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Crítica - Fogo Abismo (Roni Sousa, 2025) | Não sou amiga sua, Roni

Atualizado: 22 de set. de 2025

Mostra Brasília (Curtas) | 58° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro



Ao confundir arte com desabafo, o diretor impõe ao espectador um oversharing indigesto



Notícia de jornal, diário ou filme? Em minha última sessão de Festival de Brasília deste ano tive o desprazer de assistir ao curta-metragem “Fogo Abismo” de (Roni Souza, 2025). O ponto de partida do filme ainda agrada: vir à Brasília carregando a promessa de retorno ao lugar de origem e tentar manter-se conectado mesmo em “diáspora”, destino comum da grande parte dos trabalhadores que vieram para construir a nova capital. Os candangos. Mas o filme apenas rodeou o tema e focou na vida pessoal do diretor. E ao invés da poesia, o que o espectador encontra é uma narração “petracostista” e a tentativa de empatia forçada da história de vida do diretor sobre nós. Há formas de retratar memórias e a exclusão geográfica no Distrito Federal, mas essa passou longe de ser uma delas.


Partindo para a análise do filme, as fotografias de família são hora filmadas com bom enquadramento, hora são simplesmente expostas frente à câmera. Ainda, o excesso de imagens não se traduz em intensidade ou em sentimento — ver mais não não equivale a sentir mais. Como as imagens de drone do filme, por exemplo: não é uma imagem ampla que demonstra a imensidão e o vazio de um local, o drone por si só não é capaz de registrar uma imagem que entrega dimensão. Assim, elas surgiram apenas como um artifício barato. Uma estética de reportagem de Globo Rural ou vlog de viagem. Mal filmado de modo geral.

Mais um artifício desprovido de sutileza e cuidado na aplicação. Já a montagem, quando tenta ensaiar a trepidação do fogo, deixa claro o recurso pretendido à uma crítica de cinema adaptada a reconhecer tais tentativas, mas a aplicação é tão mal conduzida que não comunica bem o objetivo. Fica quebrado e não entrega de fato o que foi intencionado para o seu uso.


Quanto à “noite americana” surge, deslocada, simplesmente atirada no filme sem qualquer contexto estético para ela. Todavia, o seu plano se mostra como único ponto interessante de execução durante o filme inteiro, ao lado de algumas poucas fotografias iniciais, claro. Sendo estes os fragmentos de possibilidade de filme que não se concretizaram. Deveria ter ficado na gaveta.


Retomando o problema inicial da exposição íntima. O filme se agarra a um relato tão pessoal que atravessa a linha do constrangimento: o espectador é arrastado para uma intimidade que não pediu. Um oversharing indigesto, um diário pessoal projetado em tela grande, onde deveria haver cinema. Ao invés da elaboração artística sobre a própria vida, o espectador indefeso recebe um desabafo cru. Tamanha arrogância do diretor em se usufruir de uma sala de cinema em um festival tão importante para Brasília somente para desabafar sobre a sua própria vida. É insultante com a arte do cinema, pois vale lembrar que é para isso que existe a terapia. Não a câmera e o roteiro. Vergonhoso.


A situação chega a ser paradoxal em alguns momentos, pois em meio a um filme tão mal conduzido, a figura do pai alcoólatra, mencionada em dado momento, aparenta ser vítima do espetáculo de exposição. A tentativa de forçar empatia fracassa, porque empatia não se exige; no cinema, isso parte da identificação e do trabalho cuidadoso com a linguagem. Além disso, do meio para o final, Roni joga frases soltas em tom pretensiosamente poético — após uma enxurrada de exposição descritiva — com perguntas banais sobre tia e cuscuz, o que não constrói nada além de constrangimento. Por fim, resta um filme que se esconde atrás da forma de arte, mas que entrega apenas uma verborragia autobiográfica desajeitada. E isso, para o cinema, não basta. A direção não tropeça, pois nem mesmo chegou a andar.


Essa crítica faz parte da cobertura do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro



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