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Crítica - Foram Os Sussurros Que Me Mataram (2024) | 27º Mostra de Cinema de Tiradentes

A temática central do filme é como sobreviver dentro de um mundo cuja única forma política que resta é a da criação de imagens.



Foram os Sussurros Que Me Mataram se passa em um universo que só consegue criar relações com o exterior através de uma política da imagem. O novo longa-metragem de Arthur Tuoto conta a estória de uma atriz (Ingrid Savoy) que está prestes a estrear em um reality show ao mesmo tempo em que tem que lidar com uma convulsão social de grupos anarquistas e de seus próprios fãs. Se trata de uma obra que se passa unicamente em uma locação: O hotel anônimo e transitório que a protagonista passa seu tempo com sua conselheira (Carla Rodrigues) e com seu diretor (Otavio Linhares). A dinâmica do filme existe nesse embate entre o espaço interior que nunca saímos e o exterior ameaçador e aterrorizante que parece asfixiar os personagens. 


Há uma frieza clínica na abordagem de Tuoto que se destaca pelas performances de seus atores: eles interpretam o texto de uma forma absolutamente minimalista que lembra em certos momentos o estilo empregado pelo cineasta francês Robert Bresson, no qual seus atores recitam os diálogos da maneira mais direta e sem tentar colocar uma emoção complementar ao texto, deixando apenas o ritmo dos diálogos fluírem como que dentro de uma recitação oral. Esse aspecto é unido a uma construção cênica que é deliberadamente teatral, com uma marcação repetida dos movimentos dos atores dentro de seus espaços limitados de movimento. 


A temática central do filme é como sobreviver dentro de um mundo cuja única forma política que resta é a da criação de imagens, de uma iconografia artificializada, e isso é encarnado na figura de Ingrid Savoy como uma atriz que existe necessariamente como um objeto a ser contemplado, uma luz que consegue atrair tanto os paparazzis como a fúria de organizações anarquistas. E a ideia de performance é importante, porque num mundo em que todas as relações com o exterior existem pela construção de um imaginário iconográfico, a performance, nesse caso, a atuação, se torna uma ferramenta de poder modulador de auto narrativas. O capitalismo como processo de mercadoria de imagens.


O cinismo lúcido do filme com a decadência de um mundo como esse lembra muito Cosmópolis (2012), de David Cronenberg, que também se passa em um mundo em estado de ebulição que era observado unicamente através de uma perspectiva privilegiada de acesso, um hotel no filme do Tuoto, uma limusine no filme de Cronenberg. Porém, é através dessa comparação que a principal falha de Foram os Sussurros Que Me Mataram pode ser encontrada: se Cronenberg é um cineasta que acredita no poder da matéria, seja nos corpos ou nos objetos, o longa de Tuoto não consegue criar uma lógica visual que faça justiça ao conceito intelectual de seu texto. 


Essa limitação é definida pela mise-en-scène em si ser muito fraca, não há, como nos melhores filmes de Cronenberg, uma forma de encontrar entre os destroços uma sensualidade ou uma fisicalidade potente. A direção do longa fracassa em criar um dinamismo visual que faça o espectador entrar sensorialmente naquele universo, é como se houvesse uma falta de trabalho na criação dos enquadramentos, dos planos, que acaba dando à  lógica visual do filme um aspecto frígido de anonimato absoluto. 


É no mínimo irônico que um filme que seja exatamente como o poder das imagens é capaz de afetar massas inteiras seja em si tão pouco preocupado com sua construção imagética. A maior parte de seu desenvolvimento é em plano/contra-planos que não trazem aquele espaço, aquela profundidade que faz com que o espectador esteja quase que habitando aquele universo (como em Cronenberg, mas também por exemplo, usando como referência diretores que usam uma linguagem baseada em uma depuração quase teatral, os cineastas Straub-Huillet), em vez disso temos imagens que só conseguem ser mornas, quase que compostas de forma amadora e rápida, sem um cuidado essencial ao poder que elas poderiam gerar. 


Porém, mesmo com o filme fracassando nesse aspecto primário, há algo de extremamente interessante que precisa ser mencionado, e que traz certa importância a ele dentro do contexto de uma mostra como a de Tiradentes: é um filme que é difícil de ser gostado. O universo de Tuoto possui um cinismo latente em cada personagem que só busca uma forma de modular seu poder dentro de uma hierarquia de imagens, e a destruição do seu ambiente é sempre vista como uma oportunidade de exploração, uma oportunidade de subir a hierarquia social através de um vazio cultural imenso. E em um mundo como o nosso, cujas imagens habitam incessantemente nosso imaginário e nosso relacionamento com o exterior, ele acaba tocando em uma ferida aberta de forma fascinante. É como um texto intelectual que funciona como uma espécie de manifesto, mas infelizmente fracassa em funcionar como cinema. 



Este texto faz parte da cobertura da 27º Mostra de Cinema de Tiradentes.


 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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