"Devoradores de Estrelas": Existe vida na Terra em 2026?
- Júlio Oliveira

- há 3 dias
- 5 min de leitura
Entre o toque e a separação, Devoradores de Estrelas ressignifica o espaço enquanto experiência de encontro

Pode soar esquisito, mas Devoradores de Estrelas traz uma narrativa apocalíptica que é reconfortante. Em um mundo cada vez mais fragmentado e dividido — e aqui eu falo do nosso mundo, não do filme —, a desesperança parece uma constante. Mesmo antes da pandemia, o movimento de segregação social já era perceptível. Aqui, vou além dos graves movimentos políticos que todos nós conhecemos; adiciono, porém, como a tecnologia tornou-se parte dessa problemática. Cada vez mais, os relacionamentos — sejam eles profissionais ou afetivos — são intermediados por telas, distantes, impossíveis ao toque. O contato com a natureza seguiu o mesmo movimento: cidades enormes, ruídos e poluição, mas pouco verde. Tomar sol virou uma dessas obviedades que precisam ser repetidas, tamanho é o domo no qual nos escondemos.
Óbvio que esse movimento técnico-social também trouxe novas possibilidades, inclusive muito positivas. Este que vos fala conheceu sua esposa no finado Twitter. Mas acredito que há uma barreira cada vez mais intransponível que nos faz caminhar para o Apocalipse; talvez não nuclear, mas social. Um mundo em que as relações são quantificadas, calculadas e, principalmente, distanciadas. Mas afinal, o que diabos tudo isso tem a ver com o mais novo sucesso de ficção científica, o filme Devoradores de Estrelas? Eu vou chegar lá.
Na obra dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, acompanhamos o cientista Rayland Grace (Ryan Gosling), que desperta em meio a uma viagem espacial sem nem mesmo lembrar o que está fazendo ali. Distante da própria humanidade — e tentando redescobrir sua identidade —, ele terá que se virar com os poucos recursos que tem para cumprir sua missão e, quem sabe, sobreviver. O filme traz ares aventurescos, contando com um bom humor constante e um movimento que vai da ação ao drama que nos remete às boas aventuras de diretores renomados como Steven Spielberg. Em certo sentido, funciona como um blockbuster que bebe bastante de uma lógica oitentista, em que as emoções são extravasadas desde a persona central — aqui, Ryan Gosling em um trabalho inspirado — até pelos recursos não diegéticos, como a trilha musical.

Só nessa postura, o filme já se afasta de trabalhos mais cínicos, assim como também está distante dos mais sisudos — aqui me refiro especificamente a Interestelar, de Christopher Nolan. Tudo é tratado com muita leveza, ao mesmo tempo em que o filme sempre reforça o risco da missão e seu objetivo, com suas idas e vindas no tempo que vão construindo um quebra-cabeças que não é complexo, mas que funciona como eixo emocional — e também moral — da obra. Rayland não existe numa simples progressão de caráter e ações, mas enfrenta quem ele foi e segue sendo em algum nível, o que intensifica o peso de suas novas decisões no presente momento da narrativa.
O que chama mais a atenção, entretanto, é como o filme consegue desenvolver uma dinâmica ímpar que separa a solidão de Rayland de seus contatos com outros humanos — ou seres vivos em geral. Há quase sempre elementos que se interpõem entre os corpos. Seja uma caixa de vidro, uma tela de computador, ou mesmo uma nave inteira, a comunicação quase nunca é direta. Mesmo a fotografia de Greig Fraser reforça os elementos que interrompem o contato direto do olhar entre diferentes corpos. Isso também se destaca no uso quase constante da baixa profundidade de campo. Vemos os personagens, mas eles quase flutuam nesse espaço bagunçado — seja o da nave ou da base científica. Os poucos momentos em que a comunicação é direta, sem barreiras físicas, é quando Rayland parece mais a vontade, ainda que sua timidez pareça indicar o contrário.

Ainda assim, algo interessante acontece quando Rayland se depara com um novo companheiro na nave: a separação física passa a ser questão de sobrevivência, não de violência. E aqui, a fotografia ressalta com ainda mais clareza o reflexo de Rayland no momento em que ele olha para o outro. Isso obviamente anda em consonância com o eixo central de empatia e amizade do filme, mas me parece muito interessante como a obra assume uma tema visual propriamente, essa interrupção do fluxo completo de olhares que, ainda assim, pode ser transformado em algo positivo. Nesse momento, o aparato tecnológico deixa de ser opressor. Se até então a própria nave — instrumento de sobrevivência e da própria missão — soava como uma prisão, a partir do estabelecimento da nova relação, o aparato tecnológico se torna ponte para uma renovação em vida.
Aqui, acho interessante destacar as próprias características do novo amigo de Rayland: com aspecto rochoso, ele não tem olhos ou face visíveis. É como encarar um nada sem emoção e, ainda assim, o filme consegue usar do próprio absurdo da situação como força motriz de um relacionamento ingênuo e honesto em todos os sentidos. Mais uma vez, retorno a Spielberg — aqui me referindo especificamente ao filme E.T: O Extraterrestre — pelo fato de Devoradores de Estrelas abraçar uma inocência e simplicidade nas relações que não foge da realidade, mas a intensifica a partir daquilo que está posto em cena.
A partir disso, todo aparato da nave é reconfigurado e mesmo a ideia de uma redoma tecnológica passa a ser instrumento de uma dinâmica de aprofundamento das relações e de alegria. O instrumento, afinal, talvez não seja intrinsecamente ruim. E disso, todas as aventuras fora da nave acabam trazendo essa abordagem mais viva — seja nas cores, seja na alta profundidade de campo, seja na própria dinâmica narrativa — e menos mecânica. Torna-se mais um relacionamento com a própria humanidade — inclusive quando ela não é necessariamente um ser humano — do que uma missão em seu senso militar, heróico.

E é interessante como o filme se mantém fiel a isso, mostrando um desenvolvimento que é mais subjetivo que espacial, onde a percepção de estar muda a partir dos próprios olhos de quem enxerga. Os empecilhos do contato, a bagunça, o tecnicismo, tudo segue ali. Mas com um novo relacionamento em jogo, mesmo essas coisas estranhas podem se tornar parte de algo maior. A redoma pode, em algum nível, potencializar a experiência da própria realidade, o que parece paradoxal e, até por isso, é tão bonito.
Ainda que Devoradores de Estrelas não me pareça um espetáculo visual completo, ele se apresenta como uma obra que pulsa vitalidade em um momento de automatismo e desesperança no mundo. Não é uma obra perfeita e mesmo conta com certos vícios contemporâneos, o mais chamativo sendo a montagem acelerada — principalmente na primeira metade — que quase nos impede de apreciar o que há em cena. Entretanto, a obra abraça sua premissa com força, nunca largando e confiando plenamente em suas peças, especialmente em Ryan Gosling como esse personagem trágico, divertido e, apesar de tudo, cheio de vida e esperança. É um desses filmes grandes — em orçamento, tema e alcance — que nos trazem a totalidade da vida a partir de um fragmento. Bonito mesmo em suas imperfeições e algo que espero ver mais vezes quando pensamos em blockbusters.
Devoradores de Estrelas está disponível nos cinemas de todo o país.
Nota da crítica:

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