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Helena Solberg e Lucia Murat contra Autoritarismos na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

Mais do que relembrar filmes históricos, Helena Solberg e Lucia Murat transformaram a 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto em um espaço de reflexão sobre memória, resistência e os desafios enfrentados por mulheres cineastas durante e após a ditadura militar no Brasil


Helena Solberg e Lucia Murat contra Autoritarismos na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto
 Foto fornecida pela CineOP - Roda de Conversa 21ª CineOP (2026)

A curadoria da temática histórica da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), propôs como primeira parte o mapeamento e o debate sobre a participação histórica de mulheres no cinema. Pioneiras como Alice Guy Blaché na França, a estadunidense Lois Weber, Esfir Chub na Rússia, no Japão, Kinuyo Tanaka e, no Brasil, Cléo de Verberena, entre outras, abriram o caminho para que novas cineastas pudessem trilhar o mundo cinematográfico. Apesar dessa importância histórica e influência no cinema, mulheres cineastas ainda enfrentam caminhos trôpegos e extremamente excludentes por um campo historicamente dominado por homens.


Com um olhar aos filmes produzidos a partir dos anos 70, período em que houve uma explosão de filmes produzidos por mulheres e em que o termo “cinema de mulheres” passa a entrar em desuso, a roda de conversa explorou o “fazer cinema” a partir de experiências de mulheres, principalmente durante a ditadura militar no Brasil, como os filmes de Helena Solberg, A Entrevista (1966) e Lucia Murat, Que Bom Te Ver Viva (1989).


Grande parte da recuperação e da redescoberta dos filmes dirigidos por mulheres deve-se ao trabalho de pesquisadoras brasileiras. Por isso, Mariana Tavares, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi também homenageada durante a roda de conversa por seu trabalho de mestrado e doutorado, responsáveis por criar essa base e acesso aos filmes de Helena Solberg. 

Sobre suas obras e inspirações, Solberg citou o livro de Betty Friedan, A Mística Feminina (1963), onde Friedan analisa o vazio existencial de mulheres estadunidenses, grande influência para o filme A Entrevista (1966). Fazendo referência ao Cinema Novo, principalmente à influência que Nelson Pereira dos Santos teve em suas obras, Solberg pontua que “O Cinema Novo estava focando muito no oprimido. Eu me sentia oprimida e estava querendo examinar a minha situação”


Helena Solberg e Lucia Murat contra Autoritarismos na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto
 Trecho do filme A Entrevista (Solberg, 1966)

Em seu primeiro longa-metragem Que Bom Te Ver Viva (1989), Lucia Murat reflete sobre a sua experiência como sobrevivente à prisão e torturas sofridas durante a ditadura militar. Fazendo filmes em busca de uma geração que se sentia perdida e muito derrotada frente às repressões da época, Murat via no cinema uma forma de sobrevivência, resistência e luta. Como diria o início do filme Que Bom Te Ver Viva (1989): “A psicanálise explica porque se enlouquece. Não porque se sobrevive.” - Bruno Bettelheim.


Helena Solberg e Lucia Murat contra Autoritarismos na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto
 Trecho do filme Que Bom Te Ver Viva (Murat, 1989)

Sobre a condição financeira de viabilização de Que Bom Te Ver Viva (1989), Murat conta que além de ter que abrir sua própria produtora, existia um concurso de filme-documentário da Empresa Brasileira de Filmes S.A. —  antiga Embrafilme, empresa estatal de produção, distribuição e exibição de filmes brasileiros —, o qual ela foi contemplada e, além disso, recorreu também aos prêmios que havia recebido de seu média-metragem, O Pequeno Exército Louco (1984). 


Enquanto isso, A  Entrevista (1966), de Solberg, foi financiado por pessoas próximas e teve uma produção de baixo orçamento. Diante da repercussão do filme, ela também relembra a grande divulgação do filme nas revistas e da participação ativa do público, em contraste com o desaparecimento do filme ao longo dos anos. Felizmente, anos depois, uma cópia do filme foi encontrada por uma jornalista da cidade de Pádua, na Itália, dentro de um armário de uma Escola Elementar abandonada. 


Murat, no entanto, revela que grande parte da divulgação de seu filme Que Bom Te Ver Viva (1989) se deve à Embrafilme em 1989, que circulou a obra ao ponto de atrair um maior público até em Belém do Pará. O filme também ganhou premiações importantes em festivais nacionais e internacionais. 


Em contrapartida, após o fechamento da Embrafilme e a falta de acesso à cópia legendada, Murat apenas pode recuperar seu filme devido a um funcionário da Embrafilme, que acabou por transferir o filme para a cineasta por cima do muro traseiro da empresa, permitindo com que a obra fosse recuperada. 


Graças a essas iniciativas, hoje os filmes se encontram muito mais acessíveis devido às preservações realizadas, que disponibilizaram os filmes também em plataformas online, facilitando a distribuição e acesso público às obras dessas importantes cineastas. 


Sendo assim, as trajetórias de Helena Solberg e Lucia Murat mostram que preservar filmes não significa apenas conservar imagens, mas sim permitir com que a voz de cineastas mulheres continue repercutindo e encontrando novos públicos.



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