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Crítica | O Intruso (2004), de Claire Denis

Mais preocupada em proporcionar uma experiência estética do que em contar uma “história”, Claire Denis constrói um universo sufocante e perene em O Intruso.



Um ditado popular diz que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Ainda assim, é muito comum que vejamos filmes (esses trabalhos artísticos cuja linguagem tem como base a transição veloz de 24 imagens por segundo) serem julgados mais por suas qualidades textuais - como o roteiro, por exemplo - do que por suas características imagéticas. Para parte da audiência, a imagem fílmica se resume ao que chamam de “boa fotografia”, rendendo adjetivações vazias como “a fotografia é linda” ou “o filme é muito escuro”, sem uma verdadeira articulação dessas ideias diante da matéria artística. Como consequência, perde-se uma verdadeira apreciação do cinema, sobrando apenas a “história” ou, como alguns gostam de dizer erroneamente, o “conteúdo”.


Diante desse cenário, não é de se surpreender que um filme como O Intruso (Claire Denis, 2004) seja tão pouco apelativo quando percebido a partir do olhar do mainstream. Com poucos diálogos, planos longos e “inúteis” que não avançam a narrativa, uma montagem que não se preocupa em localizar o espectador no tempo e o excesso de elipses (vários momentos de virada da trama não são mostrados), temos um legítimo trabalho do chamado cinema de fluxo. Aqui, não se trata de construir uma lógica de causa e consequência entre eventos e ações, mas de experienciar um verdadeiro fluir de imagens, portanto, uma relação mais direta em relação ao tempo, este elemento tão caro ao fazer cinematográfico.


Como consequência disso, fica claro que Denis não está interessada em simplesmente “contar uma história”, mas em imergir o espectador em um universo estético muito próprio, em que o seu “conteúdo” é a própria forma. Portanto, não bastaria apenas provocar a racionalidade através de recursos narrativos diretos, mas desafiar a sensorialidade via a utilização das possibilidades da linguagem cinematográfica que permitissem a perenidade da própria experiência fílmica. Com isso em mente, fica fácil entender, por exemplo, o motivo da diretora ter optado por planos tão longos, que se estendem no tempo enquanto mostram ações que parecem não mover a narrativa para a frente. Isso ocorre, claro, pois a narrativa não é o mais importante aqui, mas a relação entre os elementos imagéticos e o som.


Comecemos do início: Louis é um ex-mercenário que vive numa floresta distante do espaço urbano. Com um aspecto de “bom selvagem” (ele tem dois cachorros e anda nu pela selva), ele tem uma mentalidade territorialista, tratando a floresta como sua e vigiando qualquer visitante indesejado. Entretanto, ele precisa deixar o pequeno Éden quando seu coração começa a dar sinais de enfermidade, de forma que ele recorre ao tráfico internacional de órgãos para se salvar. É nesse momento que ele sai em uma viagem de proporções épicas atrás de um novo coração e uma reconexão com um filho há muito abandonado.


Ainda que exista um ideal dramático na premissa apresentada por O Intruso, Denis está muito mais interessada em construir uma experiência hipnótica com o espectador. Dessa forma, o filme trabalha mais para assimilar a experiência emocional de seu personagem (e seu próprio fundo temático, como trarei mais adiante) do que para construir um checklist narrativo. Como consequência, o que é apresentado à tela não é um evento ou fato, mas um estado emocional que é pouco a pouco transformado em outro pelo próprio fluxo do tempo. Nisso, não tarda para o filme construir uma lógica muito própria em que conhecemos um território supostamente “virgem” que, pouco a pouco, é maculado por uma presença externa, por uma invasão.


Esse esquema é revelado de várias formas, seja através dos corpos dos atores (o sexo sendo uma invasão, mesmo quando consentido), a fotografia que destaca presenças humanas em meio ao espaço natural, os enquadramentos que excluem certos personagens do quadro (revelando a alienação do invasor) ou mesmo a literalidade da imagem do absurdo (como um coração no meio do gelo). Acaba que a diretora cria um exercício estético da ideia de invasão, experimentando e encontrando cada vez novas formas de reforçar uma sensação muito específica. Interessante que, mesmo quando olhado do ponto de vista puramente narrativo, a invasão está lá: o homem branco europeu querendo recuperar a confiança de filhos largados em países do dito terceiro mundo. Nesse sentido, o filme possibilita uma leitura muito sólida sobre a ideia de colonização, uma das formas mais violentas de invasão que se pode conceber.


Ainda que esse dispositivo - a relação entre território e invasão - possa demorar para fazer efeito, é brilhante como tudo mais aponta para a mesma direção, até mesmo questões supostamente “banais” como a aparência do protagonista diante dos moradores dos países periféricos. Para onde se olhe, encontram-se invasões e o filme reforça essa sensação com a música, elevando a tensão ainda que as ações pareçam ordinárias. Isso não seria possível, obviamente, sem o trabalho de tempo de Denis. Aqui, retorno ao que foi falado sobre os planos longos e supostamente “inúteis”: é esse fluxo de tempo que permite que a lógica interna do filme consiga ser assimilada, um universo que se estabelece em nossa mente.


O que surge disso é um filme que se estende para além da tela, ecoando mesmo dias após ter sido assistido. Mesmo a escolha de Denis de gravar quase tudo como um documentário observacional (a câmera procura a melhor imagem enquanto a ação se desenrola, resultando em uma decupagem mais livre e aberta às possibilidades dos elementos em cena), aponta para a criação de uma realidade muito vívida e, principalmente, imersiva. Não há palavras suficientes para elogiar O Intruso, pois ele não está preocupado em dizer nada; ele é este processo vivo que se desenrola na nossa frente e se transforma pela própria natureza mutável da vida (e da imagem filmada). Não é um filme sobre invasões, mas uma invasão per si revelada esteticamente.


 

Nota do crítico:


 

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