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Cavernas, dragões e mansões cor-de-rosa

Como o 'cinema de fanfic' encontrou a fórmula ideal



Entre remakes, reboots e, mais recentemente, as tais sequências-legado ganhando os cinemas, há um estilo de narrativa que tem se apresentado com mais frequência, quando diretores e/ou roteiristas que, fãs de alguma história já conhecida, acabam se propondo a realizar uma releitura ou até mesmo uma sequência direta das obras que são fãs.


Se no cinema, onde falamos de produções de proporções milionárias, esse é um movimento mais “recente” — pelo menos quando feito de uma forma mais escancarada como é agora —, no universo literário o fenômeno já era bem comum há 10 ou 15 anos, quando fãs de sagas famosas como Harry Potter, Crepúsculo e Jogos Vorazes faziam o mesmo exercício, criando suas próprias histórias que poderiam ou não estar diretamente ligadas às obras originais. Sim, as tais fanfics.


Enquanto muitas fanfics — abreviação de fan-fiction, ou “ficção de fã” — ficaram relegadas aos fóruns ou sites especializados para esse tipo de publicação, outras ganharam as livrarias em fenômenos semelhantes às obras em que foram inspiradas, inclusive se tornando adaptações de sucesso semelhante: um dos maiores exemplos é a controversa trilogia Cinquenta Tons de Cinza, originalmente uma fanfic de Crepúsculo.


À sua própria maneira, o cinema tem se aproximado cada vez mais desse tipo de narrativa, não necessariamente adaptando fanfics existentes — embora isso aconteça cada vez mais —, mas praticamente produzindo suas próprias. Cineastas com ideias e visões novas retornam a obras consagradas, gerando produções totalmente novas ou até ressuscitando franquias em uma espécie de cinema de fanfic que acerta e erra na mesma medida.


Fanfiction cinema


Como, então, as fanfics ganham os cinemas para além das adaptações? Não estou dizendo que qualquer remake ou reboot hoje em dia poderia se encaixar nesse tipo de narrativa, mas algumas outras claramente podem ser categorizadas como um “fanfiction-cinema”. A mais recente delas, por exemplo, é a trilogia de Halloween dirigida por David Gordon Green. Isso porque o diretor simplesmente resolveu que para sua história funcionar, todos os filmes — à exceção do primeiro — seriam descartados.


Em sua lógica, em sua narrativa, continuada diretamente a partir do filme original de 1978, Myers e Laurie nunca mais se encontraram, com essa última seguindo sua vida, mas preparando-se para o inevitável momento onde o mascarado voltaria para assombrá-la. O filme de 2018 — que narrativamente ignora todas as demais produções feitas em 40 anos de franquia — foi tão bem recebido que gerou duas sequências: Halloween Kills e Halloween Ends em — respectivamente 2021 e 2022 —, que não repetiram o mesmo sucesso.


Essa tendência de ignorar histórias “oficiais” em prol de uma narrativa nova é um traço bastante comum em fanfics, que costumeiramente repensam eventos e personagens para criar uma nova vertente, reimaginando e criando continuações — e até finais — novos para as histórias originais. Um exemplo, novamente no cinema, mas que nunca chegou a ver a luz do dia, era o projeto de Neil Bloomkamp para a franquia Alien. O diretor pretendia fazer algo semelhante ao Halloween de 2018: continuar a história a partir do segundo filme, de 1986, optando por ignorar os controversos Alien³ (David Fincher, 1992) e Alien: A Ressurreição (Jean-Pierre Jeunet, 1997).


Até mesmo o amado Quentin Tarantino pode ser visto como um diretor desse estilo de narrativa, já que seu Os Oito Odiados (2015) parece ter surgido de uma ideia do diretor ao repensar a história do clássico O Enigma de Outro Mundo (John Carpenter, 1981). O que começou como uma teoria de fã, mas que nunca foi negado pelo diretor, tem certa lógica: um grupo de estranhos fica preso em um lugar isolado no meio da neve, tomados pela tensão de saber que, entre eles, há um intruso que bota todos ali em perigo.


É claro: se o faroeste realmente surgiu de uma releitura do clássico, não dá pra afirmar, mas que é divertido pensar nisso lembrando que Tarantino reutilizou parte da trilha do filme de Carpenter — composta por Ennio Morricone — e que as duas obras são protagonizadas por Kurt Russell… Isso é.


Cavernas, Dragões e Fanfics


Em uma Hollywood cada vez mais tomada por adaptações, onde se encaixa o RPG e o cinema de fanfic? A resposta parece ter caído do céu no colo dos executivos quando a adaptação do jogo Dungeons & Dragons finalmente saiu do papel.


Para quem não está familiarizado com o jogo, vale explicar que um RPG não necessariamente tem uma história propriamente dita, mas sim um sistema onde um jogador — chamado de Mestre do jogo — cria uma história e comanda a aventura, enquanto os outros jogadores escolhem compõem seu personagem para enfrentar os desafios propostos pelo Mestre.


Quando foi adaptado para a animação nos anos 80 — o famoso e nostálgico Caverna do Dragão —, a trama seguiu o básico do jogo, com cada personagem assumindo uma classe do jogo e com direito a um Mestre (dos Magos) conduzindo a aventura. Sabiamente, a animação não foi o centro da adaptação cinematográfica — embora esse fosse um sonho de muitos fãs —, já que os diretores John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein optaram por partir da estrutura do jogo para criar uma narrativa nova. E ao mesmo tempo que a aventura contida em Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes (John Francis Daley, Jonathan Goldstein, 2023) não transfere aos cinemas uma narrativa previamente existente, a obra pode sim ser chamada de fiel. Afinal, o RPG é um espaço livre para que novas histórias sejam criadas, mas a natureza do jogo permite — e convida — os jogadores a trazerem suas referências para a aventura.


Dessa forma, mesmo dentro de um sistema de regras, o RPG permite uma grande liberdade para que cada campanha — como são chamadas as ‘partidas’ dos jogos — sejam diferentes entre si, dependendo apenas dos jogadores. É uma fábrica de histórias que podem ser medievais, ficções-científicas, obras de terror, heróis, etc. Um potencial infinito que, quando voltado ao cinema, pode gerar obras que equilibram bem uma criatividade saudável para a indústria com o apelo gerado pelas franquias, fator cada vez mais decisivo para que os executivos apostem na obra. E longe de dizer que filmes feitos como produtos sejam um demérito por si só. Hollywood é um mercado e sabemos que os filmes precisam lucrar. Mas um sopro de criatividade e inspiração, por mais leve que seja, é necessário para arejar as mentes cada vez mais cansadas e que repetem fórmulas a torto e a direito. E é justamente nesse sentido que o RPG parece uma boa saída justamente por permitir que as fórmulas existam, mas que os autores brinquem no limiar delas.


Dungeons & Dragons é um bom exemplo só de analisar como o filme brinca com a fórmula que parecia atingir. Soando como um “guardiões da galáxia medieval” desde o primeiro trailer — um bando de desajustados, mas não heróis, se unindo em prol de um objetivo direta ou indiretamente heróico — soava familiar, quase genérico. E de certa forma, é, pois joga com as regras necessárias para atingir um público amplo e dar início a uma franquia de sucesso. Mas ao mesmo tempo, apresenta sequências que parecem sentir onde está o limite. O limite do humor, do pastelão, do horror, do deslocado. A mistura é apoteótica em alguns momentos, em outros, é bobo, quase infantil. E com certeza já foi vista antes, mas poucas vezes funcionou tão bem. Afinal, quem tenta agradar a todos, tende a não agradar ninguém. Mas aqui, exigindo uma pouca boa vontade, a aventura embala o espectador e apresenta um mundo divertido e intrigante.


Basta olhar, por exemplo, para a sequência do cemitério, onde os personagens buscam um artefato importante para a aventura, mas precisam lidar com os cadáveres de uma batalha histórica que ocorreu no local. O humor ácido é devidamente equilibrado com um senso de desapontamento pelo fracasso da missão, enquanto o teor do momento em si remete a filmes de horror de décadas passadas, quase flertando com algum subgênero de zumbis.

E é fácil imaginar Dungeons & Dragons indo para este caminho, em uma possível continuação ou até spin-off. Ao mesmo tempo, o flerte com esse tom sombrio para logo depois voltar-se para a aventura principal é devidamente satisfatório.


O espaço para a invenção, porém, está lá. Claro e escancarado.


A casa dos sonhos (dos executivos) está montada


Se Dungeons & Dragons e Super Mario Bros (Michael Jelenic, Aaron Horvath). surgiram como boas surpresas de 2023, mostrando que é possível criar filmes divertidos e rentáveis em cima de propriedades já conhecidas pelo grande público, o que falar do mais novo sucesso do ano? Barbie trouxe um dos ícones mais marcantes do mundo dos brinquedos para as telonas em uma adaptação/releitura inédita que, nas mãos de Greta Gerwig, abriu as portas de sua mansão cor-de-rosa para um público movido pela curiosidade e por um marketing de primeira. O resultado? Um dos filmes mais rentáveis do ano.


Barbie, assim como outras propriedades intelectuais mais “abstratas”, permitem autores como Gerwig adentrar o universo para contar as histórias que desejarem. Sem uma linha narrativa lógica a qual se apegar, a diretora montou um conto de fadas mesclando uma atmosfera caricata com temas pertinentes para criar uma obra que tivesse sua assinatura sem, claro, abrir mão do status de ícone ganho pela boneca em tantos anos presente no mercado. Respeitando tal legado, mas se permitindo uma ousadia que já não parece tão comum no cinema hollywoodiano atual. Não deu outra: a aposta se provou válida e os estúdios já estão encomendando diversas outras adaptações de brinquedos da Mattel para seguir o sucesso do longa estrelado por Margot Robbie. E embora ainda seja cedo para saber se o acerto vai se repetir, o palco para esse tipo de adaptação está montado: os executivos devem estar mais felizes do que uma garotinha que ganhou sua primeira boneca Barbie depois de implorar pelo presente. E é de sabedoria popular que o cinema, ainda que arte, também é mercado e segue o caminho do dinheiro.


É claro que o tiro pode sair pela culatra — quantas adaptações nesse mesmo estilo já não brotaram e fracassaram amargamente? —, mas o fato é que hoje parece mais fácil entregar uma propriedade como a Barbie para um cineasta tentar criar algo mais autoral do que esperar isso do cinema da Marvel ou DC, por exemplo. Enquanto esses personagens já vem com um “manual de instruções” guiados por anos de histórias e/ou regras dos seus respectivos universos compartilhados, a boneca de mil profissões, o encanador dos videogames, ou simplesmente os arquétipos de uma mesa de RPG, soam como algo muito mais atrativo para um diretor ou diretora que desejam o mínimo: contar uma boa história.


Claro que isso não é uma regra, afinal outros grandes filmes do ano seguiram apenas a fórmula criada por suas próprias franquias já bem fundamentadas — John Wick e Missão: Impossível, por exemplo —, enquanto outros usam a fórmula tentando adicionar uma camada criativa que indique um traço mais autoral, mais “único” à obra — como Aranhaverso e Guardiões da Galáxia —, mas o fato é que o cansaço do público com as grandes franquias parece ressoar um pouco mais do que antes.


Nesse ponto, fica óbvia a diferença de produtos como Barbie para outros como Homem-Formiga, Indiana Jones e Flash, que parecem ficar na memória apenas por razões negativas, já que não parece existir um traço nessas obras que as tornem verdadeiramente memoráveis além de ser a terceira, quinta, ou quinquagésima entrada de uma grande franquia. Não tem jeito: para o bem ou para o mal, a boneca de Gerwig e Robbie já tem seu lugar reservado entre os maiores do ano, e basta uma olhada para a quantidade de gente vestindo rosa pelas ruas para notar seu impacto.


Fica a curiosidade para o futuro: qual será o próximo palco que será explorado para que os autores contem as histórias que desejam contar? De cara, o filme baseado no jogo Gran Turismo pelas mãos de Neill Blomkamp parece um bom chute, explorando o universo das corridas. E se esse não promete ser uma febre que tire o rosa de moda — spoiler: não promete mesmo —, cabe aos bons contadores de histórias procurarem a próxima propriedade intelectual que permita histórias tão criativas, divertidas e surpreendentes quanto Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes e Barbie. O público — e os executivos — só tem a ganhar.


 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:


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