Freeway - Sem SaĆda (1996)
- Pedro Daher
- 10 de mai. de 2022
- 3 min de leitura
Durante os anos 90, diversos filmes competiram com a estilização e o sucesso de Quentin Tarantino no circuito alternativo. O pouco conhecido āFreewayā talvez seja um dos casos mais bem-sucedidos nesse sentido

Alguns diretores estĆ£o fadados a viverem na obscuridade, e a aceitam de bom grado, nunca fazendo, de fato, questĆ£o de se enquadrarem no mainstream ou dirigirem um grande filme. Por isso, Ć© sempre curioso quando alguĆ©m sem grandes pretensƵes de se enquadrar no āpadrĆ£o Hollywoodiano de qualidadeā trabalha com atores de renome em um pequeno grande filme, uma obra que agrada mais por acidente do que por pretensĆ£o. Matthew Bright nĆ£o possui quase nenhum crĆ©dito na direção alĆ©m de seu debut e a continuação lanƧada direto em vĆdeo, e entre seus grandes amigos e colaboradores na indĆŗstria estĆ£o os irmĆ£os Elfman. Ou seja, mesmo sua vida pĆŗblica Ć© clandestina.
Em āFreewayā, ele teve bastante liberdade artĆstica. A simples ideia de adaptar o conto da Chapeuzinho Vermelho, em que a figura masculina, ao mesmo tempo que Ć© uma maldição (representada pelo predador), tambĆ©m Ć© uma benção (representada pelo caƧador), para a realidade suburbana de um universo misto de John Waters com Harmony Korine, sem nenhum pingo de esperanƧa ou moral da história para fazer crianƧa dormir, retratando a adolescente vivida por Reese Whiterspoon como alguĆ©m que se livrou da emboscada tĆ£o rĆ”pido que tomou conta do filme e passou a articular, transformar, o que era um problema, em uma situação em que ela estivesse no controle, Ć© genial.
Se esse fosse um filme Oscar-bait, moralista em doses extremas, provavelmente seria sÔdico como forma de retratar a degradação da humanidade, e provar um ponto jÔ estabelecido vÔrias e vÔrias vezes.

Mas o interesse maior de Bright foi em fazer um filme que resgatasse o espĆrito explotation (nĆ£o Ć toa, Ć© uma trama Tarantinesca, e Ć© produzido por Oliver Stone [inclusive, me lembrou seu filme "Reviravolta"]), muito presente nos anos 70 e ressuscitado nos 90, embutido em vĆ”rios subgĆŖneros que vĆ£o eliminando, gradualmente, pontos importantes da trama que vocĆŖ esperaria ver sendo concluĆdos de uma vez.
No inĆcio, por exemplo, vemos a famĆlia de Vanessa (Whitersppoon, em um grau de seguranƧa e confianƧa no papel e na atuação raramente vistos com tĆ£o pouca idade) e a primeira suspeita jĆ” nĆ£o Ć© confirmada: seus pais sĆ£o retirados de cena, entĆ£o a hipótese de que aquele seria um drama familiar jĆ” Ć© descartada.

Depois, ela entra no carro de Bob Welverton (Kiefer Sutherland, tão caricato quanto parece... O nome da sua personagem faz até trocadilho com o do lobo do conto infantil) e dÔ a entender que o resto do filme envolverÔ só uma tentativa de tortura e o contragolpe da fuga, mas, logo, o psicopata é deixado à deriva, e aà vamos para a terceira parte: um filme de rebelião feminina.
A partir daĆ, o gore se intensifica e o humor vai ficando cada vez mais mórbido, com direito a escapadas da prisĆ£o e visitas a postos de estrada que duelariam bem com sequĆŖncias de Coração Selvagem, do Lynch. O mais incrĆvel Ć© que o filme todo Ć© tomado, tocado e levado por Vanessa. Ela nunca chega a ser a vĆtima, sempre Ć© dona de seu destino.
Entre a originalidade dos anos 70 e as reciclagens noventistas, o filme traça um caminho autêntico, e Bright demonstrou muita personalidade, ainda mais para um debut. Fiquei até curioso para ver o segundo filme, também dirigido por ele, com Natasha Lyonne como protagonista, mas jÔ em uma outra tonalidade estrutural.
Nota do crĆtico:

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