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Muito Além dos Clássicos: Francis Ford Coppola

Conheça a parte pouco comentada da carreira de um grande cineasta de Hollywood, acostumado a trabalhar com as exigências do estúdio sob uma relação turbulenta



Todos os cinéfilos, curiosos ou críticos de cinema reconhecem de imediato o sobrenome Coppola. Mais do que representar uma extensa família de artistas, virou uma marca, um sinônimo autoral de uma linha de produção. No caso de Francis Ford, seu nome sempre acompanha especulações. Sim, ele fez muitos filmes de sucesso, mas os que deram “errado” foram fracassos monumentais em que a ambição morreu abraçada com a falta de comunicação entre ele e os funcionários e as exigências no set desagradaram os atores.


Aqui, procuro falar sobre filmes que foram simplesmente apagados da história ou até foram colocados nela, mas muito depois de terem sido lançados. Nem todos foram desastres retumbantes, inclusive. O Selvagem da Motocicleta teve seu valor artístico devidamente reconhecido e nasceu destinado a ser um filme descolado, simples, mas cheio de marra e estilo. Caminhos Mal Traçados talvez tenha passado despercebido por ter sido filmado muito no início de sua carreira, mas Cotton Club certamente já é um filme subjulgado por muitos. 


 

Caminhos Mal Traçados (1969)


Três anos antes de realizar o filme pelo o qual é lembrado até hoje, o primeiro capítulo de O Poderoso Chefão, Coppola fez exatamente o que se espera de um diretor recém-ingresso em Hollywood na virada dos anos 60 para os 70: traduziu, através de uma grande sutileza e toques experimentais (de quem queria usar o cinema como laboratório para se reconhecer na vida) a busca de uma pessoa por emancipação e individualidade na América, em uma largada pelo espírito livre e pela autonomia criativa. 


Diferentemente de Sem Destino (Dennis Hopper, 1969), no entanto, que seguiu o mesmo caminho em um mundo masculino, em Caminhos Mal Traçados não é um bando de caras que saem por aí andando pela estrada e coletando curiosidades pelo caminho, mas uma mulher, Natalie (interpretada por Shirley Knight) e não existe nada de psicodélico ou representativo de contracultura nessa jornada. Na verdade, cada passo que ela dá deixando o marido e a vida de casada para trás é um alerta de que ela não deveria ter feito isso.


Praticamente todos nesse percurso rumo a lugar nenhum querem dar algum tipo de palpite, quando não impõem o que ela deve fazer, a respeito de suas escolhas. Nesse sentido, é muito curiosa a presença de James Caan, que nos acostumamos a ver em papeis de comando, controle de situações adversas, como Killer, um adulto doce e infantilizado que incomoda mais do que deveria justamente por nunca fazer nada que não corresponda exatamente ao que é pedido a ele.


Acostumada a tantas indagações e obrigações, sem espaço para conversas, Natalie se frustra quando descobre que o único homem em quem pode confiar é tão inofensivo que não se incomodará nem quando for usado ou persuadido, e eles jamais poderão trocar palavras de apoio. Mesmo a bondade que é oferecida a ela é um tipo de privação, um tipo de prisão. Coppola filma esse drama intimista de paisagem ensolarada e coração amargo do mesmo jeito que Paul Newman trabalharia em seus filmes como cineasta. Em ambos os casos, os cineastas se utilizam de uma abordagem realista que não tem filtro, é crua e dilacerante, porque é solitário ser suas protagonistas, e também é cansativo.


O Selvagem da Motocicleta (1982)


Logo após uma década em que seus sucessos se sobressaíram através de grandes produções, o cineasta embarca na aventura mais pessoal de sua carreira: os experimentais anos 80. Não uso a palavra como sinônimo de dificuldade ou inacessibilidade, mas porque seu impulso criativo se manteve sempre ativo, em projetos ambiciosos, por vezes boicotados pelo estúdio, e, em outras ocasiões, rotulados como sucessos cults em décadas posteriores.


O Selvagem da Motocicleta é um filme que pode se enquadrar nos dois casos. Apesar de ser uma obra bem intimista, filmada em preto e branco, com detalhes coloridos que fazem parte da composição do universo, cheio de simbolismos e metáforas que sempre aparecem de maneira sutil, como se Coppola não quisesse revelar tudo e perder o aspecto enigmático de sua criação.


É curioso que o tal “selvagem da motocicleta” do título não seja o real protagonista da história. Ele é vivido por Mickey Rourke com um semblante tão intrigante que parece que o passado oculto dele e sua história de origem são mais importantes para entendê-lo do que o que se vê em tela. O ator que mais se apresenta ao público é Matt Dillon, vivendo Rusty James, como o irmão extremamente oposto do motociclista sem nome, que é respeitado pela cidade mais por sua aura do que por sua presença. 


Há ainda a participação de um embriagado Dennis Hopper, no papel do pai desses dois irmãos que dependem dele para se reconhecerem, porque sua infância foi negligenciada e a ausência de uma identidade combativa reside nas falhas de comunicação de um filme cheio de espaços para a compreensão abafados por um sentimento de inadequação.


Cotton Club (1984)


Em Cotton Club, a atenção de Coppola se transmuta em múltiplas tarefas. Ele se utiliza de tantos atores, e tantos vetores de ação, que não sobra espaço e nem tempo nos letreiros para tantos créditos.


Coppola dirige prestando uma homenagem aos filmes de máfia, à Era de Ouro dos Musicais e, principalmente, à sociedade, acompanhando a ascenção do show business enquanto se tornava uma escada para a segregação racial e o aumento da criminalidade entre chefões de gangues. 


Por mais que as questões sejam reais e a abordagem seja sóbria, esse universo construído por ele é um espelho do cinema, do teatro e das performances musicais de uma geração específica (o elenco tem a possibilidade de mostrar outros talentos, como Richard Gere com seus solos de trompete e Gregory Hines com seu contagiante sapateado), e assim como havia indefinição de preferência e referência, em um período onde a arte popular ainda estava se desenvolvendo em etapas, as personagens filmadas pelo diretor carecem de uma identidade fixa. 


Todos começam o filme buscando, por vias diferentes, o mesmo tipo de destaque, mas havia uma dificuldade de separar os próprios interesses de demandas coletivas, e isso desaba em uma grande quantidade de material de apoio, de cenas de "filmes falsos" mostrando personagens tentando carreira de ator à projeção de notícias no jornal, passando pela reconstituição de astros da época, justamente para ilustrar que as aparências ganham um outro sentido no final.


 

Para mais críticas, artigos, listas e outros conteúdos de cinema fique ligado na Cine-Stylo, a coluna de cinema da Singular. Clique na imagem abaixo para ver mais do trabalho do autor:



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