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“Imperfeitamente Perfeita” e a inflação narrativa como fonte de sensibilidade

Filme de James L. Brooks usa sua protagonista, Ella, como ponto de convergência entre sua própria voz e a expressão das outras personagens


Crítica de Imperfeitamente Perfeita de James L. Brooks com Emma Mackey, Rebecca Hall, Jamie Lee Curtis e Ayo Edebiri

Desde sempre, o cinema de James L. Brooks opera por acúmulo: é um cinema de emendas, de recortes, de comunicação espaçada, em que as cenas raramente existem de forma isolada e acabam carregando, involuntariamente, resíduos emocionais das anteriores. Há em Ella McCay — traduzido de forma esperta no Brasil para Imperfeitamente Perfeita —desde a narrativa em zigue-zague e picotada às escolhas temporais que aparecem e desaparecem sem a necessidade de explicar a própria existência, é o caso de um filme que assume uma liberdade rara dentro do cinema americano contemporâneo.


Brooks não parece interessado em organizar os acontecimentos segundo uma lógica de clareza absoluta; prefere confiar que o espectador encontrará seu caminho em meio aos recortes, às interrupções e às pequenas elipses que estruturam a experiência. É uma forma de narrar que pode soar desajeitada para alguns, mas que me parece profundamente coerente com a natureza do filme, cujo padrão de comportamento é justamente o de inflar emoção até parecer exagero. Quando, na verdade, é uma forma intensa de demonstrar sensibilidade.


O próprio cartaz sintetiza bem essa proposta. Nele, Ella aparece cercada por personagens que parecem disputar sua atenção ao mesmo tempo, e a dinâmica do filme funciona exatamente assim. As interações chegam até ela como em uma partida de pingue-pongue: tudo o que bate é rebatido, tudo exige uma resposta imediata, tudo retorna para seu campo de ação. O interesse de Brooks não está apenas nos conflitos individuais, mas na maneira como eles se acumulam e passam a coexistir dentro de uma mesma rotina. Ella se torna menos uma protagonista tradicional do que um ponto de convergência para uma série de pressões emocionais, familiares e políticas. Essa dinâmica lembra, inclusive, a fórmula incessante de comunicação das Screwball Comedies da Hollywood Clássica, reconfigurada na dinâmica de um drama, onde cada fala parece interromper, completar ou redirecionar a anterior, transformando o diálogo em um campo permanente de atrito. 


Crítica de Imperfeitamente Perfeita de James L. Brooks com Emma Mackey, Rebecca Hall, Jamie Lee Curtis e Ayo Edebiri

É aí que Emma Mackey encontra espaço para um dos trabalhos mais interessantes de sua carreira, sem recorrer à fragilidade programada que tantos filmes políticos costumam atribuir a personagens semelhantes. A atriz compreende que Ella está constantemente administrando impactos, absorvendo demandas incompatíveis entre si e tentando produzir algum sentido a partir delas. O resultado é uma personagem que nunca parece totalmente no controle da situação, mas que também nunca deixa de agir sobre ela.


Ainda que, na maior parte do tempo, a Ella de Mackey seja o espelho de onde refletem todas as outras correspondências verbais, Brooks permite, no final do filme, que a ansiedade latente que condiciona a própria forma da obra, ache um espaço categórico para respirar e fazer um acordo com o ritmo. Abre-se uma bonita concessão no desenvolvimento narrativo para que se foque, por quase dez minutos, em uma relação à parte, que pela primeira vez não está esbarrando frontalmente em Ella, mas em paralelo a ela. 


Com dificuldades de sociabilização, seu irmão, Casey (Spike Fern), vai até a casa de Susan (Ayo Edebiri), uma menina com quem saiu há muito tempo e, no impulso de visualizar rejeição antes de qualquer ação, não percebeu que esse poderia não ser o caso. A cena é muito aberta, expansiva, e completamente franca, como poucas são. Há um cuidado em transmitir a mensagem sem eliminar os limites do corpo e dos gestos. É firmado um entendimento real de que precisa haver uma forma de se comunicar através das lacunas expressas pelo silêncio. Se há expressão física, já há voz. Precisa existir apenas uma maneira de encontrar um ponto de intersecção entre desejo e sentimento.


Crítica de Imperfeitamente Perfeita de James L. Brooks com Emma Mackey, Rebecca Hall, Jamie Lee Curtis e Ayo Edebiri

Sinto que as pessoas ignoraram a potência desse momento, mas também de outras cenas delicadas, que flutuam entre o pânico e a apreensão, mas que acham ponto de equilíbrio porque sempre tem um canal de escuta ativo. Aos que reclamam que o filme não tem freio, é no conteúdo que ele o encontra, bem mais do que seus detratores parecem admitir. Na forma, Ella McCay é realmente inchado. Há personagens demais, informações demais e emoções demais circulando ao mesmo tempo. Mas essa descrição também serve para boa parte da filmografia de Brooks, que sempre dilatou a duração de seus longas justamente para conseguir expressar tudo o que queria sem parecer raso.


Talvez seja justamente por isso que o filme exija certa paciência. Existe uma tentação constante de reduzir seus gestos à caricatura ou de tratar seus momentos mais expansivos como sinais de descontrole narrativo. É uma leitura possível, mas também a mais imediata. Quando se aceita a lógica interna da obra, torna-se mais fácil perceber que muitos desses exageros escondem observações genuinamente sensíveis sobre família, responsabilidade pública e desgaste emocional. Brooks continua acreditando que sentimentos contraditórios podem ocupar o mesmo espaço sem que precisem ser simplificados.


Ella McCay está longe de ser um filme perfeito, algo que o título brasileiro acaba reconhecendo — em uma boa sacada. Mas talvez sua maior qualidade esteja justamente nessa recusa em se adequar completamente às expectativas de um cinema contemporâneo cada vez mais preocupado com eficiência, concisão e limpeza narrativa. Brooks ainda filma como alguém disposto a deixar sobras, excessos e arestas pelo caminho. Essa, talvez, seja sua forma mais persistente de resistência.



Nota da crítica:


Crítica de Imperfeitamente Perfeita de James L. Brooks com Emma Mackey, Rebecca Hall, Jamie Lee Curtis e Ayo Edebiri


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