminar “tudo que pode”, recusando qualquer expressividade do ambiente que circunda os personagens. Madrugada, entardecer e noite pouco se diferenciam, pois todos são feitos com a mesma ideia em mente: eficiência e velocidade. O filme que “cumpre sua função”, mas esquece de ser filme.
E isso se repete em qualquer outro elemento que se pense, como a montagem, absolutamente errática, além do uso completamente bobo de planos longos que não comunicam nada, mas só garantem aquele “momento épico” que todo filme da Netflix parece pedir. Novamente, é mais máquina que um trabalho humano. O resultado disso tudo é pior que a previsibilidade, mas a desesperança: é isso que estão fazendo com todo recurso do mundo. Afinal, os filmes precisam ser feitos com agilidade, precisam estrear em primeiro lugar, precisam disputar a atenção com o celular e precisam estabelecer uma franquia.
Eu queria que eles pudessem ser filmes.
Nota da crítica:

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