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A Espera Que Vem de Cima: O medo do desconhecido na sociedade dos anos 40 e 50

Quando o cinema americano encontrou a fórmula mágica de reproduzir na ficção os anseios de uma realidade que era meramente especulativa



Os filmes de ficção científica dos anos 50 nada mais eram que reflexos de um universo que, se não era plenamente alcançável, não deixava de ser idealizado por uma população que não tinha resposta para nada, mas ainda assim possuía muitas perguntas de cunho social e político sobre tudo que a cercava. Famílias se reuniam em casa, após o jantar, para ficarem a par do que acontecia no mundo. Um grande conflito, a Segunda Guerra Mundial, acabava, mas o desconforto evidente entre algumas das maiores potências do mundo iria se prolongar por mais tempo.


Em um contexto incerto, onde qualquer tomada de decisão configurava um verdadeiro campo minado que poderia colocar a população em risco, os cineastas da época por vezes abordavam um cenário hipotético de fantasia e, em outras ocasiões, realizavam obras estritamente realistas, mas sem perder o inevitável senso de preocupação com o futuro. A “ameaça” retratada poderia aparecer sob uma forma humana, na pele de um monstro como nas velhas histórias ou ainda como um espectro, um mal estar que rondava a civilização. O correto a afirmar é que, assim como a população, esses diretores não sabiam o que iria acontecer.


Esse foi o caso de Robert Wise, que soube passear e transitar pelos principais gêneros do cinema americano como poucos, deixando marcas profundas no Cinema Noir, no Musical e até mesmo no Faroeste. Quando se aventurou pelo terreno do fantástico, do incerto, fez a ciência andar lado a lado com o mistério, e refutou fórmulas conhecidas.


Em seu grande clássico “O Dia em que a Terra Parou”, que gerou um remake em 2008, Wise apresenta ao público um alienígena pacífico, Klaatu (interpretado por um colaborador tradicional do cineasta, Michael Rennie), cujo nome realmente não parecia corresponder ao nosso planeta. Sem nunca se envolver o suficiente nos problemas humanos, apenas em busca da propagação de sua mensagem, ele conta a vários estadunidenses e também ao resto do mundo que a existência não precisa ser destrutiva, e que o único jeito de conviver em harmonia seria encontrando paz e tendo respeito aos próximos. A personagem possuía um corpo idêntico ao dos humanos, mas uma forma robótica disposta em um pensamento ágil, capaz de resolver equações dificílimas em segundos e colocar em risco a carreira de um cientista, bem como um certo grau de estranheza, e até superioridade, em relação à natureza humana.


O Dia que a Terra Parou (Robert Wise, 1952)

O diretor embala o seu filme em uma intrigante e bem tocada mistura de filme noir com o estilo encontrado na literatura de um romance policial barato, refletindo não apenas as possibilidades artísticas da época, mas também a desconfiança que coloca um ser de outro mundo na condição de herói de uma criança ausente da figura paterna, mas também de foragido da justiça, e até de criminoso. O alien, no caso, é apenas uma metáfora para o desconhecido em geral e, naquela época, poucas eram as certezas. Vários tipos de ansiedade são depositadas na figura de Klaatu, sendo ele capaz de englobar o temor pelo futuro (ou até mesmo a esperança), bem como a ameaça de uma guerra nuclear. Ao longo de seu filme, Wise deposita na narrativa sinais nada sutis, contidos em diálogos e monólogos, de um mal estar inerente. Militares e chefes de governo dizem que é preciso combater as “forças do mal”, aludindo à Guerra Fria e às tensões territoriais, sociais e políticas entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, tendo como solução para essa questão a união e colaboração da população diante de ameaças externas.


Outro filme que retrata bem essa condição é o cultuado, e sondado por grandes nomes, como Alfred Hitchcock e Cecil B. De Mile, “Guerra dos Mundos”, dirigido por Byron Haskin em 1953, adaptação do livro homônimo de H. G. Wells. Aqui, o desespero é um pouco mais universal, porque a ameaça e o tom da invasão são mais agressivos e destrutivos. Dessa vez, os marcianos não possuem a habilidade de pensar sobre a humanidade. Eles só querem impor superioridade ao combate.


Ao contrário de “O Dia em que a Terra Parou”, em que o protagonista veio de outro planeta, mas sempre observou a Terra buscando lucidez e sabedoria, tentando reduzir o uso de seus instintos e fazendo a sociedade refletir, o filme de Haskin tem como personagem principal um cientista, o doutor Clayton Forrester (Gene Barry) que, como de praxe em filmes assim, é sempre o primeiro a desenvolver ideias e articular os cenários possíveis dentro de cada estratégia para lidar e “negociar” com os outros seres, mas também é um dos últimos a serem acreditados. Ele se une à também pesquisadora e cientista Sylvia Van Buren (Ann Robinson) como um porta-voz da comunidade. Há também a natural relação de intimidade que se desenvolve entre ambos, e como eles buscam resolver suas pendências individuais e corresponder às necessidades coletivas.


No filme de Wise, a mensagem é passada de um ser que vem de fora para todos. Já no filme de Haskin, não é o alien que propaga suas intenções, convocando uma espécie de assembleia geral para ser ouvido. Nesse caso, a população da própria cidade (e, em maior instância, dos Estados Unidos) se reúne para aniquilar qualquer possibilidade de existência sem que o poder da comunidade prevaleça, ainda que existam inúmeros ruídos na comunicação e nas tentativas de alcance com o além. Como não conseguem chamar a atenção dos aliens, o que os salva é a fé e a esperança. Em suma, um verdadeiro milagre do qual as pessoas não se dão conta. As personagens chegam a não só cogitar, mas agir sob o uso de armas, só que não chegam nem perto de eliminar o problema. Em determinado momento, até a bomba atômica é usada, mais uma vez traçando um forte paralelo com o mundo fora das telas.


The Atomic Cafe (Jayne Loader, Pierce Rafferty & Kevin Rafferty, 1982)

A ficção pode enquadrar metáforas a partir da realidade, como demonstrado acima, mas os diretores Kevin Rafferty, Jayne Loader e Pierce Rafferty resolveram retratar diretamente o que se passava no imaginário estadunidense entre os anos 1940 e 1950, no documentário “The Atomic Cafe”, de 1982. Para isso, compilaram uma série de propagandas e filmes governamentais realizados na época, sempre apresentando um olhar que nunca é meramente irônico (graças à maneira esperta com que mesclam as vozes em off com as imagens disponibilizadas) mas também crítico e até educativo.


As propagandas e entrevistas ali dispostas retratam, assim como nos filmes de ficção científica mencionados no texto, o medo do comunismo, a corrida armamentista, a cultura e o desenvolvimento da bomba atômica pelos americanos. Os diretores insistem em mostrar os destroços ocasionados pela explosão da bomba em Hiroshima, no Japão, enquanto seguem acompanhando a displicência e o deboche dos estadunidenses.


O grande enfoque do olhar é mostrar como era proibido sentir qualquer tipo de insegurança. O documentário acaba tecendo uma forte crítica aos valores da época, sendo o principal deles a crença na superioridade americana. É seriamente questionada a ideia de que a ameaça comunista era uma justificativa válida para a corrida armamentista, bem como o uso da bomba para se fazer entendido.


Os três filmes, assim como inúmeros outros que também devem ser vistos e analisados, ajudam, de maneiras diferentes, a entender a cultura e a política da época que se refletia em todas as áreas. E o cinema era e é, sem dúvida, uma das principais, com seu grande e inabalável poder de alcance, capaz de fazer com que todos olhassem, sentissem e ouvissem diversas perspectivas de um mesmo assunto.


 

Esse texto faz parte de A TELA INQUIETA, a 4ª edição da Revista Singular. Para mais textos clique aquie para conferir mais do trabalho do autor clique abaixo.


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