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A noite das bruxas (2023) | Entre o algoritmo do suspense e do terror

Em uma tentativa ambiciosa de transitar do mistério ao terror, Kenneth Branagh deixa o espectador à deriva dentro de sua própria narrativa



O gênero do mistério é amplamente popular no cinema e ao longo dos anos desenvolveu várias “ramificações” que marcaram a história da sétima arte. Desde o suspense policial até o subgênero "whodunit", cujo nome deriva da pergunta "who done it?" (quem fez isso?), esses filmes têm como foco a resolução de um enigma, geralmente envolvendo um crime, desafiando o espectador a identificar o culpado. Os filmes desse subgênero frequentemente se destacam pela espetacularização do mistério e são caracterizados por uma narrativa “complexa”, intrigante, reviravoltas envolventes e uma relação mais direta com o espectador. A história do whodunit no cinema está intrinsecamente ligada à evolução do próprio gênero do mistério, abrangendo uma ampla variedade de abordagens e estilos ao longo do tempo. Nos primeiros anos da história do cinema, surgiram filmes mudos que, de certa forma, lançaram os alicerces do gênero de mistério e suspense. Produções como The Lodger: A Story of the London Fog (1927) e The Cat and the Canary (1927) representaram alguns dos primeiros esforços para incorporar elementos de mistério e assassinato nas telas durante a era do cinema mudo. Embora o cinema mudo não tenha produzido tantos filmes do gênero/subgênero em comparação com as décadas subsequentes, esses exemplos destacam o início da exploração dessas produções nas origens da cinematografia.


No entanto, foi nas décadas de 1930 e 1940 que o gênero do mistério floresceu no cinema, e o subgênero "whodunit" começou a ganhar destaque, influenciado, em grande parte, pelas obras de Agatha Christie, cujos livros foram adaptados para o cinema. Filmes como O Assassinato de Roger Ackroyd (1931) e The Passing of Mr. Quin (1928) surgiram como precursores importantes desse estilo narrativo, estabelecendo Agatha Christie como a mais renomada escritora de "whodunit" e uma das autoras mais adaptadas para o cinema de mistério. Sob as mãos e olhares de muitos grandes autores, como Hitchcock e Billy Wilder, o cinema do subgênero "whodunit" passou por uma revitalização, mergulhando em novas ideias, especialmente na era contemporânea. Um exemplo notável é Veja Como Eles Correm, que busca habilmente mesclar o humor caricato com o suspense do mistério. Por outro lado, o mais recente filme de Kenneth Branagh, A Noite das Bruxas, adota uma abordagem centrada no terror, com o propósito de instilar desconforto diante do enigma apresentado.



Com base na obra A Noite das Bruxas de Agatha Christie, o renomado detetive Hercule Poirot ( Kenneth Branagh) retorna para desvendar mais um enigma em uma das cidades mais deslumbrantes do mundo: Veneza. Apesar de estar aposentado e levar uma vida de autoexílio, Poirot relutantemente aceita um convite para uma sessão espírita realizada em um suntuoso e decadente palácio, imbuído de histórias assombrosas. Contudo, quando um dos convidados é brutalmente assassinado, Poirot é inesperadamente mergulhado em um obscuro universo repleto de sombras e segredos.


Branagh é um diretor que já percorreu uma ampla variedade de gêneros, demonstrando sua versatilidade na arte de contar diversas histórias. No entanto, há algo que ele demonstra um profundo apreço: a adaptação de obras literárias para o cinema. Desde Hamlet até A Noite das Bruxas, Branagh empreende incursões na riqueza da literatura filmada, e com isso ele traz um elemento muito característico em sua decupagem: a espetacularização. É interessante notar como Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo são filmes que adotam uma estrutura de espetáculo em sua narrativa. A abordagem de Kenneth Branagh em relação ao mistério assume uma dimensão quase teatral, o que, de fato, se torna um de seus principais desafios em sua obra. Isso porque, ao mesmo tempo em que ele incorpora elementos lúdicos, busca também uma profundidade de seriedade. Não se trata do fato de que o espetáculo ou a grandiosidade não possam ser sérios, mas sim na maneira como ele aborda suas narrativas e constrói sua mise-en-scène, o que nem sempre se harmoniza perfeitamente. Não é à toa que a forma como ele revela os mistérios é envolta de uma aura mística espetacular, como se a solução emergisse do nada. Portanto, essa concepção da tela como um palco diante da plateia funciona de maneira eficaz no primeiro filme da trilogia, mas perde sua força em Morte no Nilo.



Em A Noite das Bruxas, por outro lado, Kenneth Branagh explora de forma mais acentuada a estilização da imagem, buscando criar uma atmosfera de terror em vez da espetacularização que caracterizava seus filmes anteriores. Em diversos momentos, essa hiperestilização parece adotar uma estrutura automatizada, quase algorítmica, eu diria. Por meio dela, ele procura provocar desconforto, porém, isso acaba parecendo um tanto deslocado de sua própria elaboração cênica. É como se houvesse um conflito de ideias, pois, ao mesmo tempo em que as coisas parecem excessivamente automatizadas, também parece que Kenneth Branagh faz questão de enfatizar sua "habilidade" na estilização de cada plano, o que, por sua vez, acaba enfraquecendo o impacto de cada um deles. Devido a essa abordagem, é inevitável não estabelecer uma comparação com o estilo cinematográfico de Christopher Nolan, que tem grande apreço por elementos visuais hiperbólicos, os quais, em alguns casos, parecem falar mais sobre seu ego megalomaníaco do que sobre o seu filme em si.


De certa forma, A Noite das Bruxas parece ter um caráter um tanto egocêntrico, onde Branagh procura constantemente demonstrar sua “habilidade” ao movimentar e até mesmo girar a câmera de cabeça para baixo, sem ao menos gerar um estímulo no espectador, o que é “importante”, considerando que estamos tratando de gêneros, como o suspense e o terror, que têm como característica principal provocar reações imediatas e intensas na audiência. Apesar disso, Kenneth Branagh demonstra ousadia ao adentrar no gênero do terror. A ideia está claramente apresentada, porém, nunca é plenamente alcançada devido à sua decupagem. Não me refiro apenas à tentativa de provocar medo, pois o terror vai além dos sustos. Estou falando da tentativa de emular o desconforto que o próprio Hercule Poirot sente ao longo de todo o filme. Branagh não utiliza apenas a imagem para se comunicar com o espectador, mas também para narrar a história do protagonista. Essa comunicação direta com o espectador nunca é completamente atingida, e a angústia do protagonista nunca é verdadeiramente sentida. Tudo parece estar muito distante, por mais próximo que a câmera esteja de seu personagem.


 

Nota do crítico:


 

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