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Decisão de Partir (2022)

Park Chan-Wook esbarra em seu academicismo pedante em filme policial



Desde o lançamento de Oldboy no final de dois mil e três, Park Chan-Wook caiu nas graças de festivais americanos e europeus e obteve prestígio suficiente ao ponto de ser alavancado como o arauto do cinema sul-coreano contemporâneo, abrindo caminho para Bong Joon-Ho e Lee Chang-Dong. Isso fez com que seu estilo fosse subscrito como a assinatura de um auteur por boa parte da crítica de cinema internacional, recebendo um voto de confiança para reiterar a brutalidade dos temas que gosta de trabalhar em seus filmes. Naturalmente, Park Chan-Wook foi atraído a um lugar muito cômodo dentro da sua própria obra, que já era bastante frágil e delicada, onde inevitavelmente caiu em um academicismo quasi-consciente no qual suas afetações mais irritantes vieram à tona.


Decisão de Partir vai todo nesse sentido, mantendo o maquinário cinematográfico do sul-coreano funcionando sobre uma estrutura mais romântica do típico filme policial-investigativo. Seguimos a figura do detetive Hae-Joon (Park Hae-il), encarregado de investigar a morte de um alpinista imigrante que caiu de uma montanha durante uma escalada. Sua atenção recai toda para a viúva, Seo-rae (Tang Wei), a principal suspeita da morte do marido.



Formado excepcionalmente de um vai-e-vem visualmente rocambolesco, o filme nunca sai de um eixo central primordial: a paixão entre Hae-Joon e Seo-rae, que existe idealmente no jogo de identidades e dominação sexual entre detetive e suspeita. A impossibilidade da consumação do amor – ele por ser casado e estar sob serviço, ela por ser a investigada e suspeita do assassinato – também faz com que ambos aceitam atuar nesses papéis com tal intensidade que não conseguem suportar uma relação fora desse jogo que estabeleceram. A paixão surge justamente quando Hae-Joon passa a acompanhar a rotina da mulher, agindo como seu voyeur enquanto ela sente prazer em ser observada ou em saber que ele grava suas conversas.


Há uma satisfação mórbida do detetive pela morte, sua pulsão (“Você só é feliz quando está rodeado de morte e violência”, nas palavras de sua esposa). Seo-rae é quem o deixa mais próximo dessa vida noturna policial de noites mal-dormidas. Não por acaso, o relacionamento é interrompido quando precisam romper com seus papéis – ele precisa se adequar a uma vida mais tranquila na cidade pacata onde sua esposa vive (e retomar seu dever como marido) ao invés de investigar crimes noite adentro. Logo, é preciso que seja feita uma constante manutenção para reatar a ligação entre os dois e seus desejos (o dela, de ser a suspeita perseguida e observada; o dele, do policial-detetive atrás de corpos e suspeitos), seja pelo retorno da mulher sob uma nova suspeita na segunda parte da estória (a restauração dos papéis), seja no final, quando o detetive entende que precisa continuar indo atrás dela.



Mas se por um lado Park Chan-Wook se mostra um cineasta mais romântico que perverso como se mostra em outros filmes (a melhor parte do filme, de longe, é mesmo a forma como trabalha um melodrama espirituosamente sombrio), é menos elusivo do que acredita e mais superficial do que parece, ou melhor: mais elucidativo do que é preciso para um filme cuja narrativa se baseia no mistério da femme fatale de Tang Wei (ligada à investigação das mortes). Nesse sentido, Park Chan-Wook prefere adequar o texto à forma e explicar mesmo as coisas, não cedendo à narrativa qualquer evasão fora do esquema didático estabelecido durante o filme como se apenas reforçasse uma suposta qualidade como auteur contemporâneo. O academicismo pedante, onde o suporte do filme se apoia exclusivamente nessa “assinatura” do cineasta, parece imprescindível para alguém já bem alinhado com o bom-gosto dos festivais – afinal, conseguiu, já que venceu o Prêmio de Melhor Diretor de Cannes; uma salva de palmas!


Na verdade, desestabilizar a sensibilidade romântica pela velocidade da técnica é algo que acontece hoje no cinema contemporâneo, vide Licorice Pizza e Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo, e tem menos a ver com o discurso pós-moderno de “relacionamentos líquidos” que com a ânsia pelo conteudismo. Decisão de Partir segue um pouco a lógica desses dois, mas para derrubar minha chatice, aceito o romantismo tangencial de Park Chan-Wook acalentado pelo trabalho do Park Hae-il e da Tang Wei, mesmo derrapando mais do que controlando a direção.


Nota do crítico:


Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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