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Gran Turismo: De Jogador a Corredor (2023) | Um case de fracasso

O comercial disfarçado de filme se preocupa mais em falar dos sentimentos do que em despertá-los



Qualquer tendência ligada diretamente aos interesses do mercado, especialmente o não cinematográfico, tem tudo para dar errado. Se o cinema de super-heróis tropeça nos próprios calcanhares, um novo tipo de filme emerge: as propagandas de duas horas de duração que toda marca quer ter em 2023. Apático e com a mesma profundidade que o pior episódio de Malhação, Gran Turismo: De Jogador a Corredor (Neill Blomkamp, 2023) é o novo expoente desse subgênero tenebroso das biografias.


Dessa vez, os olhares vão para a franquia de jogos de corrida homônima ao filme que, além de preencher toda a cartela de clichês, impressiona com o quão pouco consegue alcançar. Se por um lado ele tenta construir um drama de personagem, correndo com todos os elos que o protagonista forma, por outro quer transpassar o frenesi de um campeonato de corrida em que o piloto tem o pescoço sempre na linha. Tudo isso enquanto deixa claro que o jogo é fantástico em sua própria disputa marketeira. O resultado é um amontoado de meio-caminhos para algo interessante. Essa é a sina de obras que tentam abraçar o mundo, se propõe a fazer muito e fazem tudo mal feito.



É difícil falar da linguagem quando não há nada que a faça ser notada. Fora da ação, a encenação se limita a parecer, de fato, um comercial. Não há nenhuma assinatura ou o mínimo de subtexto ao longo de duas horas de rodagem, a câmera só se preocupa em capturar a imagem plana e simples daquilo que se coloca em sua frente. Para não dizer que é completamente sem personalidade, nas cenas de corrida uma coisa ou outra se destaca: os gráficos que mostram a posição de Jaan nas disputas, as transições entre o cockpit real e o digital e um enquadramento tímido que emula o de jogos de carro dão algum sabor para a mise-en-scène. Até mesmo a montagem dessas cenas flui de acordo com o dinamismo das corridas, mas é tudo tão rápido e sem peso que esses momentos parecem mais vírgulas do que parágrafos na narrativa.


A ânsia em ser tudo é um péssimo reflexo do que o blockbuster se tornou. Ou o cinema é o único encarregado de resolver todos os problemas do mundo ou tem que entregar todos os arcos e fechar todas as lacunas para um espectador cada vez mais ansioso por completude. Cômico que um filme de carros se perca nesse emaranhado de ruas sem saída, mas Gran Turismo se contenta em pensar que, por contar uma história real e impressionante, sua representação não tenha importância.


Certa vez li em algum lugar que o pior romance é aquele em que as personagens precisam se beijar para provar que estão apaixonadas. Há um mundo de sensações e sentidos tanto para se mostrar quanto para aflorar no público que precede o ato em si. Aqui, a paixão por carros, corridas e velocidade é muitas vezes comentada e a sensação única de correr é até descrita pelo personagem de David Harbour, mas nunca encontra a tela e muito menos o espectador. De qualquer forma, a única coisa que o filme quer despertar em quem assiste é o desejo de comprar, se trata de uma propaganda e propagandas servem para vender. Talvez jogando o jogo você sinta algo.


 

Nota do crítico:


 

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