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Freeway - Sem SaĆ­da (1996)

Durante os anos 90, diversos filmes competiram com a estilização e o sucesso de Quentin Tarantino no circuito alternativo. O pouco conhecido ā€œFreewayā€ talvez seja um dos casos mais bem-sucedidos nesse sentido



Alguns diretores estĆ£o fadados a viverem na obscuridade, e a aceitam de bom grado, nunca fazendo, de fato, questĆ£o de se enquadrarem no mainstream ou dirigirem um grande filme. Por isso, Ć© sempre curioso quando alguĆ©m sem grandes pretensƵes de se enquadrar no ā€œpadrĆ£o Hollywoodiano de qualidadeā€ trabalha com atores de renome em um pequeno grande filme, uma obra que agrada mais por acidente do que por pretensĆ£o. Matthew Bright nĆ£o possui quase nenhum crĆ©dito na direção alĆ©m de seu debut e a continuação lanƧada direto em vĆ­deo, e entre seus grandes amigos e colaboradores na indĆŗstria estĆ£o os irmĆ£os Elfman. Ou seja, mesmo sua vida pĆŗblica Ć© clandestina.


Em ā€œFreewayā€, ele teve bastante liberdade artĆ­stica. A simples ideia de adaptar o conto da Chapeuzinho Vermelho, em que a figura masculina, ao mesmo tempo que Ć© uma maldição (representada pelo predador), tambĆ©m Ć© uma benção (representada pelo caƧador), para a realidade suburbana de um universo misto de John Waters com Harmony Korine, sem nenhum pingo de esperanƧa ou moral da história para fazer crianƧa dormir, retratando a adolescente vivida por Reese Whiterspoon como alguĆ©m que se livrou da emboscada tĆ£o rĆ”pido que tomou conta do filme e passou a articular, transformar, o que era um problema, em uma situação em que ela estivesse no controle, Ć© genial.


Se esse fosse um filme Oscar-bait, moralista em doses extremas, provavelmente seria sÔdico como forma de retratar a degradação da humanidade, e provar um ponto jÔ estabelecido vÔrias e vÔrias vezes.



Mas o interesse maior de Bright foi em fazer um filme que resgatasse o espírito explotation (não à toa, é uma trama Tarantinesca, e é produzido por Oliver Stone [inclusive, me lembrou seu filme "Reviravolta"]), muito presente nos anos 70 e ressuscitado nos 90, embutido em vÔrios subgêneros que vão eliminando, gradualmente, pontos importantes da trama que você esperaria ver sendo concluídos de uma vez.


No início, por exemplo, vemos a família de Vanessa (Whitersppoon, em um grau de segurança e confiança no papel e na atuação raramente vistos com tão pouca idade) e a primeira suspeita jÔ não é confirmada: seus pais são retirados de cena, então a hipótese de que aquele seria um drama familiar jÔ é descartada.



Depois, ela entra no carro de Bob Welverton (Kiefer Sutherland, tão caricato quanto parece... O nome da sua personagem faz até trocadilho com o do lobo do conto infantil) e dÔ a entender que o resto do filme envolverÔ só uma tentativa de tortura e o contragolpe da fuga, mas, logo, o psicopata é deixado à deriva, e aí vamos para a terceira parte: um filme de rebelião feminina.


A partir daí, o gore se intensifica e o humor vai ficando cada vez mais mórbido, com direito a escapadas da prisão e visitas a postos de estrada que duelariam bem com sequências de Coração Selvagem, do Lynch. O mais incrível é que o filme todo é tomado, tocado e levado por Vanessa. Ela nunca chega a ser a vítima, sempre é dona de seu destino.


Entre a originalidade dos anos 70 e as reciclagens noventistas, o filme traça um caminho autêntico, e Bright demonstrou muita personalidade, ainda mais para um debut. Fiquei até curioso para ver o segundo filme, também dirigido por ele, com Natasha Lyonne como protagonista, mas jÔ em uma outra tonalidade estrutural.


Nota do crĆ­tico:


Para mais crĆ­ticas, artigos, listas e outros conteĆŗdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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