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A Cura (1997) | O terror na falta de respostas

Através de uma investigação hipnotizante, Kiyoshi Kurosawa explora o aspecto temeroso da busca incessante do ser-humano por explicações



Se em Pulse (2001) Kiyoshi Kurosawa iria explorar (também num ar fúnebre) as dificuldades das relações humanas e a incomunicabilidade com o mundo externo, aqui ele faz o caminho contrário - mergulha na confusão e melancolia da relação do homem com ele mesmo, com seu interior. A Cura (1997) segue a investigação do detetive Takabe (Koji Yakusho) sobre uma série de assassinatos estranhos que parecem não ter explicações concretas, trilhando um caminho em direção à loucura extremamente perturbador.


Kurosawa consegue nos sufocar com os espaços vazios que preenchem os planos, geralmente abertos, mesmo em locais fechados. Não importa o quão pequeno seja o ambiente (como uma sala de interrogação), os posicionamentos dos atores e da câmera sempre produzem uma distância que desnorteia o olhar do espectador. Isso, somado a uma fotografia granulada, gera uma sensação inquietante de isolamento. Mas o interessante é que, diferentemente de Pulse, essa sensação não vem diretamente da impossibilidade de conexão real entre os personagens, mas sim da incapacidade de cada um encontrar seu verdadeiro eu - é como se todos fossem apenas personas criadas para se adequar a momentos sociais, suprimindo seus mais profundos sentimentos. Coincidentemente ou não, há uma cena de diálogo entre o protagonista e o “vilão” que lembra muito o clássico plano-perfil de Persona (Ingmar Bergman, 1966), cujos temas se assemelham ao filme japonês.



É desse conflito do verdadeiro e instintivo com o falso, a "fantasia" que mostramos ao mundo externo, que nasce o antagonista perfeito, Mamiya (Masato Hagiwara). Digo perfeito porque ele personifica um medo inerente ao ser humano - a dúvida. Todos os seus diálogos parecem ser duelos em que Mamiya utiliza perguntas como armas. E são perguntas que aparentam ser simples, mas forçam as pessoas a uma autorreflexão que alimenta a confusão mental que faz os instintos violentos virem à tona. Como se ele dissecasse todos com quem conversa, arrancando aos poucos suas “armaduras sociais”. É interessante também como Kurosawa insere nesse contexto a memória como fator essencial do ser. Já na primeira cena somos apresentados à esposa de Takabe, que sofre com problemas de memória. Quando o detetive é confrontado com o hipnotizador, ele tem flashes de imagens da infância e as vítimas de Mamiya sempre esquecem das coisas. Talvez seja a memória que nos faz quem nós somos, talvez sejam os desejos e instintos, as influências externas, ou até mesmo a soma disso tudo. E o diretor claramente está mais interessado no sentimento aterrador que esse acúmulo de dúvidas causa do que em buscar uma resposta material a tudo isso.


Outro tema bastante presente em A Cura é o de transtornos mentais e a falha da razão em explicá-los. A própria progressão narrativa do filme indica bem isso, começando como um thriller investigativo e aos poucos abraçando o sobrenatural como se fosse o único caminho possível para entender o inexplicável. E, por mais que nem a razão nem a metafísica pareçam ter algum sucesso no esclarecimento dessas questões, a câmera de Kurosawa enquadra o vazio de forma respeitosa, como que abraçando sua natureza, mesmo que melancólica. A quase completa ausência de trilha sonora e a profundidade de campo reforçam esse “respeito” um tanto medonho que se tornou comum na filmografia do diretor, como nas cenas de espírito em Séance (2000) e nos suicídios de Pulse (2001).



Com esse clima de insatisfação pelos questionamentos não respondidos, somos apenas carregados pelo isolamento e guiados ao fim do filme por esse vazio. Takabe é confrontado com seu próprio eu e com a natureza da maldade, sem armas para se defender (afinal, ambas razão e metafísica se provaram falhas). Ainda assim somos deixados sem resposta, apenas assistindo ao ciclo continuar. O diretor nos isola com uma pergunta proferida diversas vezes por Mamiya e que por si só já é aterrorizante: "Quem é você?".


Nota do crítico:


 

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