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Babilônia (2023) | O cinema (não) está morto

Em seu mais novo e pessoal filme, Damien Chazelle embarca numa viagem de excessos ao passado em busca de elucidação sobre os rumos do cinema



Afinal, diante de uma tendência mercadológica crescente que venera remakes, reboots, sequências - qualquer forma de tirar até a última gota de lucro de obras já consagradas no imaginário popular - e autores que se subjugam ao reinado das referências, metalinguagens e comentários auto-conscientes em suas obras; é difícil não se questionar se o cinema (como linguagem) já chegou ao seu limite. Babilônia se desenvolve em volta desse questionamento e escancara os problemas da indústria cinematográfica, ao mesmo tempo em que celebra a paixão de seu diretor pela sétima arte.


Por volta dos anos 80, a linguagem cinematográfica já havia atingido certa maturidade (num mundo moderno que já havia experimentado as inovações que as “Novas Ondas” tinham a oferecer), e por isso exigia de seus realizadores impulsos de originalidade, novos direcionamentos. Foi nesse momento de crise que surgiram as tendências maneiristas de cineastas como Dario Argento ou Brian De Palma, que buscavam na história do cinema (sentida como um fardo) um meio de extrapolar as convenções além dos limites e, assim, tentar criar algo novo. Atualmente vivemos algo parecido, visto que a tendência citada no começo desse texto é algo quase impossível de se escapar. Cada vez mais os filmes se voltam aos clássicos, às convenções, se apoiando em homenagens muitas vezes vazias. Nesse sentido, é bem significativo que a trama de Babilônia se dê a partir do que muitos teóricos consideram uma das primeiras “mortes” do cinema - o advento do som. Chazelle reconhece esse contexto “mórbido” e o traduz num espetáculo caótico e devasso, mas não ignora o fato de que a morte do cinema mudo foi também um passo em direção à completude dessa arte tão nova.


O filme funciona num ciclo de espetáculos visuais, referências e auto-consciência que parece nunca parar. Os planos-sequência caóticos, preenchidos de violência, nudez, excrementos e aleatoriedades, se repetem à exaustão, atropelando os momentos de possível desenvolvimento do passado daqueles personagens. Alguns desses momentos que conseguem resistir são trabalhados com uma seriedade um tanto presunçosa - como os de Nellie LaRoy (Margot Robbie) lidando com seu passado - e acabam fugindo do tom estabelecido, mas felizmente são poucos perto daqueles que funcionam. As situações sérias funcionam muito melhor quando Chazelle as interrompe na hora certa cortando pra mais um espetáculo, num ritmo tragicômico, como se dissesse com todas as letras - “o show deve continuar”. Essa bagunça toda (não no mal sentido) ainda é regida por uma trilha sonora “reciclada”, na qual as músicas são versões não muito modificadas das outras dos filmes anteriores do diretor. É realmente como se não houvesse espaço para algo novo, apenas para mais retornos ao passado.



Apesar da sordidez e de certo pessimismo em seu discurso, chama atenção a beleza com a qual Chazelle decupa suas cenas - todo o virtuosismo técnico já conhecido do diretor se mantém aqui. Mesmo as mais grotescas sequências são filmadas com graça, de forma até elegante, o que pode parecer contraditório dado o tema trabalhado. Porém, acredito que essa contradição revela os mais honestos sentimentos de dúvida e confusão de um diretor que, ainda que compreenda as atrocidades que moldaram o cinema como indústria e a crise que assola o cinema como linguagem, não consegue esconder seu amor pelo exibicionismo mágico dessa arte.


É interessante notar também que, dos personagens que faziam a roda de Hollywood girar, como Nellie, Jack (Brad Pitt), Elinor (Jean Smart) e Sidney Palmer (Jovan Adepo), todos tiveram um fim trágico pelas mãos de uma indústria que usa, abusa e descarta facilmente qualquer talento. Já Manuel (Diego Calva), cujo papel era mais passivo, de observador (evidenciado pelos vários contra-planos que focam em sua reação a algum evento), tem um fim um tanto otimista. Na sala de cinema, ele presencia, junto conosco, o poder quase milagroso que um diretor pode proporcionar através de imagem e som. Para Manuel, Gene Kelly cantando na chuva. Para nós, uma colagem ingênua, quase infantil, de “pedaços de cinema” - desde grandes clássicos que marcaram a história até vídeos experimentais e filmagens caseiras. Numa sequência que resume perfeitamente a ideia do filme, a linguagem cinematográfica é representada como algo que evoluiu ao ponto de colapsar: as imagens cada vez mais abstratas intercaladas com cenas do próprio filme banhadas em filtros coloridos soam como um grito de desespero de alguém tentando se comunicar. Mas até isso, aos olhos de quem assiste, ainda é - e o cinema sempre será - um espetáculo que vale a pena ser visto.


Nota do crítico:


Esse o primeiro de um especial de quatro textos sobre os trabalhos de Damien Chazelle, quando disponíveis, você pode acessar os demais textos aqui:



 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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