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Crítica - Estranho Caminho | 27º Mostra de Cinema de Tiradentes

Novo filme do diretor encontra sua força na dinâmica entre um melodrama do filho que se encontra com o pai ausente.



O cinema de Guto Parente tem como marca registrada o atravessamento de diferentes gêneros (como o terror, o suspense, o melodrama, entre outros) para criar um universo cinematográfico altamente estilizado e não-realista para que seus artifícios tenham como criar uma sátira de classes sociais (como em O Clube dos Canibais) ou mundos de representações para figuras excêntricas e fora do padrão (como em Inferninho). Em seu mais recente longa, ele se utiliza desse fio entre diferentes tonalidades para contar uma narrativa que é ao mesmo tempo um conto pandêmico tenso e um melodrama familiar. 

Estranho Caminho conta a estória de um jovem cineasta (interpretado por Lucas Limeira) que viaja de Portugal para sua cidade natal em Ceará para exibir seu novo longa-metragem experimental em um festival local. Porém, a pandemia do coronavírus faz com que um lockdown seja imposto no estado e ele perca sua hospedagem, fazendo com que ele tenha que ficar na casa de seu pai (Carlos Francisco), com o qual ele não se comunica faz muito tempo.


O filme começa de maneira sóbria, com a chegada do protagonista, seu reencontro com amigos antigos e sua dúvida crescente de decidir reencontrar o pai, de modo que não há nenhum elemento que pareça estranho ou artificial o suficiente para fazer com que aquele universo não seja idêntico ao nosso. Porém, é a partir do momento em que o celular do protagonista é roubado que esse tom realista começa a cair. Os primeiros sinais são através da figura da PM que responde de maneira excessivamente fria o seu relato, e a expulsão absolutamente abrupta de sua pousada, que gera um crescendo quase tragicômico na trajetória do protagonista. É a partir do momento em que ele pede ao pai uma moradia por algum tempo que o jogo temático do filme se apresenta de forma clara: é um melodrama familiar, com toques de comédia, suspense e surrealismo. 


As junções de diferentes registros são elaboradas através da tensão do relacionamento entre os dois personagens: o pai ressente a figura do filho por considerar ele uma distração ao trabalho que realiza habitualmente (ele está escrevendo uma espécie de livro no computador, no qual nunca sabemos sobre o que se trata) e o jovem cineasta ressente a falta de iniciativa do pai em querer se abrir e se relacionar com ele. O lado cômico vem não só das tentativas frustradas do filho de entrar em contato com o exterior, mas também pela falta de uma comunicação carinhosa e aberta com o pai.


A força principal do filme é esta dinâmica entre um melodrama do filho que se encontra com o pai ausente, dentro de um universo que parece constantemente erodir; o pai nunca permite que o filho use o computador, a comida dentro de casa sempre parece estragada, os funcionários de hospitais nunca parecem se importar com os questionamentos do protagonista. Essa atmosfera de insegurança faz com que o isolamento do protagonista seja sentido em uma potência máxima, e faz com que os momentos leves que ele consegue ter com seu pai adquiram uma força afetiva maior. 


Se trata de uma estória declaradamente autobiográfica de Parente, que perdeu o pai antes da produção do filme, e o que faz com que seja uma obra tão marcante é como essa carga dramática do conflito principal se mantém tão forte e cativante até o final da sessão. Isso ocorre em grande parte devido as excelentes interpretações de Lucas Limeira, que traz o sentimento de confusão e ao mesmo tempo uma mistura de ternura e raiva pela sua figura paterna, e Carlos Francisco, que faz com que o pai nunca se transforme em uma figura unidimensional e se mantenha um personagem complexo cujo enigma de suas intenções (seja do trabalho que está fazendo ou de seu interesse de criar um novo relacionamento com o filho) se mantenha cativante. 


A pandemia de COVID-19 foi a responsável não apenas pelo isolamento, mas pela morte de muitos entes queridos ao redor do Brasil, e este novo longa de Guto é ao mesmo tempo uma homenagem a todos que foram perdidos durante esse período e um estudo de uma certa relação masculina, uma relação marcada por tensões mas que ao mesmo tempo busca uma resolução e uma conciliação com o seu passado antes que a presença viva desapareça. Um ponto forte do filme que muda sua trajetória é justamente o adoecimento do pai, que motiva o protagonista a investigar sua história. 


O amor que criamos, apesar de todos os desentendimentos, todas as brigas, com nossas figuras paternas, é o fio condutor que modula todo o atravessamento entre os diferentes gêneros do longa. É uma obra que tem como força final essa meditação entre o nosso passado e como encontrar uma forma de se conciliar com ele dentro de um contexto de catástrofe global. E o título do filme se justifica ao representar não apenas o caminho de estranhamento que a pandemia gerou para todos os brasileiros, como também foi esse caminho que obrigou o protagonista a se reconciliar com seu próprio passado. Com isso, ele se torna uma das melhores explorações de como resistir e viver mesmo com um lastro que se caracteriza por destruir vidas. 



Este texto faz parte da cobertura da 27º Mostra de Cinema de Tiradentes.


 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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