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Caminhos Perigosos (1973) | O charme na sordidez das ruas

Scorsese constrói uma visão paradoxal das ruas sem lei de Manhattan, na qual a sujeira do crime e o caos urbano se misturam com a busca por valores e os vislumbres de beleza



Já no início fica claro como Johnny Boy (Robert De Niro, mais uma vez brilhante) é a personificação perfeita daquilo que seria recorrente na Nova Hollywood (a “Nova Onda” dos EUA) - o hedonismo desenfreado que usa da sordidez das ruas como refúgio num país cujas instituições faliram.


Seu principal companheiro, Charlie (Harvey Keitel), serve como um contraponto que não é tão distante assim - afinal, mesmo que tente se aproximar da religião e até de uma certa virtude nas suas relações, nunca o faz longe das ruas (e de todos os pecados que as completam). Tendo esses dois personagens como foco, Scorsese constrói uma visão paradoxal das ruas sem lei de Manhattan, na qual a sujeira do crime e o caos urbano se misturam com a busca por valores e os vislumbres de beleza.


A direção do filme segue uma linha disruptiva que lembra um pouco Acossado (1960), filme de Jean-Luc Godard que também fez parte de uma “Nova Onda” no cinema, a Nouvelle Vague Francesa. Scorsese reaproveita a forma como Godard abusou da “quebra de regras narrativas” através da linguagem cinematográfica, como por meio de cortes abruptos, falta de continuidade espacial/temporal, sons ambientes que atropelam diálogos etc.. Por mais que haja certa linha narrativa fechada, os acontecimentos vêm e vão desordenados e sem aviso, como os carros na cidade grande. Esse caos é perceptível não só na estrutura do filme, mas também do próprio plano, no qual o diretor aproveita para experimentar livremente as possibilidades de enquadramentos e movimentos de câmera - raramente harmônicos.



Tudo isso poderia levar a um lugar de crítica ou um de estudo de personagem em decadência, como já é comum na filmografia de Scorsese. Entretanto - e é aí que, ao meu ver, está o diferencial e maior mérito do filme - o diretor opta por uma abordagem bem mais multifacetada, enxergando e respeitando a beleza nisso tudo. É como se, ao mesmo tempo que condena aquele modo de vida e as condições que o precedem o retratando com escárnio, o diretor não ignorasse a empolgação que exala do hedonismo e da anarquia que regem as vidas desses personagens. No meio de tanta sujeira, alguns gestos ainda se destacam como belos, mesmo que sem um sentido lógico - como o carinho e admiração que Tony (David Proval) tem por seu leão roubado (?), ou o esforço de Charlie em proteger seu amigo Johnny.


Caminhos Perigosos é mais uma prova da coragem e habilidade de Scorsese em respeitar cada um de seus personagens e acontecimentos como objetos de estudo complexos, sem nunca se render a uma moralidade barata. Nas ruas abjetas se encontram de sobra relações desonestas, violência, preconceito e injustiças; mas também há beleza e sinceridade. O que não significa, de forma alguma, encará-las como boas ou ignorar todos os problemas presentes nas vidas que as habitam. Scorsese apenas enxerga o potencial imagético e sensorial que as ruas têm - e parece que nasceu para filmá-las.


Nota do crítico:


Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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